Ele – Por Heleny Galati

“Tem coisas que são simples e nós complicamos, tem coisas que são complicadas e nós ‘temos’ que simplificar.” Essa é uma das frases favoritas dela, e a razão é simples: ela vive isso todos os dias.

Complica o acordar pela manhã com desculpas, com preguiça e até mesmo aquele sentido de depressão tão constante em sua vida. Complica seu relacionamento, insistindo que o outro caiba em seus sonhos, que seja o ideal e não o real. Complica todos os momentos de sua jornada para o trabalho, reclamando de tudo e de todos. Do trem lotado, do ônibus atrasado e, especialmente, da falta de educação de quem a cerca. Complica e complica.

No entanto, ela precisa simplificar quando se trata do filho. O que lhe toma toda energia e traços de felicidade. Ele não é afeito a mudanças, só que mudanças passaram a ser um constante em sua vida. Mudou de escola, país, casa, amigos e, logo depois, apenas passados três anos, precisou modificar tudo novamente. Justo ele, que não tolera um novo condimento na comida, uma forma diferente de preparar o macarrão ou o jeito novo de dispor um objeto em casa. Logo ele, que se recusa a experimentar algo novo, tem que fazê-lo todos os dias. Cabe então, a ela, simplificar essa complicação da vida dele.

Não para por aí. Ela tem que abordar os estudos de maneira especial. Não adianta exigir, punir… não funciona. Tirar computador ou televisão ou qualquer regalia, tem efeito contrário. Então, é preciso abordar com criatividade e paciência, incentivando e insistindo no que ela chama de ‘sermões da montanha’, dia após dia. Ele tem sempre certeza de que está certo, mas ela sabe que não… Porém, contradizê-lo não funciona: ele precisa descobrir isso – seja na conta de Matemática, no tópico de História ou mesmo no novo jogo que acabou de comprar. A autoestima dele é baixa, às vezes, como se ele desconfiasse de quem é, do que é capaz. Isso machuca, pois ela o ama demais para aceitar passivamente tal fato.

De manhã, acompanha a preparação para a escola, tenta manter o moral alto, até ele fechar a porta… então, ela desaba. No meio da tarde, quando ele retorna, ela novamente veste a fantasia da felicidade, do contentamento e da leveza, recebendo o filho com ansiedade e sorrisos. Lição de casa, conversas sobre o dia… Ele algumas vezes nervoso e irritado, ela tendo que manter o bom humor. Ambos cansados, afinal, estrada tem sido longa.

No começo, ela pensava que o erro era seu. Que ele era fruto de seus excessos, de seus altos padrões. Pessoas a haviam convencido disso, fazendo com que ela acreditasse em sua incapacidade de ser mãe, levando-a a uma distância tal que, mesmo perto, ele não conseguia alcançá-la. Ela tentou fugir, ele aceitou, mas ela não conseguiu. Voltou a lutar ao lado dele, mesmo exausta, sofrendo, com medo.

Apenas agora, nesta nova estrada, ela percebe que não foi sua culpa. Só hoje ela vê quem ele realmente é, sem as etiquetas que os demais, em outros tempos, em lugares medíocres e atrasados, impingiram a ele. Neste momento, ela escuta, de profissionais não amadores, respostas a suas dúvidas: ele é inteligente, ele é esforçado, educado, gentil, doce… enfim, ele é completo e capaz.

Ela está sentada na sala escrevendo. Novo livro, novos momentos. Ela ainda não está feliz, faltam poucas pinceladas aqui e ali, um toque de liberdade, uma cor de aventura. Ela continua esperando, pacientemente, mesmo que complicando o simples, pelo momento em que ele voará… e ela, também.

Heleny Galati

3 comentários sobre “Ele – Por Heleny Galati

  1. Uau!! Um texto tão tocante que, se eu tivesse bom senso, nem comentaria, mas faz tempo que esse senso não me faz companhia…Doeu aqui, cansei aqui, vesti a fantasia da energia pra seguir…o texto ganhou uma vida latejante. Está batendo aqui…

    Obrigada por tê-lo escrito.

  2. Minha querida Heleny,
    Seus textos e contos sempre agregam uma sabedoria única e, com isso, trazem até nós uma oportunidade a mais de aprender… rever valores e, principalmente, refletir acerca de nossas próprias ações!
    Não tenho dúvidas de que “ele” e “ela” são parte de um todo – de uma vivência singular e ímpar -, que se complementa e agrega, todos os dias… são o mesmo ar, a mesma sintonia… e mal sabem o quanto não vivem um sem o outro!
    Lindíssimo!
    Um beijo e obrigada sempre!!

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