Feliz ano novo… Feliz vida de sempre! – Por Tatiana Kielberman

É muito difícil – quase impossível, eu diria – escapar de mensagens-clichê ao final do ano. A maior parte de nós costuma fazer uma retrospectiva do que foi bom ou ruim, favorável ou prejudicial, válido ou nem tanto… como se pudéssemos, de fato, separar o joio do trigo.

Mas, durante os meus poucos anos de vida, fui percebendo que, ao longo da rotina – quando as coisas acontecem e o cotidiano atravessa nossos olhos sem pestanejar – nem sempre conseguimos desmembrar um lado do outro… o tudo e o nada… o certo e o errado.

As realidades se mesclam em meio às experiências de cada ser humano – talvez seja justamente esta a graça, o diferencial da emoção – e, por mais que busquemos dividir em gavetas: pessoas, fatos, sentimentos, sonhos, histórias… a verdade é que somos multifacetados e nunca teremos a completa noção do todo.

Fechamos o ano em 31 de dezembro, prometendo que tudo será diferente a partir da meia-noite de 01 de janeiro… Valores – adquiridos em uma vida inteira – modificados de uma hora para outra! Velhos hábitos repentinamente abandonados, sem mais nem menos…. Tudo na maior facilidade, como se pudéssemos trocar de corpo. De alma. De coração.

Pode até ser que dê certo. Talvez dure cinco minutos… Uma hora… Alguns dias… Mas ninguém modifica sua essência apenas porque é ano novo… Porque amanhã será 2015. Nem pelo outro, a quem tanto gostamos de responsabilizar, culpar e atribuir obrigações insanas…

Ainda estou aprendendo a respeito, mas faço uma aposta: a gente muda de verdade quando acredita nessa mudança. Quando a voz de dentro não precisa gritar para dizer o que necessitamos ouvir. E isso basta.

Confesso a vocês que tive imensa preguiça de fazer o meu balanço do ano de 2014, por isso não o fiz. Não tachei minhas escolhas, não julguei meus atos. Apenas deixei que tudo seguisse seu fluxo, como pôde ser… e meu compromisso com 2015 será o mesmo: viver.

Feliz ano novo! Feliz vida de sempre!

Tatiana Kielberman

Solilóquio – Por Tuka Borba

Então vêm as lembranças e Eu revelo fotografias que nunca tirei. Ah, o passado…
Sabe, Eu faço poesia por não me contentar com a realidade. Enquanto isso, Você fica aí feito um bicho arredio.
Você se encontra em lugares pelos quais Eu nunca passei, mas me sinto como quem se lembra de cada detalhe.
Eu compreendo bem esse seu gosto pelas palavras, mas confesso que meu mundo gira ao te ler.
Me sinto tão Você que às vezes Eu confundo as vidas no espelho.
Ontem, ao dobrar uma esquina, aqui perto de casa, meus passos pareciam não me acompanhar.
Olhei para o outro lado da rua e Você andava despreocupadamente pela calçada. Eu tive inveja de Você.
Você que é tão cheio de Eu.
Você que é tão dono de si.
E eu, aqui, sem ao menos saber para que lado aponta aquela placa onde está escrito: vida.
Se Você fosse Eu, com a mesma intensidade que Eu sou você, saberia das maluquices que me rondam e deixaria de lado essas ideias absurdamente normais.
Eu escrevo pra ajudar na cicatrização, mas quem tem razão é Você.

Tuka Borba

CELEBRARE – Por Cláudia Costa

“Celebrar!
Como se amanhã o mundo fosse acabar
Tanta coisa boa a vida tem pra te dar
O pensamento leve faz a gente mudar
Se acostume com a felicidade
Seja inteiro e não pela metade…”

CELEBRAR

Então… chegamos àquela época do ano em que o mundo inteirinho se foca em festas, muito evento social, muita hipocrisia reunida e sequentemente relevada [faz parte do pacote de festas], muita bebida, falatório, gastos e mais gastos, consumos! É fim de ano e, com isso, parece haver para os que estão bem de saúde, uma promessa de renovação no ar. Quase uma ressurreição, penso eu, já que a galera se movimenta e gasta como se não houvesse amanhã. Acho válido.

Penso que seria bom fazermos esse ritual todo fim de mês. Balancetes pessoais [não estou me referindo à grana, por favor!!], reunião com as pessoas mais próximas, das quais realmente gostamos e com as quais realmente podemos contar em momentos de perrengue [sim, eu sei que isso é coisa em extinção, mas é tempo de sonhar], abrir espumantes, rir de nossas falhas e levantar a cabeça ante os desafios vindouros. Literalmente uma renovação interna da melhor qualidade.

Na utopia desta que vos escreve, seria delicioso trocar presentes comprados com significado e coração. Nada dessa coisa obrigatória de dar uma lembrancinha qualquer para o filho do chefe que você viu em fotos ou para aquela tia que você queria ver bem longe. Esquece! É tempo de demonstrar [e sentir] as melhores vibrações. Observar atentamente uma alma da qual você sabe os defeitos, mas cuja vida te é cara, abraçar com alma, de coração inteiro e dizer ao outro [sem estar ébrio, por favor!] o quanto ele é importante na sua existência.

É tempo de se vestir de amor, de se lembrar de tudo que você tem para agradecer à vida, ao outro, a si mesmo. Sim, eu sei que ainda há mil coisas a serem acertadas, inúmeros desafios a serem vencidos, diversas contas a pagar, mas, se você chegou até aqui, é porque ainda há muito mais coisas para te fazer sorrir.

Tenha certeza, pode ser que não se trate só daquele emprego futuro que você almeja tanto, talvez seja tempo de enxergar o que você pode fazer agora por outra pessoa, para vê-la sorrir. Juro pra vocês que não há realização pessoal mais gostosa do que fazer o outro um pouco mais feliz. É literalmente impagável. Se você ainda não experimentou essa sensação, espero que em breve essa alegria te encontre.

Enfim, é tempo de renovação, de promessas, de um apoderamento de possibilidades. Desejo de coração que você seja feliz, não precisa ser o tempo todo, nem é necessário tirar mil fotos para comprovar e colocar nas redes sociais. Te desejo uma alegria genuína, daquelas tão boas que você nem vai se lembrar do seus apetrechos tecnológicos. Te desejo abraços apertados, lágrimas de alegria, beijos de amor e palavras com sentimento.

Desejo que você OLHE para o ser humano ao seu lado e queira conversar com ele, CONVERSAR de fato, e não apenas contar de todo o seu imenso sucesso e blá, blá, blá. Que você queira OUVIR o outro, que ele seja mais importante do que o seu mega novo celular e que você usufrua mais do seu tempo entre humanos, cujo contato físico é possível, do que com as almas escondidas através das telas.

É virada… então, mude a página, o ritmo, o modo. Sorria com gosto, dê gargalhadas de corpo inteiro, tome banho de chuva, dance bêbado ou sóbrio por aí, cante alto, liberte-se! Vai durar um punhado de minutos ou horas, não importa: sinta-se! Alegre-se… até que o tempo passe, ainda há tempo de viver momentos felizes.

Abuse!

Cláudia Costa

Voe no sonho – Por Ingrid Caldas

Na verdade vejo a alma
um pássaro louco – ansiando o céu…
Quando alçou voo distante
sentiu o vento no rosto…
Sem perceber o quanto é importante,
a liberdade o envolve
assoma o fôlego que resta
e o leva em voo cego…

Triste escolha – de pouca esperança
sem saudade ou lembrança…
Antes não tivesse chorado
nem sequer lamentado…

E no recordar mais vivo segue
cantarolando um futuro
que talvez nunca virá…
Mas em seu coração
se desenha pura realidade
em sentimento…

Ingrid Caldas

Aceito – Por Ana Barcellos

Quando eu me achava muito esperta,
muito vivida, muito madura
e muito segura de mim,
Você me aparece com esse mundo novo
Como vindo de um outro planeta
Fazendo minhas certezas caírem por terra
E minhas verdades se dissiparem no ar
Dizendo que agora via o mundo com os meus olhos
E tocava com as minhas mãos
Que nada mais restaria de você
Que deixaria tudo para trás
Bastava eu aceitar.

Respiro fundo,
Penso…

E depois paro de pensar.
Porque o amor não se concretiza se a mente interfere
Cansada da mente sã
[Quase] ansiando pelo risco
Porque mais vale a adrenalina da aventura
Do que o marasmo das certezas.

Então eu aceito.

Que venham as mudanças…
E que se dane o conflito entre o desejo de mudar e a vontade que nada mude.
Porque agora eu já disse sim.

Ana Barcellos

Da arte de (re)inventar – Por Daniela Lusa

Hoje eu tentei escrever uma nova história. Pensei em personagens, imaginei um enredo, construí um cenário, defini o tempo e o espaço. Fiz até diálogos. Quis inventar algo novo, pensei em uma história que nunca existiu e que jamais poderia existir. Eu queria contar a história de um alguém diferente de todos, um alguém diferente de mim. Sentei-me e comecei a escrever.

A cada parágrafo que escrevia, percebia semelhanças com personagens que já são meus, que já foram meus, que jamais serão meus. Em cada linha, encontrava traços de mim mesma, de meus sentimentos já tão expostos e há tanto tempo iguais. Todas as minhas palavras já haviam sido ditas em outras frases, em outras histórias, em tantos outros enredos. Era tudo tão igual que desisti da minha história.

Foi então que me afastei daquele papel cheio de palavras repetidas e suspirei. Aprendi, finalmente, que jamais conseguirei escrever uma nova história enquanto insistir nos mesmos coadjuvantes e não mudar o personagem principal: eu. 

Preciso me (re)inventar. 

Daniela Lusa

Adie o Natal que o menino ainda não nasceu! – Por Mariana Gouveia

“Adie o Natal que o menino não nasceu!”. Era sempre com essa frase que minha mãe acalmava nossa ansiedade na espera dos presentes.

Nasci em uma fazenda no interior de Goiás. E nossos Natais exalavam a magia do dezembro dos contos de fadas. Não havia neve, nem nada tão sofisticado, mas preservávamos a essência da espera para que Jesus nascesse calmo, sereno e as coisas continuassem como tinham de ser.

Dezembro chegava sempre antecipado nos afazeres dos presentes. Não eram embrulhos coloridos, nem brilhantes. Sacolinhas feitas de sacos de linhagem, que hoje ainda uso para artesanatos feitos por nós mesmos. Os presentes variavam entre a colcha de retalhos feita especialmente para cada um dos sete filhos, para as noites frias de junho, e o paletó de flanela, que tinha o mesmo intuito. Os brinquedos, nós mesmos fazíamos, com ossos secos pegos no pasto, galhos de árvores e espigas de milho.

A magia do Natal acontecia em nós na construção do presépio – minha mãe era uma artista sem nunca ter estudado para isso – desde os bonecos feitos da argila colhida à beira da represa, até o capim dourado e a areia fina, que ela coloria com tintas feitas de folhas e frutas que buscávamos no cerrado, e a fusão das linhas no tear.

Colhíamos o algodão, tirávamos do caroço e acontecia a magia de ele virar linhas variadas e, logo depois, tecidos. Coloridos com açafrão, folhas de cebolas e cascas de madeira que, um dia, ensino aqui como se faz.

Cada um em sua função de fazer isso ou aquilo. Minha mãe contava a história do nascimento de Jesus com cada detalhe, que parecia que ela presenciara tudo. E, embora em todos os Natais a mesma história fosse contada, sem mudar nada, a cada ano era como se fosse a primeira vez que estivéssemos ouvindo.

O mais esperado era o nascimento do menino Jesus. À noite, sempre estrelada e ritmada pelo caminhar da estrela-guia, andávamos entre o presépio, com a emoção da voz de minha mãe, que desenhava nosso Natal.

Há 33 anos o Natal deixou de ser contado por ela. A fazenda ficou lá atrás, como num sonho, mas  a magia de esperar pelo nascimento de Jesus se mantém acesa em mim e em cada um dos meus irmãos, graças à semente que ela plantou.

Vivo adiando dezembro em meu coração e tento fazer com que o Natal seja todo dia, em tudo que faço… e, quando a ansiedade bate à porta, relembro a frase que ela dizia: “Adie o Natal que o menino não nasceu”. Mas, quando no dia seguinte, queríamos as sobras da ceia, ela nos lembrava de que Natal era todo dia e que, a cada manhã, podíamos fazer o menino nascer dentro de nós.

Que o menino Jesus seja um eterno renascer em fé, bondade e esperança.

Feliz Natal!

Mariana Gouveia