Adie o Natal que o menino ainda não nasceu! – Por Mariana Gouveia

“Adie o Natal que o menino não nasceu!”. Era sempre com essa frase que minha mãe acalmava nossa ansiedade na espera dos presentes.

Nasci em uma fazenda no interior de Goiás. E nossos Natais exalavam a magia do dezembro dos contos de fadas. Não havia neve, nem nada tão sofisticado, mas preservávamos a essência da espera para que Jesus nascesse calmo, sereno e as coisas continuassem como tinham de ser.

Dezembro chegava sempre antecipado nos afazeres dos presentes. Não eram embrulhos coloridos, nem brilhantes. Sacolinhas feitas de sacos de linhagem, que hoje ainda uso para artesanatos feitos por nós mesmos. Os presentes variavam entre a colcha de retalhos feita especialmente para cada um dos sete filhos, para as noites frias de junho, e o paletó de flanela, que tinha o mesmo intuito. Os brinquedos, nós mesmos fazíamos, com ossos secos pegos no pasto, galhos de árvores e espigas de milho.

A magia do Natal acontecia em nós na construção do presépio – minha mãe era uma artista sem nunca ter estudado para isso – desde os bonecos feitos da argila colhida à beira da represa, até o capim dourado e a areia fina, que ela coloria com tintas feitas de folhas e frutas que buscávamos no cerrado, e a fusão das linhas no tear.

Colhíamos o algodão, tirávamos do caroço e acontecia a magia de ele virar linhas variadas e, logo depois, tecidos. Coloridos com açafrão, folhas de cebolas e cascas de madeira que, um dia, ensino aqui como se faz.

Cada um em sua função de fazer isso ou aquilo. Minha mãe contava a história do nascimento de Jesus com cada detalhe, que parecia que ela presenciara tudo. E, embora em todos os Natais a mesma história fosse contada, sem mudar nada, a cada ano era como se fosse a primeira vez que estivéssemos ouvindo.

O mais esperado era o nascimento do menino Jesus. À noite, sempre estrelada e ritmada pelo caminhar da estrela-guia, andávamos entre o presépio, com a emoção da voz de minha mãe, que desenhava nosso Natal.

Há 33 anos o Natal deixou de ser contado por ela. A fazenda ficou lá atrás, como num sonho, mas  a magia de esperar pelo nascimento de Jesus se mantém acesa em mim e em cada um dos meus irmãos, graças à semente que ela plantou.

Vivo adiando dezembro em meu coração e tento fazer com que o Natal seja todo dia, em tudo que faço… e, quando a ansiedade bate à porta, relembro a frase que ela dizia: “Adie o Natal que o menino não nasceu”. Mas, quando no dia seguinte, queríamos as sobras da ceia, ela nos lembrava de que Natal era todo dia e que, a cada manhã, podíamos fazer o menino nascer dentro de nós.

Que o menino Jesus seja um eterno renascer em fé, bondade e esperança.

Feliz Natal!

Mariana Gouveia

3 comentários sobre “Adie o Natal que o menino ainda não nasceu! – Por Mariana Gouveia

  1. Sempre uma linda reflexão para encher a nossa alma de afeto e alegria!
    Adoro você, linda Mari… Enorme presente que 2014 me trouxe…
    Desejo que o seu Natal permaneça assim, mágico e iluminado, como você merece!!
    Um beijo carinhoso e obrigada por tudo!

    • Qualquer palavra que eu fale não dirá o tamanho do meu carinho por ti.
      Sei do abraço sem nunca ter sentido ele e é ele que te acolho agora. Num abraço caloroso que vai recheado de carinho.
      Obrigada, obrigada!
      Beijos

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