Silêncio de outono – Por Heleny Galati

O despertador toca: hora de recomeçar a viver nesta realidade, neste momento. Lá fora, os pássaros gorjeiam e as folhas dançam animadas nos braços do vento frio do norte. O morno sol se levanta… parece que ele gastou todas as suas energias entre a primavera e o verão, pois agora ilumina sem aquecer. Não há silêncio no outono. Primavera e verão são ruidosos convites ao coletivo, à festa, à exposição de si. O inverno representa a reclusão, a procura pelo aquecimento e alguns dias de diversão quando a neve aparece. E o outono? Ele é o preparo? Uma estação intermediária, sem significado próprio, sem voz?

Amo o outono, esse conceito de dias frios e sol, de flores renitentes e verdes que desbotam em amarelos, vermelhos e marrons. Gosto de acordar com o frio, pois ele é espécie de companheiro para minha rotina matinal. Descalça, ando pela casa ainda silenciosa, observando o movimento da natureza lá fora pela janela suada. Suspiro. Esses são meus primeiros passos pela manhã e, coincidentemente, são semelhantes aos últimos que dou ao anoitecer… antes de me aninhar entre algodão e plumas, vejo meu reflexo na janela, sobreposto às arvores e ao céu escuro. Se tenho sorte, a lua me ilumina e energiza com sua beleza.

As luas de outono são especiais. Elas são mais brancas, rigorosas deusas noturnas, com seus raios inspiradores. Algumas vezes, é difícil imaginar sua superfície rochosa e poeirenta, ou saber que não há luz nelas, apenas reflexo. Poeticamente, a lua é uma deusa; na realidade, um satélite, provavelmente arrancado, arremessado para fora, mas prisioneiro por milênios e milênios… tão diferente do sol, da estrela, que nos traz vida. Curiosamente, nós o vemos da mesma forma – um deus de fogo –, cruzando os céus para alimentar a vida. Hélios, Apollo, um mitológico ser, no fundo, bem ali na mente, o sol é apenas um corpo que, através da fusão, relembra-nos da nossa dependência e de um futuro fim.

Vagueio com eles de manhã até o último suspiro do meu dia. Caminho, limpando a mim das etiquetas que me colocam, dos comportamentos ditos adequados, das dores que trouxeram lágrimas e das felicidades que passaram tão rapidamente. Alguém comentou que sou uma figura trágica. Buscando sempre as dores e os medos, as incertezas e as perguntas, sem me contentar com a falsa alegria, a pretensa coragem, as certezas plastificadas de uma sociedade amortecida. Foi dele que ouvi claramente que não gosto de respostas, prefiro perguntas. Foi ele que me deu um beijo e disse que sou única, impossível, uma ficção de ser humano. Ele e eu. Independentes e tão perfeitamente encaixados, como o sol e a lua.

Meu devaneios são reflexo das conjecturas que levanto, dos pensamentos caóticos que me possibilito. Sim, eu me autorizo àquilo que contradiz o que o mundo afirma ser permitido. Sou negativa, sou covarde, sou lenta em tomar decisões, sou fraca para manter meu ‘não’. Não perdoo com facilidade, aliás, nunca acreditei em perdão, não confio, não aceito, gosto do ‘não’ mais que do ‘sim’… estranho isso, pois, num mundo em que todos procuram a felicidade em objetos, eu a procuro em mim.

Aceitando minhas fraquezas – ou forças contràrias à turba enlouquecida, que acredita na perfeição de tudo, especialmente na própria –, no mergulho que dou ao lado escuro de minha mente, recobro aquela parte de mim que luta frequentemente para ser simplesmente o que é. Um tipo de invólucro de uma mente repleta de ligações, questões e opiniões. Uma mente que se recusa à etiqueta de cor, de nacionalidade, de sexo e idade… alguém que prefere a solidão à companhia forçada, imposta pela necessidade que nos dizem de ser social.

Não sou social nesse sentido e, se alguém me etiquetasse agora, diria que, de forma inesperada, eu não aprecio gente. Não é bem verdade, amo o ser humano, embora de alguma maneira tenha encontrado poucos pelo caminho. A maioria esta engatinhando entre o animal primordial e a humanidade, em uma luta constante entre seu mundo e a realidade. Como disse, prefiro ser apenas um tipo estranho de humano, que gosta de outono e inverno, sol e lua, que não se importa em andar descalço pela vida. Prefiro minhas escolhas que a de outros. Metamorfose é um tipo usual de palavra, mas não me vejo assim, em eterna metamorfose… me vejo como um er de energia, sem objetivo concreto além do simples viver. Não sou escolhida ou especial, sou apenas mais um grupo de elementos aglomerados num formato provável, não necessariamente real.

Não tenho cor, sexo, nome, sobrenome, profissão ou postura. Desperto nas pessoas suas ambiguidades, seu sentimentos extremados, seus medos confinados, mesclando com dor suas felicidades fugidias. Sou um tipo inequívoco de liberdade escolhida, não imposta… se me restrinjo, é por querer. Se voo, é por poder. Recuso as fantasias que tentam, com promessas tolas e fúteis, controlar as pessoas e suas escolhas. Vidas e mortes não cabem em nossas mãos. As soluções são múltiplas e únicas em determinadas ocasiões. Nós nos vestimos de preto e julgamos, para depois nos despirmos e usarmos o branco da pureza e da certeza. Minha cor é o preto… não como juiz, mas como a noite nos parece. Preto para a introspecção.

O outono não é silencioso. Eu também não sou, nunca fui. Meus sons me custaram sangue, lágrimas, silêncios. Não me importo, calar é como morrer um pouco a cada dia. Não são sapos que engolimos, são energias que perdemos. Não perco mais. Nasço com o sol, vou dormir com a lua e vou viver nesse ciclo aqui por algum tempo, retornando, afinal, ao elementar, ao todo. Não é o fim, apenas o eterno ir e vir.

Heleny Galati

3 comentários sobre “Silêncio de outono – Por Heleny Galati

  1. O seu outono é um aprendizado absurdamente intenso para nós, querida Heleny… Um mar de sabedoria, de lições dedilhadas em sensibilidades…
    Eu não teria como descrever aqui cada emoção despertada em meu íntimo ao degustar suas linhas, mas tenha certeza de que a maestria advinda de suas palavras é incrível!
    Um beijo e muito obrigada sempre!

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