Diferentes – Por Heleny Galati

O Sol brilha sempre, embora não vejamos seu brilho à noite, como também não conseguimos ver a luz das estrelas durante o dia. Pensamos no Sol como algo diferente das estrelas, como se ele mesmo não fosse uma delas.

Uma rosa não é igual a outra. Você e eu nascemos de úteros diferentes, como resultado da combinação de duas porções de outros seres humanos. Curiosamente, embora sejamos muito, muito similares, somos diferentes. A forma como tudo é arranjado não é igual. Podemos dizer que nascemos únicos e vamos crescendo para nos tornarmos iguais. Existe uma antítese aí, pois quando crianças, temos plena consciência de que somos únicos, e isso não afeta nosso relacionamento com os outros únicos. Ao crescermos, vamos nos moldando para pertencer a um grupo, e então passamos, como juízes, a separar aqueles que não são iguais a nós. Não há aceitação ao diferente quando começamos a crescer.

Ser diferente, no mundo atual, é complicado. Se você tem dinheiro, sua ‘diferença’ é considerada excentricidade, até mesmo moda. Se você é pobre, apenas um defeito. A diferença só é ‘aceita’ quando fica tão explícita a ponto de proporcionar uma oportunidade para ‘parecermos’ bons, superiores em nossa aceitação dessa diferença. É comum ver grupos de pessoas iguais, dando apoio, oportunidades aos diferentes – àqueles com limitações físicas, com síndromes que são absolutamente extremas em sua aparência ou comportamento. Esses são nossa porta para o alívio da consciência, um tipo de portal para o autoelogio, a completa satisfação do ego. Talvez seja essa a razão pela qual existam tantas organizações de caridade, em que seus membros são ativos, interessados, mas – saindo do âmbito do ato caridoso oficial –, são intransigentes, mal educados, frios e preconceituosos.

Imagine se o Sol acordasse amanhã não amarelo, mas verde. Essa mudança de cor faria diferença para você? Se ele continuasse a proporcionar a mesma energia, os mesmos benefícios ao Sistema Solar, seria ele menosprezado por ter outra cor? Essa insignificante mudança faria com que você apreciasse menos seus momentos à beira-mar ou as caminhadas pelas montanhas? Como seria?

Imagine um ser humano perfeito em sua aparência, até mesmo belo para os padrões de nossa época. Uma bebê cercado de amor, privilegiado diante de tanto outros que não têm a oportunidade de respirar em um ambiente de amor e segurança. Imagine olhos verdes, sorriso amplo e ingênuo. Sinta o toque de sua mão. Sei que pode ver isso. Desde a pele branca, com rosadas bochechas, até os lábios vermelhos, que se abrem num sorriso sem mácula.

Esse menino, esse ser humano, tem algo escondido dentro dele. Tem aquela característica de ser único. Sua singularidade é incentivada, os pais acreditam em suas capacidade e procuram povoar sua vida com o que desperta nele toda sua habilidade de ser. Ele compreende, aprende, supera seus obstáculos. Ele cresce, até que…

Num momento inesperado, é empurrado para dentro de um grupo, no qual é esperado que ele seja ‘igual’ aos outros. Ele não compreende a razão, mas sabe que não é igual. Vão exigindo dele que se encaixe na curva média. Que aprenda o que acreditam que deva aprender, da maneira que todos aprendem. Culpam aqui e ali, buscam no exterior as razões. Invadem a privacidade da família e apenas olham para o menino como inadequado.

Como um ser humano pode ser inadequado a outros? Ah! São inúmeras as formas que criamos para a inadequação. A cor da pele, a quantidade de dinheiro, a aparência, suas preferências sexuais – que, em minha opinião, deveriam ser pessoais – a religião que professam, até mesmo o time de futebol para o qual torcem, entre inúmeras outras barreiras que somos capazes de criar, apenas para colocar os outros em ‘seus devidos lugares’.

O menino foi humilhado, especialmente por aqueles que, teoricamente, deveriam estar ainda puros de preconceitos e julgamentos: seus colegas de classe. Eles, em sua ânsia de fazer parte do grupo, repetiam o que os adultos que os cercavam diziam. O menino feliz, ansioso por aprender, foi murchando. Encolheu-se numa pequenez incompreensível para quem o amava.

Os dedos acusadores apontavam direto para quem sempre parece ser responsável pelas ditas ‘disfunções’: a mãe. Ocorreu, então, o pior. O abandono, o desespero, a quebra do ambiente seguro. Laços foram desfeitos, ódios adormecidos suplantaram o amor existente. Foi uma queda, um despencar em um poço cujo fundo era desconhecido… se é que havia.

O menino sofria. O sofrimento fluía em suas palavras de ódio contra si. Nas ações que procuravam machucar seu corpo – punição por sua estranheza, pela diferença que ninguém compreendia, nem queria compreender. Do paraíso para o inferno, do amor para o ódio, da esperança para o desespero da descrença: essas foram as mudanças imposta a seu mundo.

Abandonando tudo, os pedaços de uma família foram recolhidos em quatro malas, um pouco de dinheiro e a certeza de que nada seria pior do que ali. O menino, sem entender o novo caminho, apenas se observava feliz por deixar para trás aquilo que o magoava… que fazia com que ele passasse horas no banheiro da escola trancado, sem que ninguém se incomodasse em saber da razão. Finalmente se libertar dos ‘mestres’, que batiam em sua cabeça, gritando palavras que o faziam sentir-se ainda mais inadequado. Ele iria embora, esperava encontrar seu lugar. Vibraram com a notícia de que ele iria partir! Crianças aplaudiram o fato dele deixar o grupo.

Diferente. Ele aprendeu rapidamente que realmente era diferente. Num novo lugar, tentando encontrar seus espaço, ele percebeu que a diferença não o fazia inferior: apenas e tão simplesmente diferente. Como eram todos, como era o pequeno Carlo, o alto Dominic, a forte e esportiva Dulcie e a meiga e introvertida Mary. Ele se viu aprendendo com mais facilidade, superando obstáculos que nunca imaginara ser capaz. Trouxe para casa prêmios, palavras construtivas, amigos e, acima de tudo, teve uma família novamente.

Existem ainda aqueles pensando nele como diferente. Não o diferente que todos somos, não como uma nova cor para o Sol, mas como um Sol inútil. Existem ainda os desafetos do passado, os profissionais que nunca serão punidos por sua ineficiência. Existem outros, como ele, sofrendo. Etiquetados como incapazes, sendo nutridos com drogas e terapias inúteis, quando tudo de que precisam é amor e profissionalismo.

É necessário ouvir, e não impor nossa certeza sobre essas pequenas crianças. Acima de tudo, o profissionalismo deve imperar, não o lucro, não os favores trocados. As crianças diferentes, como o menino diferente, merecem respeito, suporte, incentivo. Merecem um afago quando acertam e não tapas quando erram. Precisam, acima de tudo, ser respeitados, para poderem respeitar. Os diferentes, sejam visivelmente diferentes, sejam apenas diferentes, têm o direito a pertencer à espécie humana, têm o direito ao amor e a um lugar nessa sociedade feita de iguais. Sua diferença é o tempero necessário à nossa sobrevivência. Tantos – que hoje são respeitados e enaltecidos como gênios – foram chamados de diferentes.

A humanidade ainda prefere os iguais. A massa não pensante, fora do círculo que lhe foi imposto na infância, ainda se preocupa com detalhes que não fazem diferença. Continua a matar gênios, apenas porque eles são diferentes.

Heleny Galati

2 comentários sobre “Diferentes – Por Heleny Galati

  1. Perfeita e importantíssima reflexão, querida Heleny…
    Quantas barreiras vamos criando devido às “supostas” diferenças que, a bem da verdade, só existem em nossas próprias mentes?
    Se o ser humano se propusesse a expandir o pensamento e olhar o próximo como parte de si mesmo, com certeza as relações seriam outras… mais amenas e isentas de preconceitos!
    Senti na pele cada linha descrita em seu texto, ao longo de uma vida inteira, e posso dizer, sem sombra de dúvidas, que vamos aprendendo com a dor…
    Um beijo carinhoso e obrigada sempre pelas sábias lições!

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