A xícara de chá e ela – Por Heleny Galati

“Deveríamos nos conhecer melhor.” Era assim que ela começava suas conversas com uma platéia imaginária: era um tipo de exercício diário, forma inusitada de manter sua sanidade e, acima de tudo, avaliar o quanto conhecia a si.

Ela era uma mulher de meia idade, de meia vida, meios sonhos, meio amada, meio odiada, meio. Uma mulher de meios. Como sobrevivera a tantas metades? Ao desperdício de tempo e vida que essas meias verdades a conduziram… Ela não queria acreditar que se deixara prender nessa meia vida, mas fora assim. O que restara? O jardim que cuidava como a um filho? O sonho de ser alguém que nunca seria? A imobilidade das certezas que a vida lhe trouxera? O que restara? Esse era seu exercício matinal, juntamente à yoga que praticava nos últimos 20 anos, uma reflexão tardia de seu corpo.

As espiadelas pela janela traduziam suas incertezas. Tantas dúvidas sobre quem ela era realmente. Tantas perguntas que ficavam escondidas sob camadas e camadas de certezas impostas. Era doentio viver assim… não que fosse incomum, certamente esse tipo de vida era o mais aceitável pela maioria. Essa passividade angustiante diante dos fatos.

Fatos. Ela aprendera, com certo esforço, a encará-los não como realidades, mas como impressões da mente de alguém. Ler o jornal era navegar por outras vidas, outros pontos de vistas, não pela verdade. Algumas vezes, essa viagem era cansativa. A luz que ela podia ver, poucos enxergavam… assim, tinha que se calar e continuar a ser a mesma. A senhora sentada no sofá, tricotando um novo cachecol para o filho, aguardando o bolo de chocolate – preferido dele e dela – sair do forno. Esperar.

A vida dela fora um eterno esperar. Esperar pela oportunidade que, quando apareceu, pegou-a tão alheia a tudo que não conseguiu tomar pelas mãos. Esperar pelo amor, ostentado em uma aliança no dedo e uma cama de casal, onde nunca fora feliz. Uma espécie de expectativa do mundo que, para ela, mostrou-se mais uma decepção. Decepções foram suas eternas companheiras, como se a vida negasse a oportunidade de realizações fantásticas guardadas na mente ainda jovem, ainda ansiosa pela vida, pelos descobrimentos e erros. Ela queria errar. Queria muito. Loucura talvez esse desejo de errar, de ser incomum, de tornar-se um tipo de ser liberto de suas qualidades – positivas ou negativas –, imerso em si mesmo. Ela queria…

Não havia sol que a aquecesse, nem beleza que comovesse sua mente. O que ela via era uma fria corrente de mentiras que levava todos – crentes e não crentes – ao mesmo destino: a ignorância. Antolhos e cabrestos, chicotes e esporas, o mundo havia se transformado num local onde poucos possuíam esses equipamentos e, com eles, guiavam a todos: a maioria cega e confusa, incluindo ela.

Ela se perguntava naquele instante se acordara melancólica. Não, não era melancolia. Era cansaço da rotina de ser humana, não Humana, mas um ser esperado e construído numa sociedade que acreditava ter as respostas. Ela sabia que eles não tinham. Como ela sabia? Observando… algo que fazia com primazia. Observar o mundo fora o que lhe restara. Um resto de si mesma perdurava naquelas observações. Ela via o que ninguém percebia.

Nas curvas do caminho para o santuário, vira os crentes serem usados, manipulados, colocados sob um manto de culpa e deveres, enquanto os que os guiavam estavam livres para todos os pecados. Vira, nas casas espalhadas, mulheres e crianças massacradas em nome de um deus ou outro, de um culto ou outro, sem a compreensão da bestialidade que o ato representava, sem o arrependimento humano.

Ela vira famílias serem constituídas e mantidas apenas pela aparência, num ambiente onde o amor fora esquecido e substituído pelo verbo ‘dever’. Quantos deveres tínhamos, quantos deles avaliávamos serem reais? Não, não havia a porta do futuro para todos. Ela via claramente os caminhantes fantasmas de um mundo imaginário. Ela via a destruição e a falta de visão. Ela via. Nada fazia.

Parada em sua casa, esperava o momento de se tornar mais útil. Quem sabe, num outro estado, em outra formação, suas partículas fizessem sentido. O que ela não compreendia, até então, era que o sentido não existia, nem tudo tem explicação, nem tudo é para ser. Apenas acontece.

O que ela não aceitava era que os Homens são injustos, egoístas e sempre procuram a guerra como fonte. Que a desigualdade é um tipo de ferramenta na mão daqueles que governam o mundo dela. Ela não entendia que seu objetivo ali estava sendo cumprido em suas palavras, que sua rotina e suas questões sobre tudo eram combustível para acordar outros. Ela não percebia, ou não queria. Ela nunca gostara da responsabilidade de ser exemplo… preferia o silêncio.

Ela, mulher de meia idade, sem novos sonhos – e não digam a ela que sonhar é preciso –, pois os antigos ainda persistiam. Ela, solitária flor desperta para a realidade que poucos se davam ao trabalho de ver. Ela, sempre ela, novamente ela. Mulher que foi fantasia para alguns, objeto para outros, apenas uma mulher para muitos. Ela não queria ser tão direta em suas conclusões… não, conclusões não, seus ‘insights’. Ela preferia se calar, deixando que a ignorância clamasse o poder sobre a verdade. Ela, cansada e exaurida. Ela, apenas ela e a xícara de chá.

Heleny Galati

4 comentários sobre “A xícara de chá e ela – Por Heleny Galati

  1. Penso que aquilo que há de mais verdadeiro em nossa essência permanece apenas ali, guardado em segredo – no íntimo da alma -, e é invisível para o resto do mundo…
    São sentimentos que levamos conosco ao longo de toda a trajetória, intimidades muitas, que nos traduzem e nos definem muito mais do que os movimentos que exalamos para fora.
    Lindíssimo o seu texto, que me trouxe reflexões mil, como sempre!
    Gratidão eterna.
    Beijos, querida!

    • Sabe Tatiana, o mundo transformou-se em uma série de protocolos. Não os sociais, mas os de felicidade. Sem eles, estamos perdidos e com eles somos outros que não aqueles que nascemos para ser.

      Nossa capacidade foi sublimada em deveres e tradições, imposições e total inação. Temos contemplado o universo como se ele fosse algo incompreensível, não interligado a nós, mas um tipo de mistério desinteressante.

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