Inseparável simbiose – Por Roseli Pedroso

Sentada na encosta observo o mar

batendo incessantemente nas pedras.

Percebo que sou como elas, as águas.

Sua indiferença é como esse paredão

Inabalável. Imóvel. Muda.

Eu, enquanto água, me jogo, te ataco, estapeio,

espirro de tanto amoródio por ti.

Arrebento-me toda e,

em moléculas quebradas, volto ao ponto inicial.

Você segue sua vida intacto.

Eu sigo remendando os cacos das quedas.

E permanecemos assim, anos a fio

Você irredutível

Eu, mar bravio

Você intocável

Eu, implacável

Você glacial

Eu, vulcânica

Inseparável simbiose

Quem é Roseli?

Roseli Pedroso é bibliotecária por opção e vocação, escritora por amor à palavra. Iniciou sua trajetória em meados de 2010, num curso de criação literária promovido pela Editora Terracota. De lá para cá, viu-se tomada por diversas entidades que não a deixam mais em paz, a não ser nos momentos em que “gasta seus dedinhos no teclado”, transformando ideias em narrativas. Participou das antologias Abigail (Terracota), Corda Bamba e Ocultos Buracos (Pastelaria Studio) e lançou seu primeiro livro de contos Recortes de Vidas (Scenarium Plural), esse último fazendo parte do projeto Exemplos: Contos.

Seu blog: http://sacudindoasideias.wordpress.com/

Eu já decorei você – Por Stefania Alvise Marcelo

O sabor de seus lábios, sei de cor
A doçura de sua voz
Cupidos sábios do amor
O calor torrencial de sua pele em flor
Traduz em seus olhos caramelo
Meu reflexo nítido que enxergo
Eu já decorei você, Márcio Marcelo

Seiva que alimenta meu ego
Cada centímetro de seu alvo corpo
Que reconheço como meu sem mistério
O ar que respiro ao seu lado me faz crer
É necessário para meu viver, minha vida
Querer-te ardentemente sem medida
Nem mesmo o sol com seu forte amarelo
Queima mais do que meu coração em farelo
Eu já decorei você, Márcio Marcelo

Sei quando quer algo implícito
Seu olhar fala comigo solícito
O que pensa, sei pela sua expressão
Pelo movimento lento ou apressado de suas mãos
É, antes que amante, amigo
Já decorei seu sorriso pelo telefone
O sono estampado em seu rosto
A angústia embutida por seus óculos escuros
Você é seguro, sincero, sisudo, singelo
Eu já decorei você, Márcio Marcelo

Minhas roupas cheiram seu gosto
O te esperar ainda com frio na barriga
Amor Solferino, ferino
Manso de uma mulher por um menino
O pouco se torna o suficiente
Para que a felicidade tenha o nome de alegria
Por ter encontrado meu doce amado
Boca da cor do pecado, formato ideal
Composta de língua e dentes a molhar-me de ósculos ardentes
Sincronia de movimentos, um ballet angelical
Pensamentos paralelos, conexos
Eu já decorei você, Márcio Marcelo

Ritmo compassado do vínculo imaginado
pelos deuses para ser meu eterno namorado
O amor revelou-se em palavras finalmente
Como a água que molha o chão e fertiliza a terra
Sou escritora, poeta da nova era
Minha inspiração, vida, elo
Não trocarei por nenhum castelo
Eu já decorei você, meu doce Márcio Marcelo.

Sobre a autora….

Stefania Alvise Marcelo nasceu em Ipatinga (MG) e é formada em Contabilidade e Pedagogia. Tem pós-graduação em Supervisão e Direção Escolar e em Educação e Ação Social com ênfase em Sustentabilidade.

É especialista em Deficiência Intelectual e trabalha como professora no 1º ciclo de alfabetização. Escreve desde os 14 anos, adora poesias, prosa e contos.

Gostaria muito que outras pessoas conhecessem seu universo particular, pois tem certeza de que muitos se identificarão com seus sentimentos transportados para o papel.

Facebook: Stefania Alvise Marcelo

Transitoriedade – Por Bibiana Benites

Alguns encontros, por mais bonitos e inteiros que tenham sido, acabam chegando ao fim. Como tudo o que começa e termina, eles são rompidos antes mesmo do meio, da suspeita de uma emoção, do barulho de uma descoberta, da palpitação, de um suspiro, do afobamento de vida que acontece dentro. Daquilo que ninguém explica, mas lapida, na intenção de estender o prazo de validade, antes da vertigem, da aniquilação.

Era como se a dor trouxesse (e ela sempre traz) uma compreensão mais ampla daquilo que realmente importa, sem excessivas cobranças e desnecessários exageros. Eu estava sendo eu mesma, e isso era o que importava naquele momento: transgredir, de fora para dentro, encontrar o caminho de volta para casa de novo. A saída em mim.

Designada a compreender o significado de algumas inquietações que me assombravam, – sem ser sorvida fatalmente pelo tempo, pelo desafeto daquilo que nada acrescenta – fui firmando meus passos nos laços que me trouxeram até aqui.

Eu podia finalmente respirar os ganhos que as perdas me trouxeram e, de antemão, renovar minhas preces, desafogar meus medos, atropelar minhas incertezas. Houve uma permissão, da minha parte, para mergulhar no mistério da vida, experimentar meu estado, minha solidez, minha solidão. Sem amarras, sem nós, sem lamúrias, passei a me sentir mais inteira, mais dona de mim.

Hoje, minha confidência é diante da relação sadia que aprendi a manter com a falta e o respeito, composto e maduro, que humanizei com o tempo. Sem deixar brechas ou indícios de quem esteve lá antes.

Maio estava indo embora.

Sobre a autora…

Bibiana Benites (@bibibenites) reside em Porto Alegre, é gaúcha, jornalista e autora do livro ‘Clarice Por Todos os Lados’ (2013). Escrever é a forma mais simples que tem de se comunicar com Outro, de ser com ele. É proprietária do Blog Enttreaspas e da fanpage no Facebook que leva o mesmo nome.

Para um amanhã… – Por Simone Paulla

Eu me lembro de quando você tinha quatro anos e ficamos, nós dois, sozinhos em casa… A luz acabou e você sentiu medo – não vou mentir que eu também… Acendi cinco velas e as espalhei pela casa… você adorou! Por que será que crianças adoram velas, hein?!?

Fomos, então, para a cozinha, e eu comecei a preparar uma macarrão para nós. E, claro, levei umas três velas comigo, pois a cozinha é grande e eu queria que ela ficasse bem iluminada! Liguei o mp3 do celular, e a primeira música que começou a tocar foi “Amanhã é 23”, do Kid Abelha. Acho que foram os nossos anjos da guarda que colocaram essa canção como trilha sonora de um dos momentos mais lindos de nossas vidas!

Eu te puxei e começamos a dançar… você estava com a cabeça levantada, olhando para mim e rindo. Eu, com os olhos apontados para baixo – te mirando… Não falamos nada, mas nos comunicavámos com olhos e sorrisos. Comecei a te rodopiar e, em, seguida me rodopiei também… e novamente nossos corpos se abraçaram, pendendo de um lado para o outro, no famoso “dois pra lá, dois pra cá”!

Seus olhos são meio puxados e eu os acho lindos… – eu te ouvi dizer… ao que respondi:
Filho, promete que não vai se esquecer disso?
Nuncaaaaa! – você abriu seus braços e me reabraçou.

Não sei se você já se esqueceu disso, mas supondo que só irá ler essa carta quando for quase um adulto e eu não estiver mais aqui, tive motivação para escrever. Para que, caso você se esqueça, leia e recorde esses momentos.. Se fechar os olhos, poderá visualizar tudo como eu vejo, sempre que ouço essa nossa música!

Estou relatando esse momento pois, quando você for maior, quero que saiba que se trata do instante mais lindo da minha vida até hoje, “pequeno”… Foi a minha melhor dança e logo eu, que adoro música, acho que nunca foi tão bom escutar uma canção como naquele contexto… Tanto que meu medo do escuro só passou por você estar ali comigo.

Tive momentos maravilhosos em minha trajetória, porém não se comparam a essa noite… Recordo que ficamos muito emocionados, mas não choramos – apenas rimos. 

Quando você sentir saudade, espero que ouça a melodia que embalou o nosso marco mais profundo. Vou deixá-la junto a esta carta para você e, ao ouvi-la, feche seus olhos… saiba que dançarei com você, de onde eu estiver!

Ah… só para terminar, mais um trechinho da história… Depois de dançarmos e jantarmos, deitamos na cama e ficamos fazendo bichinhos com as mãos na parede, a partir da sombra das velas. Fiz um dinossauro e “comi” seu dedo! Aí você dormiu…

Enfim, meu querido filho, obrigada por me proporcionar uma das lembranças mais lindas e gostosas da minha vida. Sempre disse que queria que você tivesse boas memórias de momentos em minha companhia, mas essa – em especial – foi perfeita.

Te amo, Matheus! Nunca se esqueça de mim…

Sobre a autora…

Simone Paulla é carioca, e tudo em sua vida se torna causo, poema, crônica ou poesia. Seu rosto camufla toda uma história – e os textos que escreve desvendam os seus mistérios. Escreve nos blogs “Meus Momentos”  e “Mundo da Alice”.

Depois daquele beijo… – Por Thelma Ramalho

Nesta sexta-feira, temos o privilégio de receber a querida Thelma Ramalho!

Seja muito bem-vinda!

Depois daquele beijo…

Um dia, eu era uma mulher com a vida definida: passado, presente e futuro, tudo cheio de regras, caminhos já conhecidos. No outro, eu era uma adolescente, uma volta ao passado, onde tudo era sonho, ilusão, o desconhecido com possibilidades…

Foram dias de escutar palavras soltas em meus ouvidos, dias de dor na barriga de tanto desejo, dias desconhecidos com aquele ardor que não parecia pecado e sim um destino a ser cumprido. Horas perdidas em pensamentos que não deveriam estar ali (?).

Em nenhum momento, senti que seria proibido, mesmo que isso contrariasse um juramento feito no altar.

Parecia tudo tão natural, e eu pensava: “Se fosse pecado, por que Deus me colocaria um sentimento tão forte no meu coração?”  (porque o pecado presume uma existência divina…).

O que era pecado para uns, para mim era algo certo. O meu destino. A minha escolha. Estaria escrito?

Assim, num final de tarde, recebo um telefonema, coisas de amiga que quer bancar cupido ou interferir na vida da outra. Ao querer evitar um pedido de casamento em vão, mudei a ordem natural do que eu tinha estabelecido como vida.  Ele me olhou tão dentro dos olhos, de uma forma tão intensa, penetrante, que falei: “Menino, não me olhe assim!”.

E então, o mundo parou, o tempo da minha vida estava ali, naquele segundo em que senti a sua boca na minha e, de tão inesperado, não retribuí…

Foi o primeiro beijo roubado da minha vida!

Minhas pernas tremiam, foi exatamente igual ao primeiro beijo! Tudo, o tremor das pernas, o não saber o que fazer durante e depois, a desorientação dos sentidos, a emoção juvenil de ternura, medo e desejo!

Tal como a Bela Adormecida, o meu conto de fadas começou com um beijo que me despertou de um sono de cem anos.

Seríamos felizes para sempre?

Pensar não era permitido, mesmo para quem costumava ser tão cerebral. Planos foram substituídos por momentos vividos intensamente e, então, eu soube o que era viver…

Quando o futuro não é permitido, fica mais fácil novas aventuras.

Rasguei papéis, mudei de cidade, fugi de casa, abandonei a mim mesma e encarei o mundo.

Foi um tempo de aprendizado e de lutas silenciosas; o desconhecido assusta e o medo te faz ir adiante seguindo os instintos. Nas horas mais difíceis, a lembrança daquele beijo roubado trazia o frescor dos primeiros tempos.

O encantamento de amor é inebriante, pois nos impulsiona a sonhar acordados e cometer as mais doces loucuras na vida. Mas, o que seria da gente se não fossem esses momentos?

Porém, como toda magia perde seu encanto, a realidade um dia se fez presente: as cores vibrantes permanecem, mas a vida pede passagem. O homem é feito de rotinas e compromissos – e viver sem rótulos tem seu preço, que muitas vezes pode ser alto.

E agora, como faz para viver fantasias no mundo real?

Quem é Thelma?

Thelma Ramalho é paraibana de nascimento, arquiteta por formação, produtora da banda de rock Zefirina Bomba por paixão… Ama Elvis, Beatles e Rolling Stones. “Uma mistura de Emily Dickinson e Janis Joplin.” Cola poesia em retalhos no seu blog “2 e dois são cinco”.

Discordâncias – Por Stefania Alvise Marcelo

Nesta quarta-feira, temos a alegria de receber a querida amiga Stefania Alvise Marcelo!

Seja bem-vinda!

Discordâncias

Talvez seja apenas por carência
Ou por lembranças do passado
Talvez seja pela longa convivência
Que ficamos lado a lado

A decisão foi minha, eu sei
Insuportável estava a situação
Mas para o amor não há lei
Nem para os ímpetos do coração

O tempo absorve a amargura
E a distância provoca o perdão
Seu comportamento me deixava insegura
Suas palavras tornaram-se agressão

Nossas impaciências
Destruíram o amor
Os filamentos das palavras sonorizavam
Discordâncias e gritos de dor

Esse aperto vaza pela minha veia coronária
Quase pensei no fruto maduro
Em seus braços, porto seguro
Paixão confusa, imaginária

Entrelaçada na razão
Tento superar esta equação
O dilema vem do olhar
Que me devorava ao me beijar

Eles persistem em brilhar
Cintilam luzes a ofuscar
Sua boca busca a minha
E para esta intenção caminha

Confusões criadas
Saídas de mãos atadas
Apreensivos apertos de mão
Lamento nossa incompreensão

Você alimenta meu ego
Seu arrependimento sem colocação
Sua indulgência e perseguição
Seu domínio cego

Você não quer que eu suporte
A dor profunda deste corte
Talvez seja apenas carência
O tocar da sua persistência

O que hoje é imensa solidão
A distância fará desaparecer
A lua me dará a percepção
Será ferida fechada ao amanhecer

Quem é Stefania?

Stefania Alvise Marcelo nasceu em Ipatinga (MG) e é formada em Contabilidade e Pedagogia. Tem pós-graduação em Supervisão e Direção Escolar e em Educação e Ação Social com ênfase em Sustentabilidade.

É especialista em Deficiência Intelectual e trabalha como professora no 1º ciclo de alfabetização. Escreve desde 14 anos, adora poesias, prosa e contos.

Gostaria muito que outras pessoas conhecessem seu universo particular, pois tem certeza de que muitos se identificarão com seus sentimentos transportados para o papel.

Facebook: Stefania Alvise

Da minha fé – Por Marília Felix

Nesta sexta-feira, recebemos a querida amiga Marília Felix!

Da minha fé…

Sou tudo aquilo que meus vinte e um anos me fizeram ser. As minhas emoções nunca são rasas e os sentimentos que carrego dentro de mim constituem as minhas verdades.

Decidi não me importar mais com opiniões alheias, tampouco ouvir pessoas que em nada me acrescentam.

Não gosto de estar longe nem perto. Gosto de viver com o que me faz bem. Eu tenho olhos alargados. Estes, muitas vezes, falam melhor do que minhas palavras.

Sou adepta dos meus silêncios, das minhas vozes mudas, da sabedoria que enxergo à medida que confio em Deus.

Sobre os meus medos (sim, eu tenho vários), procuro amanhecê-los a cada dia sob um novo olhar.

Não sei muito sobre a vida, mas carrego comigo sempre um punhado de fé e esperança.

Marília Felix

Quem é Marília?

Marília Felix é menina-moça de letras sensíveis e delicadas. Escreve o que sente no coração e tem na fé o seu mais importante escudo.

Blog: http://meus-desvaneios.blogspot.com.br/.