Ela II – Por Heleny Galati

“Homens são governados pelas linhas do intelecto – mulheres: por curvas de emoção.” Ela leu a frase de Joyce e parou. Pensamentos de todas as profundidades tomaram sua mente. Ela não podia sorrir. Não, a frase não era merecedora de um sorriso. Ela compreendia plenamente o contexto temporal da citação e do autor. Era claro, em sua mente lógica, que tudo se passara entre viradas de séculos, entre a clausura de um período e a tentativa de liberação de outro. Claro estava, aceito não.

Ela olhou através do vidro. Estava frio lá fora, pequenas nuvens brancas tentavam fugir da escuridão da noite. Quatro horas de uma tarde de final de outono. O inverno batia na janela, mão fria, insistente. Isso a fazia pensar. Pensar nos campos de batalha escondidos nos séculos e séculos de civilização. Os soldados sem rosto, que perderam a vida nas batalhas não reconhecidas em nenhum livro de história, recordados em poucos registros.

Eram milhares que morriam sob a bandeira da honra. Milhares eram maculadas, desmerecidas, transformadas em algo inóspito e sujo por crenças desconexas, onde o invisível era mais importante que o visível sofrimento humano. Ela pensou naquelas que lutavam silenciosamente, muitas vezes sob o comando insano dos que se diziam fortes. Da falta de oportunidades que elas tinham de serem livres, inteiras, completas em sua essência, sem a necessidade imediata ou eterna de pertencer.

Ela lembrava cada rosto ferido por um agressor que dizia amar. Cada braço quebrado, cada ferida exposta, que ficavam disfarçados por acidentes. Onde a dor e a vergonha de ser quem era crescia com a indiferença do mundo a sua volta.

Não eram apenas pancadas e agressões: mortes faziam parte de suas realidades. Mortes imputadas por progenitores, guardiões e possuidores. Elas não eram um objeto, mas as dispunham da mesma forma, muitas vezes servindo de pagamento a dívidas, de presente a quem alguma facilidade proporcionara à família. Enfim, elas eram nada mais que pequenos animais obedientes, prontas a procriar e calar.

Foi assim no passado, é assim no presente. Raros foram os momentos de brilho. Extremamente poucos os instantes em que a significância foi reconhecida. Elas nada representavam e continuam a representar pouco. Retratadas em livros como ansiosas por proteção, e em filmes nos quais, mesmo quando são as ditas heroínas, ainda assim se apóiam em braços musculosos e mentes pequenas.

Agora ela sorria. Sofria de síndrome do cor-de- rosa, cor que não apreciava, lembrava a etiqueta que ela representava para todas ELAS. Alguns produtos eram maquiados de rosa apenas para serem vendidos por preços maiores – eram os especialmente desenhados para as mulheres – e tinham que ser rosa. Ela se lembrava de como seus primos e amigos temiam ser chamados de ‘mulherzinhas’ e como chorar era coisa tão delas – fracas, frágeis, choronas – nada de coragem e força, apenas fragilidade e dependência.

Vira, em sua vida por aqui, o fato de ser quem era apenas trancar portas, diminuir a importância de seu saber e, finalmente, minar a recompensa pelo trabalho de qualidade e eficiente que executava. Ela não queria privilégios, queria igualdade, só que, nessa busca, mais uma vez encontrou preconceitos e etiquetas. Sua independência, certezas, coragem, eram atribuídas a um ser masculino que a possuía. Nunca a quem ela era, nunca por ser humana, mas sempre por ser uma mulher.

Ela complicava tudo. Gostava dos desafios, não se importava com os obstáculos e, principalmente, não temia pedir ajuda para superar suas eventuais deficiências. Sim, ela acreditava em ser ajudada, tanto quanto acreditava em ajudar – mesmo que, quando se apresentasse para ajudar alguém, muitas e muitas vezes fosse repelida, como se isso representasse uma ofensa a ambos: eles ou elas. Ela criou um estilo só dela, que deixava alguns curiosos, outros olhando com repulsa e muitos indiferentes.

Ela não batia nos jargões da felicidade eterna, da família como proteção, nem no casamento como opção maior na vida. Ela acreditava no estudo, no trabalho criativo, na independência e na capacidade de aprender e superar. Ela sabia amar como ninguém, entregava-se sem limites, era aberta e indiferente àquela premissa do possuir. Tinha um romantismo sem nós, sem laços, sem perguntas. Não acreditava na fidelidade, mas no amor; não se preocupava com a reciprocidade, mas com seu sentir. Ela amava e isso importava mais do que ser amada.

Sexo não era tabu, nem prêmio, nem ferramenta para se atingir um objetivo. Era uma expressão dela mesma e seus desejos, de sua natureza e sua aceitação. Suas fantasias voavam, algumas vezes com seus parceiros, outras quando estava solitária, em devaneios. Ela era completa, entre seus livros, seus sonhos e sua liberdade.

No entanto, ela sofria. Sofria por todas que ainda carregavam deveres de ter um ou outro comportamento. Sofria pelas mutilações físicas e psicológicas de muitas. Sofria pelo silêncio e descaso com que aquelas desconhecidas sem rosto eram tratadas. As guerras continuavam, disfarçadas, muitas vezes enroladas em brilhantes tecidos, apresentadas em cenários maravilhosos. Porém, ainda assim, era uma guerra, a ser lutada anonimamente por uma liberdade conhecida apenas pela minoria, que muitas vezes a desperdiçava na vã tentativa de agradar, mas ainda se fazia presente.

O sol havia se posto. Ela pensava que ele nunca nasceria para milhares delas que seriam mortas naquele dia. Ela queria muito gritar, mas os ouvidos são surdos, os sentimentos são vazios. O mundo continua a se refestelar com as capas das revistas, com as poses, deixando no silêncio os corpos inertes, jovens seres humanos desprezados, inferiorizados e mortos num mundo em que o culpado é sempre aquele que destoa das regras. regras criadas para tentar controlar, punir e diminuir outro ser humano. Isso com o apoio e total consentimento da religião, que nada mais quer que o respeito, o direito e a oportunidade de colocar todo seu potencial para fora. A mulher não tem direitos, por mais que se bradem as conquistas das últimas décadas.

Elas ainda eram – e ela sabia que ainda era – seres humanos de segunda linha, que embelezavam Estados, garantiam cotas em empresas, mas no fundo ainda deviam casar-se, ter filhos e ser responsáveis por quem eles seriam.

Foi aí que ela parou e pensou: até que ponto somos culpadas por estarmos onde estamos? Não, ela não aceitaria mais essa responsabilidade, embora soubesse que, muitas mulheres viam diferente, não por serem más, apenas por não saberem que tudo poderia ser igual – homens e mulheres lado a lado, sem diferenças em direitos e obrigações, em oportunidades e esforço.

Ela nunca se arrependera de ser mulher. Nunca se arrependera de ser o que era, mesmo com tudo que isso lhe causava de desconforto e problemas. Ela nunca iria se encaixar nesse jogo.

Heleny Galati

2 comentários sobre “Ela II – Por Heleny Galati

  1. Querida Heleny,
    Suas linhas são tão fortes… e sensatas… e plenas de sabedoria, que fica difícil tecer qualquer comentário que complemente os argumentos, uma vez que eles já dizem tudo.
    São palavras históricas, que deveriam ser compiladas e espalhadas para a humanidade inteira tomar ciência…
    Adorei! Uma triste e fatal realidade, mas que depende de cada um de nós para ser modificada.
    Beijo carinhoso!

  2. Gostei demais, Heleny. Dia desses, pensando sobre o tratamento que recebemos na sociedade, percebi que diante de um discurso mais duro, como o de seu texto, somos logo ridicularizadas, taxadas de feministas – e outras baixarias que nem merecem ser ditas – para que silenciemos verdades. Infelizmente, como sabiamente disse Beauvoir, “o opressor não seria tão forte se não tivesse cúmplices entre os oprimidos”. Eu espero que mais mulheres acordem para o direito à liberdade de existirem em sua plenitude, com anseios e papéis diversos aos que a sociedade limita como “femininos” e, principalmente, que se respeitem e exijam respeito as demais mulheres, pois percebo que, muitas vezes, o maior carrasco de uma mulher é outra mulher, por rivalidade, insegurança, falta de informação, enfim, por n vários motivos. Aliás, nem preciso dizer nada aqui, pois você já disse tudo em seu texto, rsrsr…

    Beijos!!

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