A vida é uma peça de teatro que ela nunca ensaiou – Por Betina Pilch

Tudo que ela queria era ser misteriosa. Acreditava que seria mais fácil lidar com a vida se ninguém soubesse o que se passava dentro dela. Talvez fosse mais suportável lidar com a sua companhia se ela não ficasse alagando a vida dos outros com aquilo que transbordava do seu interior.

Era difícil não saber esconder os sentimentos e pensamentos que formavam aquela menina, às vezes tão velha, outras vezes tão criança. Talvez ela fosse um livro infantil com páginas amareladas. Ou um livro novo com enredo antigo. Não sabia como se classificar. Ela era diferente, aberta, mas de difícil leitura. E, a cada nova abertura que ela fazia em si mesma, era um novo arrependimento e uma nova murmuração. Acreditava que era sempre melhor ter ficado quieta, mas o silêncio fugia o tempo todo, deixando abertas as portas da emoção.

Com certeza, ela preferia ser um livro em branco àquele cheio de rabiscos confusos, que ninguém conseguia entender. Aqueles rabiscos gritavam, mesmo sem emitir som… e seu barulho a irritava tanto! Mas, não tinha jeito: a sina daquela menina era viver com a vida assim mesmo, entalada na garganta. E, por isso, ela falava tanto… para ter acesso à própria existência.

De fato, ela não era misteriosa… tinha tendência à transparência, bastava olhar para os seus olhos que todos enxergariam seu interior. E era fácil fazer parte da sua vida também, porque ela tinha amor para dar, doar e doer, mesmo que nunca o recebesse de volta. Ela tinha palavras de conforto para todos, ainda que não tivesse alguém para lhe confortar quando ela mesma precisava.

É… Ela realmente gostava de falar. Gostava de fazer os outros perceberem que eles não estavam sozinhos, porque ela se manteria ali para ajudar. Gostava de tentar entender as pessoas e mostrar para elas que as compreendia. Sempre dizia aos que amava o quanto eles eram importantes em sua vida. Sim, ela precisava expressar o que sentia. Era essencial cada demonstração.

Acreditava que a vida era para ser vivida assim: intensamente! Sem jogos, camuflagens, máscaras… feita de extremos. Era intensa até mesmo nas vírgulas, que tentavam pausar seus sentimentos… e, em cada ponto final, ela conseguia enxergar as reticências. Sentimentos não tinham fim. Uma vez sentimento, sempre sentido, mesmo que às vezes sem sentido algum.

Mas, nessa de pensar tanto nos outros e cuidar tanto de todo mundo, ela se esquecia de pensar em si mesma, de cuidar da sua própria história. Cometia negligências consigo, sempre se colocava em segundo plano e não conhecia o egoísmo.

Ao correr atrás da felicidade alheia, deixava de ir atrás de sua própria vida. Nunca protagonizou seus sonhos. Concretizava suas fantasias através do próximo, simplesmente por não saber lidar consigo e, ao parar para ler sua história, percebeu que tinha escrito mais sobre os outros do que sobre si mesma.

Deixava que os demais subissem no palco da sua vida e se tornassem protagonistas, porque ela jamais saberia lidar com os aplausos, muito menos com os vaias da sua peça. Então, tornou-se mera coadjuvante da história que escreveu.

Eternizou sentimentos que nunca serão correspondidos, cuidou de quem nunca cuidará dela, arrancou sorrisos de quem nunca a fará sorrir de volta, chorou por quem nunca notou suas lágrimas. Sofreu por quem nunca conheceu o sofrimento, lutou por quem nunca quis ser conquistado, correu por quem preferiu ficar sempre parado e viveu por quem não sabia o que era viver. Tudo isso porque ela não sabia ser metade. Não sabia ser fração. Não saía dando pedacinhos dos seus sentimentos às pessoas, porque isso a lesionava. E ela compreendia que, após tantos retalhos, não haveria bordados capazes de esconder os remendos feitos nela.

Por isso se dava por inteiro, a ponto de não sobrar nem um pouquinho dela para si mesma. Queria abraçar o mundo e, em meio a esse desejo, esquecia que seus braços eram curtos demais. Mas ela só sabia ser assim e, não importava o que fizesse para tentar mudar, não conseguia. Porque seu jeito de cuidar de si mesma era cuidando daqueles que estavam próximos.

Então, não… ela não era misteriosa, não tinha o melhor papel para atuar na sua própria vida, não era mocinha nem vilã. Era mais espectadora do que atriz, era destrambelhada e complicada, vivia dando com a cara na porta e pulando janelas, mas só fazia pelos outros aquilo que esperava que um dia fizessem por ela.

Betina Pilch

12 comentários sobre “A vida é uma peça de teatro que ela nunca ensaiou – Por Betina Pilch

  1. Oi, texto incrível. Gosto da forma com que amarra as frases, sempre sabe as palavras certas, as, utiliza muito bem as figuras de linguagem, consegue passar uma profundidade incrível, parabéns.

  2. Um dos textos mais lindos e sensíveis que você já escreveu, querida…
    Sei que sempre digo isso e já está se tornando quase um clichê, mas é a mais pura verdade… Suas palavras adentram meu coração com uma leveza única, traduzindo o que há de realmente essencial na vida!
    Amei!!
    Um beijo grande e obrigada!

    • Aiai Tati, eu realmente fico sem palavras diante do seu carinho e atenção. Só me resta agradecer, mais uma vez. Sim, serei (e)ternamente grata!
      Beijo sua linda!

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