CELEBRARE – Por Cláudia Costa

“Celebrar!
Como se amanhã o mundo fosse acabar
Tanta coisa boa a vida tem pra te dar
O pensamento leve faz a gente mudar
Se acostume com a felicidade
Seja inteiro e não pela metade…”

CELEBRAR

Então… chegamos àquela época do ano em que o mundo inteirinho se foca em festas, muito evento social, muita hipocrisia reunida e sequentemente relevada [faz parte do pacote de festas], muita bebida, falatório, gastos e mais gastos, consumos! É fim de ano e, com isso, parece haver para os que estão bem de saúde, uma promessa de renovação no ar. Quase uma ressurreição, penso eu, já que a galera se movimenta e gasta como se não houvesse amanhã. Acho válido.

Penso que seria bom fazermos esse ritual todo fim de mês. Balancetes pessoais [não estou me referindo à grana, por favor!!], reunião com as pessoas mais próximas, das quais realmente gostamos e com as quais realmente podemos contar em momentos de perrengue [sim, eu sei que isso é coisa em extinção, mas é tempo de sonhar], abrir espumantes, rir de nossas falhas e levantar a cabeça ante os desafios vindouros. Literalmente uma renovação interna da melhor qualidade.

Na utopia desta que vos escreve, seria delicioso trocar presentes comprados com significado e coração. Nada dessa coisa obrigatória de dar uma lembrancinha qualquer para o filho do chefe que você viu em fotos ou para aquela tia que você queria ver bem longe. Esquece! É tempo de demonstrar [e sentir] as melhores vibrações. Observar atentamente uma alma da qual você sabe os defeitos, mas cuja vida te é cara, abraçar com alma, de coração inteiro e dizer ao outro [sem estar ébrio, por favor!] o quanto ele é importante na sua existência.

É tempo de se vestir de amor, de se lembrar de tudo que você tem para agradecer à vida, ao outro, a si mesmo. Sim, eu sei que ainda há mil coisas a serem acertadas, inúmeros desafios a serem vencidos, diversas contas a pagar, mas, se você chegou até aqui, é porque ainda há muito mais coisas para te fazer sorrir.

Tenha certeza, pode ser que não se trate só daquele emprego futuro que você almeja tanto, talvez seja tempo de enxergar o que você pode fazer agora por outra pessoa, para vê-la sorrir. Juro pra vocês que não há realização pessoal mais gostosa do que fazer o outro um pouco mais feliz. É literalmente impagável. Se você ainda não experimentou essa sensação, espero que em breve essa alegria te encontre.

Enfim, é tempo de renovação, de promessas, de um apoderamento de possibilidades. Desejo de coração que você seja feliz, não precisa ser o tempo todo, nem é necessário tirar mil fotos para comprovar e colocar nas redes sociais. Te desejo uma alegria genuína, daquelas tão boas que você nem vai se lembrar do seus apetrechos tecnológicos. Te desejo abraços apertados, lágrimas de alegria, beijos de amor e palavras com sentimento.

Desejo que você OLHE para o ser humano ao seu lado e queira conversar com ele, CONVERSAR de fato, e não apenas contar de todo o seu imenso sucesso e blá, blá, blá. Que você queira OUVIR o outro, que ele seja mais importante do que o seu mega novo celular e que você usufrua mais do seu tempo entre humanos, cujo contato físico é possível, do que com as almas escondidas através das telas.

É virada… então, mude a página, o ritmo, o modo. Sorria com gosto, dê gargalhadas de corpo inteiro, tome banho de chuva, dance bêbado ou sóbrio por aí, cante alto, liberte-se! Vai durar um punhado de minutos ou horas, não importa: sinta-se! Alegre-se… até que o tempo passe, ainda há tempo de viver momentos felizes.

Abuse!

Cláudia Costa

A Estrela que não era cadente – Por Cláudia Costa

“A noite acendeu as estrelas
porque tinha medo
da própria escuridão.”

– Mário Quintana –

A memória e o tempo deram-me várias imagens daquela estrela bonita, radiante e sempre altiva… brilhante, como nenhuma outra habitante da constelação de meus olhos. As primeiras fotos da retina mostram-me uma mulher mignon, quase franzina (não fosse aquela personalidade forte, que lhe conferia uma certa imponência), de pele branca, cabelos escuros e escorridos, e olhos de um castanho amendoado, que, ao se deitarem sobre mim, faziam-me vibrar. Por muito tempo, nem desconfiei, mas aquela moça tornar-se-ia meu modelo de beleza e vida, ainda que inconsciente.

Por anos escorridos em ampulhetas imaginárias, segui retratando pessoas com o filme da retina e a máquina da memória e, não raro, dava-lhes proporção de concretude no meu mundo abstrato. Assim sendo, em algumas fotos, minha estrela, sempre que ficava distante, era encoberta pelas nuvens. Em dias bons, as nuvens eram claras e davam asas à imaginação; em outros, o tempo fechava e as nuvens tornavam-se cinzentas, afastando a estrela do meu olhar ansioso.  

Quando ela aparecia por perto, em plena luz do dia, postava-me num canto, aguardando para sentir os ventos… se eram tempestuosos ou apenas brisa amena, disposta a algum tipo de brincadeira ou, quem sabe até, carinhos inesperados. Havia dias em que a estrela brilhava mais forte e parecia que ia explodir num clarão intenso, tal lava de vulcão… eram retratos quentes, os daqueles dias.

Quanto mais o tempo passava, mais a estrela se tornava distante dos meus olhos e as fotos tornaram-se raras, mas sempre muito valorizadas e cheia de contornos, cores e vida. Algumas vezes, tive medo de que a estrela fosse embora do meu olhar de uma vez por todas, mas, felizmente, trata-se de uma estrela sagaz e forte que, mesmo na ausência, faz-se presente.

A minha estrela ainda reluz aos olhos ansiosos por seu abrigo mas, nesse retrato, a estrela é guia, é exemplo e é inalcançável, ainda que, por vezes, pareça próxima…

Quase à distância de um abraço.

Cláudia Costa

Escrita… e Só – Por Cláudia Costa

Escrevo textos como quem morre

de desalento, amor ou desencanto

Faço do teclado meu sepulcro

onde encerro [e enterro] [des]ilusões.

Sem obrigação de ser correta,

polida ou bela, a poesia escorre

transborda e me afoga,

implorando para existir.

Sem rumo reto ou compromisso,

é o grito urgente do que acredito

e não existe.

Palavras escritas com sonho e sangue

são a transfusão de vida da poeta.

Cláudia Costa

Des-culpas – Por Cláudia Costa

“A alegria é uma família de olhos,
  ossos e dentadas, que falam às gargalhadas
e chamam toda gente de irmãos,
pais e parentada.”

– Kelly Shimohiro –

Culpas, medos e defesas

vejo-os todos insuflados por aí.

Aqui, encheram-me… olhos, boca e corpo

de novo e novamente.

Virei metade da vida e ainda não sei lidar comigo:

fogo, voz, hormônios em desalinho, quietudes…

Sou outra e ainda a mesma, além de tantas mais, refletidas em espelhos

diversos…

Medos, culpas e defesas…

me comem e consomem devagar.

Quando não as minhas, as do meu irmão

defendido, desculpando-se pelo dito, pelo feito

mal feito, mal jeito, sorrio.

Desnecessário armar-se comigo

Prefiro nudez e te servir de abrigo,

não te acuso! Sem desculpas para culpas esculpidas na escuridão

Prefiro amar-te com diferenças, abismos e coração.

Ouso defender-te dos medos, das neuras, do desamor…

até sobrar apenas você… eu…

e afeto.

Cláudia Costa

Sobreviventes – Por Cláudia Costa

Sobre viventes, aqui estão:

pedindo socorro, suplicando abrigo,

vivendo o perigo, desejando atenção.

Estamos aqui, e somos muitos…

negros com consciência,

brancos acolhedores e igualitários.

Cães sem dono, gatos de rua,

sem sexo que defina, somos gente.

Jovens, filhos, pobres, bichos, velhos…

Não são escolhas que nos definem

algumas vieram ao primeiro acorde de choro…

Meninos sem pão, gente na rua

relento, medo e solidão.

riso vazio, capa de agressão.

Sobre viventes, desconfio…

Há muita luta, muita perda.

Há faltas que agridem,

esmolas que amedrontam.

Querem pão. Precisam de abrigo…

Você, não?

Cláudia Costa

‘Nada’ é uma palavra esperando tradução… – Por Cláudia Costa

“Há espaço pra todos, há um imenso vazio
Nesse espelho quebrado por alguém que partiu
A noite cai de alturas impossíveis
E quebra o silêncio e parte o coração…”

– Engenheiros do Hawaii

Porque existem dias vazios, dias de nada… e, se você pensa em dias nos quais você não faz nada, engana-se. Há dias de nada que são tão lotados!

Você acorda no automático, levanta meio sem saber por quê [pelo trabalho, pelos compromissos, pelos filhos, pelos pais, pelo outro…], mas obedece a tudo que ouve desde que nasceu. É preciso seguir em frente. Sai de casa, interage com outras pessoas, segue as horas… lotadas e ao mesmo tempo tão vazias…

Há os outros, com as mentes turbinadas, ansiosas, preocupadas. Centenas de e-mails diários aguardando atenção, telefonemas e mensagens… há um barulho infernal lá fora. O tempo todo, as horas urgem, as cobranças chegam, a ampulheta esvazia e a gente vai… assim, no automático ao bel prazer de quem?

Os dias mais lotados são, não raro, os mais ocos, os mais ausentes. Sim, você se levantou, cumpriu todas as rotas, todas as tarefas do dia… e a sua voz, será que você ouviu? Decibéis nas alturas, burburinhos, expectativas, sonhos, frustrações, amores cada vez mais falidos [tanto quanto inventados]… e você, por onde anda? Qual foi a última vez que fez check-in das suas emoções, das suas ideias [não aquelas preocupadas com o vil metal, as SUAS ideias!], da sua voz consigo?

Os dias andam cheios, bipolares, tripolares, agressivos. Sem querer, a gente entra na onda e, quando vê, repete o vício, o grito, a fuga, o rito.

Cá pra nós, confesso: estou farta de dias lotados de vazio, de frases repetidas, de cumprimentos sem emoção. Por hoje, estou fã do nada. Esse momento idílico, em que tantas vezes encontro abrigo, silêncio, norte e até atenção… por que não?

Cláudia Costa

Sem compromisso com a realidade – Por Cláudia Costa

“Só quem se aceita
tem paz de espírito.”

– Fabrício Carpinejar –

Talvez você não saiba, mas eu andei sofrendo. Sofri terror noturno, dias de realidade tão concreta como uma bigorna. Sofri pela espera, pelo excesso de palavras… sofri pelo excesso de sentimento.

Sim, eu sei que você não quer saber disso. De amarga basta a vida e todo mundo tem lá suas dores particulares. Dizem por aí que não é bacana falar sobre isso. Se a sua realidade no momento é dolorida, por favor, poupe o mundo de si mesmo. É claro que haverá aquelas almas “boazinhas” te dizendo para não ficar assim, ainda que você não diga uma palavra, que tem que rolar bola pra frente e um sem-número de coisas fofinhas igualmente infernais, para o seu bem.

Não é à toa que eu detesto gente boazinha, com todo meu ser. Gente!! Tem sacanagem maior do que minimizar a dor do outro – mesmo antes de sabê-la – tratando-a como se fosse uma escolha consciente e um papel simples de ser jogado fora? Vou te contar um segredo: a dor do outro também dói pra caramba!! Pois é… e você achava que só a sua dor era pesada… Se, por acaso do destino – ou escolha – você é destas almas que, mesmo com o mundo desabando, põe um sorriso no rosto e bota o bloco na rua, tudo bem…é uma escolha sua , e não dá pra marretar o outro com a mesma máscara que você utiliza.

Antes que me apedrejem e joguem meu nome na lama, vou esclarecer: não faço apologia à tristeza. Também não acho bacana aquela alma, cujo rosto e olhar ficam nublados e se enchem de lamúrias [sempre as mesmas, ó vida, ó azar...] ao primeiro sinal de atenção. Concordo que essa energia pesa e que todo mundo acaba fugindo do que eu chamo carinhosamente de “dementadores da vida real.”

Hoje, quis dividir com você, algo como um meio termo. Quis te contar que andei sofrendo, porque você costuma acompanhar minhas letras quando amo, rio, sou grata ou fico muito “p… da vida” com algo. Essa coisa de partilhar momentos variados é qualidade sine qua non para relacionamentos humanos qualitativos. Sei que todo mundo adora alardear vitória, alegria e toda sorte de bobagem, mas sei também que somos muito, muito mais que isso. Somos feitos dos nossos silêncios, de nossas dores, de nossos lutos.

Respeito o seu/meu momento, seja de falar ou de silenciar. Mas, quero muito que você saiba que é permitido sofrer. É permitido doer. É permitido andar descabelado, ser meio pirado, misturar alhos com bugalhos. É permitido ser você! Do jeito que é, no momento em que estiver, porque nós sabemos que tudo é construção… e momentos são nossos tijolos internos para mudar. A arte da palavra dita, erudita, analfabeta, tecnológica ou internética é uma ponte. Uma vez que você conta a sua dor, chora no olho do amigo, aquela dor se dissipa um pouco no universo. Assim ocorre com toda palavra dita. A poesia falada ganha vida e uma conotação diferente, cada vez que a voz do locutor lhe empresta sua alma. A dor, a poesia, a alegria, a vitória, a ideia, o amor… tudo que é nosso merece tom, voz e ouvido. Merece alívio, vida e abrigo.

Vim até aqui escrever da minha dor, que talvez nem seja real [afinal, o que é realidade?], porque um “amigo” me convidou a sair de perto por não rir de suas piadas. Ele não quis saber de nada, porque precisa esconder, na euforia mundana, a sua dor. Saí. Agora, venho aqui te contar que amigo também rasga a roupa da tristeza para encontrar abrigo na alegria do outro.

Cláudia Costa