Sal da terra – Por Inge Lobato

Havia uma paz ali. E eu não sabia como poderia haver paz em meio a tantos desacertos, palavras cegas zunindo ferozes na direção de ouvidos e rostos. Simplesmente não entendia como poderia haver paz ali.

Um verde-descuido adornava o quintal, mas eu amava a selvageria com que a natureza lidava com o descaso. Nela, o barulho dos pássaros, grilos e sapos transbordava, em meio a folhas mortas e verdes-vivos novinhos, lambendo qualquer resquício de área sem vida.

Era uma ocupação silenciosa – uma invasão bárbara – conquistando terreno, aos poucos, no calar da noite. O capim crescia à margem do cimento, e se jogava por cima da varanda, deitando seus braços longos em cima da área construída. Uma orquídea sequestrava o tronco do pinheiro, em um matrimônio que enchia o ar e os olhos. Eram, agora, uma só vida. O pinheiro de brincos dourados.

Estava hóspede dessa terra selvagem, que um dia me deu à luz. Um fruto enlatado que não sabia mais existir em plena barbárie. Havia me acostumado à ansiedade das metrópoles, que seduz os olhos para longe da morte, da terra da qual sou parte – ainda que a negue de todas as formas –, presa a uma teia que me priva da lembrança e sofrimento de ser mortal.

Mas, eu admirava esse mundo velho e bárbaro, maravilhada e pequena, porque o sabia antes de mim. Nem sei por que desacreditei dessa realidade. Não ganhei um minuto sequer a mais de vida negando que – antes e depois de mim – existirá essa “casa”, que sepultará a todos. Talvez a existência, e não a morte, fosse essa condição de enxergar o tempo com os pés no chão, com uma promessa de dias tão longos como a ignorância de quantos nos bastam para deixarmos um personagem qualquer, escrito em memórias e linhas banais.

Ergui o celular no ar, em busca de alguma conexão que me resgatasse da singularidade da vida, e o vento veio sacudir violentamente as folhas das palmeiras, e a viva memória da raiz da qual fora feito meu tronco. Não pude ignorar que – para além das inúmeras diferenças ocasionadas pelos anos afastada do sal daquela terra – eu ainda permanecia conectada a ela. E nenhum sinal veio dar por mim naqueles confins de mundo.

Inge Lobato

8 comentários sobre “Sal da terra – Por Inge Lobato

  1. Minha linda Ing,
    Suas reflexões são sempre profundas e vão muito além das palavras, pois tocam – de maneira singela e sutil – atitudes, gestos e, acima de tudo, o pensamento acerca de uma vida inteira…
    São linhas que nos permitem redesenhar o caminho e fincar os pés em terra firme… mas, ao mesmo tempo, também tornar os passos mais leves, caso seja necessário aguçar o sonho.
    Enfim… maravilhoso e tocante!
    Um beijo, com amor e gratidão sempre!!

  2. Caracas!! Quando eu crescer quero escrever assim. Uma poesia enfiada na prosa, uma nostalgia disfarçada de presente e essa profundidade…ai que delícia deslizar nessas águas que você transborda!!
    Menina…linda e profunda embora saiba fingir tão lindamente superficialidades…vi algo de Mia Couto nesse teu texto, deslumbrante ao falar de terras áridas com tanta água…
    É possível amar profundo, alguém que a gente não vê? Porque, eu juro, é algo assim que sinto cada vez que “vejo” você.

    Sou mega fã!!

    • Por onde começo com você, minha querida-amiga-amada Clauzinha? Acho que agradecer ao Criador por você existir já é um bom início!
      Eu é que quero, um dia, ter metade dessa caneta poderosa e sensível que só você tem, além da coragem absurda de se desnudar em linhas, que eu tanto aprecio.
      E que honra para mim ser comparada a Mia Couto. Poxa, tomara que ele não saiba disso, pois pode ficar profundamente chateado, rsrsr…
      E -respondendo a sua pergunta -, sim, é possível amar alguém que ainda não conhecemos “fisicamente”, pois eu também vejo em você uma irmã de vida, de alma. Vamos nos “vendo” entre linhas, enquanto não surge a oportunidade de darmos aquele abraço apertado que merecemos.

      Um beijo da fã incondicional!!

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