Sei lá (ou aqui, enfim) – Por Betina Pilch

Não. Não. Não.

Não estou bem. Céus! Definitivamente não estou. Eu tampouco sou para poder estar. A aparência por aqui não rima com transparência.

Sorrir, às vezes, é só ir, com espaço e sem os dois erres do meio, mesmo… e eu tenho só ido para não sei onde.

Há sorrisos por aqui, sim. Mas não me pertencem. Eles existem apenas para serem dados a outras pessoas, que precisam de uma emissão de luz em dias tristes. E sorrir para o outro não significa estar sorrindo.

Não. Não mesmo.

Meu sorriso é minha luz de emergência, que rapidamente se acende quando percebe que se faz necessário iluminar, mas a luminosidade interna está apagada. E aqui dentro está tudo tão escuro ultimamente…

A vida tem que entender que já não há mais inquilino dentro desse cadáver ambulante que chamo por meu nome, não há alguém para prestar contas de algo. Meu eu foi embora e, por isso, a luz dentro de mim foi cortada.

Não, minha alma não sorri faz tempo. Há tempos não sorrio para mim, porque já não há mais eu nessa pessoa que já não é mais minha também.

Eu queria tanto voltar para casa, já não moro mais em mim e maldita hora em que a vida despejou meu eu daqui ou de lá… não sei, já não lembro onde estou.

É… Descobri que há uma linha tênue entre doar e doer, que vez ou outra se rompe e, quando rompida, gera um abismo perigoso. Muita coisa já morreu por cair ali.

E eu? Me doei, me ‘doí’ e, por fim, me perdi. Quiçá morri e não percebi. Ou percebi e não senti. Ou senti, mas não vi. Ou vi e esqueci.

Pode ser. Tanto faz. Não me interessa olhar para trás.

Só queria um resgate imediato da pessoa que eu sou. Não me apetece ser, no futuro, um fruto do que há aqui hoje.

Por isso eu só queria voltar a ser, porque esse verbo já não cabe mais no contexto em que vivo. Se é que vivo.

Já não sou, porque deixei estar. Ou simplesmente estou, porque – talvez – assim seja.

Betina Pilch

11 comentários sobre “Sei lá (ou aqui, enfim) – Por Betina Pilch

  1. Algumas vezes são tantas coisas que nos acontecem que desaprendemos a enxergar o que ainda vale nessa vida, vemos tudo pelo olhar da tristeza. Mas há um lugar depois da dor, onde poderá ser muito mais. Doa, mas sobreviva.

    • Caminhamos nesse meio-fio-do-mundo-nosso, entre linhas tênues bambas que nos fazem temer e tremer e, de fato, olhar para o chão não é a melhor visão a se encarar.
      “há um lugar depois da dor, onde poderá ser muito mais” caminho com essa esperança. E hei de sobreviver sobre as dores, sim.
      Obrigada, Poeta!

  2. Bê, além da alma bonita que transcreve, acabo de perceber que temos em comum o sorrir que às vezes fica mesmo no “só ir…”.
    Sou fã das suas letras e, por hoje, me encontrei aqui entre as suas frases, num texto inteiro.

    Amei!

    Beijos

    • Ah, Cláudia! Na maioria das vezes eu fico no “só ir” mesmo, no entanto quando te encontro por aqui consigo atar os dois monossílabos com os dois erres tantas vezes perdidos.
      Obrigada. ❤

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