Da arte de (re)inventar – Por Daniela Lusa

Hoje eu tentei escrever uma nova história. Pensei em personagens, imaginei um enredo, construí um cenário, defini o tempo e o espaço. Fiz até diálogos. Quis inventar algo novo, pensei em uma história que nunca existiu e que jamais poderia existir. Eu queria contar a história de um alguém diferente de todos, um alguém diferente de mim. Sentei-me e comecei a escrever.

A cada parágrafo que escrevia, percebia semelhanças com personagens que já são meus, que já foram meus, que jamais serão meus. Em cada linha, encontrava traços de mim mesma, de meus sentimentos já tão expostos e há tanto tempo iguais. Todas as minhas palavras já haviam sido ditas em outras frases, em outras histórias, em tantos outros enredos. Era tudo tão igual que desisti da minha história.

Foi então que me afastei daquele papel cheio de palavras repetidas e suspirei. Aprendi, finalmente, que jamais conseguirei escrever uma nova história enquanto insistir nos mesmos coadjuvantes e não mudar o personagem principal: eu. 

Preciso me (re)inventar. 

Daniela Lusa

Também pela chuva – Por Daniela Lusa

Hoje eu só queria a simplicidade de um banho de chuva. Queria sentir a chuva tocando meu corpo e levando ao chão tudo o que não é bom em mim. Uma purificação. Queria você aqui, também. Queria que me segurasse a mão e me convidasse para sair por aí, com os pés descalços contando os passos molhados no asfalto morno. Sento na varanda e vejo a chuva que cai sem pressa e devolve vida à grama seca. Imagino nós dois presos a um beijo molhado — também pela chuva, com os corpos unidos pela água fria e a roupa molhada — também pela chuva, mas que continuam quentes. O beijo seria como a chuva que faz reviver, vê que lindo isso? Crio tantas cenas com nós dois. Penso em você segurando a minha mão, enquanto tira as gotas d’água do meu rosto e me diz docemente: “você fica tão bonita com os cabelos molhados”, e eu lhe respondo com um beijo molhado — também pela chuva. Imagino seu toque quente e a chuva fria e isso me faz arrepiar. E nós dois caminhamos e conversamos e trememos e nos abraçamos, tudo sob a chuva fina que agora cai apressadamente. E, depois da chuva, fico querendo te ver tirar a camiseta molhada, envolvendo-me com seus braços e me aquecendo em seu peito nu. Corpos molhados — também pela chuva — mas com sede um do outro.

E eu aqui, sentada na varanda, vendo a chuva cair sem pressa.

A chuva me traz lembranças do que nunca vivi. 

Daniela Lusa

A felicidade é distraída – Por Daniela Lusa

Dizem que ela anda por aí, dizem que ela mora ao lado. Sempre duvidei. Há que viva com ela, há quem jamais a tenha encontrado. Nunca encontrei, por mais que tenha procurado. Até que eu descobri que há coisas pelas quais não devemos procurar.

Foi em uma destas esquinas da vida que eu esbarrei com ela, por acaso. Era segunda-feira, o típico dia do mau humor. Lembro que estava com pressa, com milhares de coisas na cabeça, pensando em soluções para problemas que eu mesma havia criado. Eu me sentia exausta, nem percebi que seguia por uma rua sem saída. Meus passos apressados e meu olhar meio perdido não me deixaram notar que ela vinha em minha direção. Afinal de contas, como eu poderia esperar avistá-la, se ela sempre havia fugido de mim? Se eu ia pela rua, ela ia pela calçada. Se eu tentava segurar a sua mão, ela escapava e andava mais depressa, não conseguia alcançá-la. A verdade é que eu já tinha desistido dela, até que senti o impacto de nosso encontro. Não pude desviar, foi inevitável. Meu corpo todo estremeceu e eu não soube o que dizer.

Pedi desculpas por ser tão desastrada, ela pediu desculpas por ter me evitado por tanto tempo. Olhei bem dentro dos seus olhos e senti que era sincero o que me dizia. Confesso que eu não soube o que dizer. Eu nunca sei o que dizer. Menti que estava atrasada para um compromisso qualquer, despedi-me e mudei o meu caminho. Senti a pele arrepiar quando ela segurou a minha mão e pediu para me acompanhar. Como negar tão adorável companhia? Confusa e um pouco assustada, concedi com um leve movimento da cabeça. E ela não soltou a minha mão.

Desde aquele instante, a Felicidade tem andado ao meu lado. Dorme na minha cama e almoça comigo todos os dias. Caminhamos de mãos dadas já há algum tempo, e eu não sou capaz de dizer o quanto sou grata à vida pelo nosso esbarro. Mas acontece que, às vezes, ela tropeça em alguma lembrança ruim ou em alguma mágoa qualquer e a gente quase cai. Eu a puxo de volta e sinto a dor que o tropeço nos causa. Custa prestar atenção por onde anda? A Felicidade é distraída. Pior é quando eu não a compreendo e insisto em seguir por caminhos que não nos levam a lugar algum. Ela se chateia comigo e eu a entendo. A verdade é que eu nunca soube andar de mãos dadas. Muito menos com ela.

Hoje eu sei que ela não anda por aí à toa, nem mora ao lado. A felicidade está nos caminhos que percorremos, nos momentos que dividimos, nos sorrisos que provocamos. Só preciso aprender a caminhar de mãos dadas, sem tropeçar.

Daniela Lusa

Crônica de uma tempestade anunciada – Por Daniela Lusa

O ar pesado é sempre prenúncio de que algo grandioso está por vir. Uma tensão no ar. O corpo padece. A mente se esgota. Chega ao limite. Tudo pesa. Tudo cansa. Tudo implora por uma purificação. O clima exaustivo pede para ser renovado. E a cor do dia se desbota aos poucos. Até virar cinza. Cinzas. Como restos mortais do sol.

Os minutos que a antecedem são sempre os mais sublimes.

O dia fica cinza, o céu escurece, a noite chega mais cedo. Tudo se esconde. Uma tempestade está anunciada. Toda a angústia carregada por dentro é precipitada por fora, gota a gota. E, depois, despejada. Uma vazão contínua de agonia. O escoamento de tanto pesar.

A tempestade, enfim.

E a melancolia cai com as gotas de chuva.

Por fora, a chuva molha. Por dentro, as lágrimas lavam. E tudo se renova.

Era para ser uma crônica de uma tempestade anunciada, mas acabou sendo sobre a melancolia eminente. Talvez porque elas coexistam em mim.

Não sei escrever uma crônica sobre algo que sinto de maneira tão aguda. 

Daniela Lusa

E quem é que nunca desejou morar em um abraço? – Por Daniela Lusa

“Obrigada por não desistir de mim”, ele me diz, em tom melancólico apesar de feliz, apertando ainda mais seu corpo contra o meu… e segurando minha mão como nunca havia feito. Ouço a angústia misturada ao alívio em sua voz e, enquanto me viro de frente para ele, busco encontrar o seu olhar. “Como se eu realmente pudesse”, devolvo-lhe, sorrindo.

Enrosco meus braços em seu pescoço e fixo meu olhar agora no dele. Sinto que preciso eternizar esse momento e aproximo meus lábios, desenhados em um meio sorriso trêmulo, dos seus, tão bem riscados em um rosto bonito… beijando-o ternamente. Fecho os olhos por um momento, na tentativa de conter as lágrimas, que eu jurava terem secado desde que ele partiu sem me dar esperanças de retorno. Mas, o choro me foge aos olhos… e isso me faz sentir que estou viva.

Ele voltou para me resgatar do poço de solidão que eu mesma cavei durante todo esse tempo. Sorrio e afasto meus lábios dos dele, abominando toda e qualquer lembrança amarga que as lágrimas poderiam me trazer nesse instante. Não… são lágrimas de felicidade, de alívio por não ter morrido, de gratidão por ele ter me salvado de mim mesma! Sussurro um “obrigada”, com a voz entrecortada. Ele me aperta contra seu peito e me beija na altura da testa.

Eu, que sempre me senti perdida, naquele momento percebi que ele era o lugar onde eu tantas vezes quis estar. E desejei morar para sempre em seu abraço.

Daniela Lusa

Sobre as coisas que ela não diz a você – Por Daniela Lusa

[Você pode ler este texto ao som de “Pelo interfone” – Cícero].

Ela te ama de um jeito que não sabe explicar, de uma forma como nunca havia experimentado antes. Às vezes, você parece um sonho bom que mudou o tom da vida dela, sempre tão comprida, sempre tão cinza. Você é a cor que faltava aos olhos dela. Ela pensa em você desde que acorda até a hora em que se deita para dormir, mas não dorme; quando consegue, sonha contigo. Você acha que é um exagero? Pode até ser, mas ela só sabe sentir se for assim: em demasia. O pouco não lhe basta, o meio não lhe agrada. Ou é tudo ou é nada. Ela te ama tudo. Mas tem dias que ela se sente só nesse sentimento. Uma palavra pode mudar o dia de alguém, moço. Qualquer palavra sua muda os dias dela. Não é uma questão de cobrar atenção, entenda. Faz parte das sutilezas do amor. Um carinho, um abraço inesperado, um gesto que só vocês dois entendem no meio de tantas pessoas, um olhar, um sinal de vida. Qualquer coisa que a faça saber que você está pensando nela, que você deseja estar com ela. Ela sente falta, moço. Insegurança? Sim, você sabe das neuroses dela. E a ama mesmo assim, não ama? Se ama, diga sempre que estiverem junto, diga todos os dias, diga a qualquer momento, mas diga. Ela precisa das suas palavras, são vitais. Não importa quantas vezes você já disse, diga. Talvez isso a ajude a apagar algumas lembranças ruins, algumas coisas que ainda a machucam, que ainda a fazem chorar escondida e guardar no travesseiro os tantos pensamentos que não conta a você. Palavras são confusas, há sempre algo de vazio nelas. Preste atenção ao que ela lhe diz, e mais atenção ainda ao que ela não diz a você. Quando você pergunta “tudo bem?”, a mente dela é invadida por um furacão de coisas que a deixam meio que perdida, mas ela sempre responderá “sim, e contigo?”. Porque o silêncio é refúgio quando precisa fugir de si mesma. Apenas a abrace e diga que a ama, certo? Certo. Você é a única pessoa no mundo inteiro que pode fazer isso. Então, faça sempre que puder.

Daniela Lusa

Cheiro de saudade – Por Daniela Lusa

Foram alguns minutos que me salvaram de um banho de chuva. Bom, ao menos foi isso que pensei no instante em que me vi abrigada, enquanto o céu desandava lá fora. Naquela tarde, em vez de seguir o caminho direto para casa, decidi parar para resolver algo há muito tempo pendente.

Parei, entrei, olhei pela janela. “Vai dar tempo”, pensei. Não deu. Sem saída, sentei-me no sofá perto da porta, que dava de frente para a rua. Conformada com minha falta de sorte, o jeito era esperar. Apoiei o queixo com as mãos e fixei os olhos lá fora. Foram meus minutos de calmaria em meio às horas de caos que ditam o andar da minha vida. Senti uma vontade imensa de sair e ir para casa na chuva mesmo. Pedalar na chuva é uma das minhas formas preferidas de renovação.

Aquelas gotas d’água, que caíam tão apressadamente, despertaram em mim lembranças adormecidas no cantinho da memória. Lembrei-me da infância, de quando fugia da minha mãe, para correr no asfalto molhado e depois deitar com os olhos fechados e a boca aberta – para pegar algumas gotas que caíam direto do céu. Se naquele instante eu não carregasse na mochila todo o peso de ser adulta, juro que sairia feito doida na rua e encharcaria meu cabelo e minhas roupas com aquela água tão pura. Porque às vezes é só disso que a gente precisa para lavar a alma: da simplicidade de um banho de chuva.

Quando finalmente o céu cessou o seu pranto, notei o ar mais puro, me senti mais leve e percebi que a vida pode ser mais bonita se a gente tiver a sorte de contemplar a chuva num dia cansativo e em que tudo parecia dar errado.

Saí para a rua, olhei para o céu ainda meio choroso e respirei melhor. Acho que a saudade tem cheiro de terra molhada.

Daniela Lusa