Pedro – Por Heleny Galati

O planeta Terra existe há quatro bilhões e meio de anos, mas, no entanto, o cérebro começou a se formar há apenas 100 milhões de anos. A natureza levou todo esse tempo para formatar a complexa e maravilhosa interação humana. O primeiro, neurologicamente falando, Homo Sapiens, conhecido como a Eva Mitocondrial – a quem estudos genéticos mostram que todos na Terra são relacionados – viveu há duzentos mil anos. Não sabemos ao certo a razão da evolução de nossos cérebros, fator que nos diferenciou de muitos parentes ancestrais, mas o nosso DNA não nega que, mesmo com todas as conquistas humanas, ainda continuamos a ser uma específica variação de uma espécie de macaco africano que evoluiu no Vale do Rift. Isso somos nós, mesmo com toda nossa grandeza de civilização, mesmo com nossa falsa impressão de superioridade: somos apenas e tão somente seres que evoluíram física e psicologicamente… um acaso da natureza, e não “os escolhidos”.

Curiosamente, esses pensamentos iam por minha cabeça numa noite fria em Londres. Os termômetros marcavam zero graus, eu olhava a lua branca pela janela que, apesar do frio, estava aberta – não consigo mais dormir com a janela fechada, não importa se lá fora está congelando – e o perfume da noite invadia o quarto. Silêncio, o momento era aquele em que o relógio – essa invenção tão nossa – pula de um dia para o próximo. Nesse exato instante, minhas memórias voltaram ao passado, e me lembrei de Pedro. Curiosamente, Pedro passou rapidamente por minha vida, era eu uma criança-adolescente e ele um colega de classe. A primeira imagem que voltou foi de seu sorriso, depois de um momento nosso, em que o encontro em uma ‘vendinha’ perto da escola.

Como tudo em mim, minha primeira ação mental foi compreender o que me fez lembrar de alguém tão do passado. Concluí que fora um artigo que eu lera a respeito de racismo e sobre como as mulheres ‘brancas’ encaram os homens ‘negros’. Pedro era um belo jovem negro.

Pedro entrou em minha vida como tudo, inesperadamente. Ele era extrovertido, simpático, com um sorriso – que eu costumava chamar de sorriso em lá maior – e o dom para e fazer pensar em como se pode conviver com diferenças aparentemente irreconciliáveis. Costumávamos sair da escola e correr para comprar refrigerantes e sucos – nem sempre ele tinha dinheiro, mas ele ia mesmo assim, nos acompanhando, contando estórias, fazendo brincadeiras e sorrindo.

Pedro gostava de arte, musica e história, não apreciava o futebol. Isso fora responsável por algumas das perguntas difíceis que ele enfrentara. Como um jovem negro não joga futebol? Como ele podia apreciar e conhecer tanto da história e de músicas – as clássicas eram suas favoritas – e não andar pela rua,s perdido em ‘peladas’? As perguntas não ofendiam Pedro. Ele encarava as pessoas e respondia: “Eu sou assim.”

Lembro-me de uma discussão entre ele e outro colega de classe sobre suas pretensões universitárias. Ambos ambicionavam a advocacia, e o rapaz não se conformava com a pretensão de Pedro. Pedro sorria e questionava: “Qual a diferença? “. A resposta era sempre a mesma: “Você sabe qual é.”

Num dia de sol, Pedro e eu estávamos sentados na mureta da escola. Eu o observava com curiosidade, afinal, ele parecia tão feliz, tão certo de quem ele era, do que queria e acima de todas as observações sem sentindo que nossos colegas faziam. Eu, ao contrário, me sentia infeliz, inapropriada, embora a mente estivesse repleta de certezas e planos. Peguei em sua mão – ele não a retirou da minha – queria sentir o calor que emanava dele, como se aquele brilho dos brancos dentes e a pele que reluzia – como se fosse um pedaço de madeira precioso –  pudessem me dar algum tipo de força, de resposta. Nosso silêncio era curioso.

Passada meia hora – essa foi minha sensação – não consegui conter minha curiosidade, minha ansiedade por compreender aquele menino-homem. Perguntei a ele a razão de aceitar tantos comentários inoportunos e ofensivos, como se ele fosse inferior de alguma forma aos outros.

“Entenda, pequena escritora…” – eu gostava de escrever e ele lera muitos dos meus textos – “Eu sei o que os assusta, também sei quem eu sou e qual será meu futuro… As vozes que me apontam lugares para estar, coisas a fazer, não me tocam. Não são essas pessoas e suas palavras que farão com que eu me enxergue de forma diferente, seja no espelho, seja no dia a dia.”

Eu sorri, ele continuou: “Essa coisa de cor de pele, de ser negro, branco, amarelo, vermelho e quantas outras cores você quiser usar para classificar uma pessoa, é um subterfúgio, um tipo de defesa dos fracos contra aqueles que são diferentes. A cor da pele é apenas uma delas, talvez por ser fácil de visualizar, pelo contraste ou mesmo pelo fato de que aqui, nestas e em outras terras, pessoas com cor de pele semelhantes foram tratadas como escravas, como objetos. Não sei, essa superioridade que alguns sentem em relação a outros só pode indicar um tipo de incompreensão da evolução humana. Decidi não me importar e continuar a me esforçar para atingir meu objetivo, nunca considerei a cor de minha pele um obstáculo ou um tíquete para facilidades. Sou um ser humano, com origem igual a de todos os humanos na Terra. Assim me vejo, assim sou.”

Como parecia simples para ele. Como deveria ser simples para mim.

Anos mais tarde, descobri que ele se formara advogado pela São Francisco. Estudara muito, esforçara-se dobrado e, no final, seguira para estudos nos Estados Unidos, onde se casou, teve dois filhos e passou a integrar a banca de um prestigiado escritório de advocacia. Tentei contato, ele respondeu, enviando a foto da família. Todos tinham o mesmo sorriso franco, iluminado. Na carta, ele disse que ainda enfrentava comentários de colegas, as pessoas lhe perguntavam sobre futebol e samba. Mesmo vestindo um terno impecável, com toda a postura nobre que ele sempre teve, ainda enxergavam primeiro a cor de sua pele e, agora, somavam a isso sua nacionalidade, pois não viam o quanto ele era semelhante. Semelhança do DNA, da espécie, diferença do indivíduo.

Pedro me perguntou se eu permanecia com aquele ar de dúvida, questionamento e decepção. Sorri quando li essas palavras… Sim, eu continuava a ter dúvidas, a questionar e a me decepcionar com a natureza humana. No entanto, aprendera que o verdadeiro senhor da minha vida sou eu, não há ninguém mais. E que o silêncio, alem de ser meu maior confidente, também era meu maior mestre. Nele aprendera mais sobre quem eu era, mais sobre a humanidade que me cerca e muito sobre DNA, mente e crenças. Aprendera a desmistificar a diferença, encarando-a como saudável expressão da natureza. Entendera que as limitações são sociais e não pessoais, e que talento vem ou se cria.

Enviei a carta com minha foto. Não tinha um filho naquela época, ele veio depois. Pedro respondeu, com um pequeno álbum de fotos da cidade na qual vivia, um pequeno urso onde se lia “I Love NY” e dizendo que eu precisava ter pelo menos um filho. Assim, talvez, aos poucos, a Terra viesse a ser um local que compreendesse as diferenças e não apenas se esforçasse para tolerá-las.

Heleny Galati

Ela II – Por Heleny Galati

“Homens são governados pelas linhas do intelecto – mulheres: por curvas de emoção.” Ela leu a frase de Joyce e parou. Pensamentos de todas as profundidades tomaram sua mente. Ela não podia sorrir. Não, a frase não era merecedora de um sorriso. Ela compreendia plenamente o contexto temporal da citação e do autor. Era claro, em sua mente lógica, que tudo se passara entre viradas de séculos, entre a clausura de um período e a tentativa de liberação de outro. Claro estava, aceito não.

Ela olhou através do vidro. Estava frio lá fora, pequenas nuvens brancas tentavam fugir da escuridão da noite. Quatro horas de uma tarde de final de outono. O inverno batia na janela, mão fria, insistente. Isso a fazia pensar. Pensar nos campos de batalha escondidos nos séculos e séculos de civilização. Os soldados sem rosto, que perderam a vida nas batalhas não reconhecidas em nenhum livro de história, recordados em poucos registros.

Eram milhares que morriam sob a bandeira da honra. Milhares eram maculadas, desmerecidas, transformadas em algo inóspito e sujo por crenças desconexas, onde o invisível era mais importante que o visível sofrimento humano. Ela pensou naquelas que lutavam silenciosamente, muitas vezes sob o comando insano dos que se diziam fortes. Da falta de oportunidades que elas tinham de serem livres, inteiras, completas em sua essência, sem a necessidade imediata ou eterna de pertencer.

Ela lembrava cada rosto ferido por um agressor que dizia amar. Cada braço quebrado, cada ferida exposta, que ficavam disfarçados por acidentes. Onde a dor e a vergonha de ser quem era crescia com a indiferença do mundo a sua volta.

Não eram apenas pancadas e agressões: mortes faziam parte de suas realidades. Mortes imputadas por progenitores, guardiões e possuidores. Elas não eram um objeto, mas as dispunham da mesma forma, muitas vezes servindo de pagamento a dívidas, de presente a quem alguma facilidade proporcionara à família. Enfim, elas eram nada mais que pequenos animais obedientes, prontas a procriar e calar.

Foi assim no passado, é assim no presente. Raros foram os momentos de brilho. Extremamente poucos os instantes em que a significância foi reconhecida. Elas nada representavam e continuam a representar pouco. Retratadas em livros como ansiosas por proteção, e em filmes nos quais, mesmo quando são as ditas heroínas, ainda assim se apóiam em braços musculosos e mentes pequenas.

Agora ela sorria. Sofria de síndrome do cor-de- rosa, cor que não apreciava, lembrava a etiqueta que ela representava para todas ELAS. Alguns produtos eram maquiados de rosa apenas para serem vendidos por preços maiores – eram os especialmente desenhados para as mulheres – e tinham que ser rosa. Ela se lembrava de como seus primos e amigos temiam ser chamados de ‘mulherzinhas’ e como chorar era coisa tão delas – fracas, frágeis, choronas – nada de coragem e força, apenas fragilidade e dependência.

Vira, em sua vida por aqui, o fato de ser quem era apenas trancar portas, diminuir a importância de seu saber e, finalmente, minar a recompensa pelo trabalho de qualidade e eficiente que executava. Ela não queria privilégios, queria igualdade, só que, nessa busca, mais uma vez encontrou preconceitos e etiquetas. Sua independência, certezas, coragem, eram atribuídas a um ser masculino que a possuía. Nunca a quem ela era, nunca por ser humana, mas sempre por ser uma mulher.

Ela complicava tudo. Gostava dos desafios, não se importava com os obstáculos e, principalmente, não temia pedir ajuda para superar suas eventuais deficiências. Sim, ela acreditava em ser ajudada, tanto quanto acreditava em ajudar – mesmo que, quando se apresentasse para ajudar alguém, muitas e muitas vezes fosse repelida, como se isso representasse uma ofensa a ambos: eles ou elas. Ela criou um estilo só dela, que deixava alguns curiosos, outros olhando com repulsa e muitos indiferentes.

Ela não batia nos jargões da felicidade eterna, da família como proteção, nem no casamento como opção maior na vida. Ela acreditava no estudo, no trabalho criativo, na independência e na capacidade de aprender e superar. Ela sabia amar como ninguém, entregava-se sem limites, era aberta e indiferente àquela premissa do possuir. Tinha um romantismo sem nós, sem laços, sem perguntas. Não acreditava na fidelidade, mas no amor; não se preocupava com a reciprocidade, mas com seu sentir. Ela amava e isso importava mais do que ser amada.

Sexo não era tabu, nem prêmio, nem ferramenta para se atingir um objetivo. Era uma expressão dela mesma e seus desejos, de sua natureza e sua aceitação. Suas fantasias voavam, algumas vezes com seus parceiros, outras quando estava solitária, em devaneios. Ela era completa, entre seus livros, seus sonhos e sua liberdade.

No entanto, ela sofria. Sofria por todas que ainda carregavam deveres de ter um ou outro comportamento. Sofria pelas mutilações físicas e psicológicas de muitas. Sofria pelo silêncio e descaso com que aquelas desconhecidas sem rosto eram tratadas. As guerras continuavam, disfarçadas, muitas vezes enroladas em brilhantes tecidos, apresentadas em cenários maravilhosos. Porém, ainda assim, era uma guerra, a ser lutada anonimamente por uma liberdade conhecida apenas pela minoria, que muitas vezes a desperdiçava na vã tentativa de agradar, mas ainda se fazia presente.

O sol havia se posto. Ela pensava que ele nunca nasceria para milhares delas que seriam mortas naquele dia. Ela queria muito gritar, mas os ouvidos são surdos, os sentimentos são vazios. O mundo continua a se refestelar com as capas das revistas, com as poses, deixando no silêncio os corpos inertes, jovens seres humanos desprezados, inferiorizados e mortos num mundo em que o culpado é sempre aquele que destoa das regras. regras criadas para tentar controlar, punir e diminuir outro ser humano. Isso com o apoio e total consentimento da religião, que nada mais quer que o respeito, o direito e a oportunidade de colocar todo seu potencial para fora. A mulher não tem direitos, por mais que se bradem as conquistas das últimas décadas.

Elas ainda eram – e ela sabia que ainda era – seres humanos de segunda linha, que embelezavam Estados, garantiam cotas em empresas, mas no fundo ainda deviam casar-se, ter filhos e ser responsáveis por quem eles seriam.

Foi aí que ela parou e pensou: até que ponto somos culpadas por estarmos onde estamos? Não, ela não aceitaria mais essa responsabilidade, embora soubesse que, muitas mulheres viam diferente, não por serem más, apenas por não saberem que tudo poderia ser igual – homens e mulheres lado a lado, sem diferenças em direitos e obrigações, em oportunidades e esforço.

Ela nunca se arrependera de ser mulher. Nunca se arrependera de ser o que era, mesmo com tudo que isso lhe causava de desconforto e problemas. Ela nunca iria se encaixar nesse jogo.

Heleny Galati

Diferentes – Por Heleny Galati

O Sol brilha sempre, embora não vejamos seu brilho à noite, como também não conseguimos ver a luz das estrelas durante o dia. Pensamos no Sol como algo diferente das estrelas, como se ele mesmo não fosse uma delas.

Uma rosa não é igual a outra. Você e eu nascemos de úteros diferentes, como resultado da combinação de duas porções de outros seres humanos. Curiosamente, embora sejamos muito, muito similares, somos diferentes. A forma como tudo é arranjado não é igual. Podemos dizer que nascemos únicos e vamos crescendo para nos tornarmos iguais. Existe uma antítese aí, pois quando crianças, temos plena consciência de que somos únicos, e isso não afeta nosso relacionamento com os outros únicos. Ao crescermos, vamos nos moldando para pertencer a um grupo, e então passamos, como juízes, a separar aqueles que não são iguais a nós. Não há aceitação ao diferente quando começamos a crescer.

Ser diferente, no mundo atual, é complicado. Se você tem dinheiro, sua ‘diferença’ é considerada excentricidade, até mesmo moda. Se você é pobre, apenas um defeito. A diferença só é ‘aceita’ quando fica tão explícita a ponto de proporcionar uma oportunidade para ‘parecermos’ bons, superiores em nossa aceitação dessa diferença. É comum ver grupos de pessoas iguais, dando apoio, oportunidades aos diferentes – àqueles com limitações físicas, com síndromes que são absolutamente extremas em sua aparência ou comportamento. Esses são nossa porta para o alívio da consciência, um tipo de portal para o autoelogio, a completa satisfação do ego. Talvez seja essa a razão pela qual existam tantas organizações de caridade, em que seus membros são ativos, interessados, mas – saindo do âmbito do ato caridoso oficial –, são intransigentes, mal educados, frios e preconceituosos.

Imagine se o Sol acordasse amanhã não amarelo, mas verde. Essa mudança de cor faria diferença para você? Se ele continuasse a proporcionar a mesma energia, os mesmos benefícios ao Sistema Solar, seria ele menosprezado por ter outra cor? Essa insignificante mudança faria com que você apreciasse menos seus momentos à beira-mar ou as caminhadas pelas montanhas? Como seria?

Imagine um ser humano perfeito em sua aparência, até mesmo belo para os padrões de nossa época. Uma bebê cercado de amor, privilegiado diante de tanto outros que não têm a oportunidade de respirar em um ambiente de amor e segurança. Imagine olhos verdes, sorriso amplo e ingênuo. Sinta o toque de sua mão. Sei que pode ver isso. Desde a pele branca, com rosadas bochechas, até os lábios vermelhos, que se abrem num sorriso sem mácula.

Esse menino, esse ser humano, tem algo escondido dentro dele. Tem aquela característica de ser único. Sua singularidade é incentivada, os pais acreditam em suas capacidade e procuram povoar sua vida com o que desperta nele toda sua habilidade de ser. Ele compreende, aprende, supera seus obstáculos. Ele cresce, até que…

Num momento inesperado, é empurrado para dentro de um grupo, no qual é esperado que ele seja ‘igual’ aos outros. Ele não compreende a razão, mas sabe que não é igual. Vão exigindo dele que se encaixe na curva média. Que aprenda o que acreditam que deva aprender, da maneira que todos aprendem. Culpam aqui e ali, buscam no exterior as razões. Invadem a privacidade da família e apenas olham para o menino como inadequado.

Como um ser humano pode ser inadequado a outros? Ah! São inúmeras as formas que criamos para a inadequação. A cor da pele, a quantidade de dinheiro, a aparência, suas preferências sexuais – que, em minha opinião, deveriam ser pessoais – a religião que professam, até mesmo o time de futebol para o qual torcem, entre inúmeras outras barreiras que somos capazes de criar, apenas para colocar os outros em ‘seus devidos lugares’.

O menino foi humilhado, especialmente por aqueles que, teoricamente, deveriam estar ainda puros de preconceitos e julgamentos: seus colegas de classe. Eles, em sua ânsia de fazer parte do grupo, repetiam o que os adultos que os cercavam diziam. O menino feliz, ansioso por aprender, foi murchando. Encolheu-se numa pequenez incompreensível para quem o amava.

Os dedos acusadores apontavam direto para quem sempre parece ser responsável pelas ditas ‘disfunções’: a mãe. Ocorreu, então, o pior. O abandono, o desespero, a quebra do ambiente seguro. Laços foram desfeitos, ódios adormecidos suplantaram o amor existente. Foi uma queda, um despencar em um poço cujo fundo era desconhecido… se é que havia.

O menino sofria. O sofrimento fluía em suas palavras de ódio contra si. Nas ações que procuravam machucar seu corpo – punição por sua estranheza, pela diferença que ninguém compreendia, nem queria compreender. Do paraíso para o inferno, do amor para o ódio, da esperança para o desespero da descrença: essas foram as mudanças imposta a seu mundo.

Abandonando tudo, os pedaços de uma família foram recolhidos em quatro malas, um pouco de dinheiro e a certeza de que nada seria pior do que ali. O menino, sem entender o novo caminho, apenas se observava feliz por deixar para trás aquilo que o magoava… que fazia com que ele passasse horas no banheiro da escola trancado, sem que ninguém se incomodasse em saber da razão. Finalmente se libertar dos ‘mestres’, que batiam em sua cabeça, gritando palavras que o faziam sentir-se ainda mais inadequado. Ele iria embora, esperava encontrar seu lugar. Vibraram com a notícia de que ele iria partir! Crianças aplaudiram o fato dele deixar o grupo.

Diferente. Ele aprendeu rapidamente que realmente era diferente. Num novo lugar, tentando encontrar seus espaço, ele percebeu que a diferença não o fazia inferior: apenas e tão simplesmente diferente. Como eram todos, como era o pequeno Carlo, o alto Dominic, a forte e esportiva Dulcie e a meiga e introvertida Mary. Ele se viu aprendendo com mais facilidade, superando obstáculos que nunca imaginara ser capaz. Trouxe para casa prêmios, palavras construtivas, amigos e, acima de tudo, teve uma família novamente.

Existem ainda aqueles pensando nele como diferente. Não o diferente que todos somos, não como uma nova cor para o Sol, mas como um Sol inútil. Existem ainda os desafetos do passado, os profissionais que nunca serão punidos por sua ineficiência. Existem outros, como ele, sofrendo. Etiquetados como incapazes, sendo nutridos com drogas e terapias inúteis, quando tudo de que precisam é amor e profissionalismo.

É necessário ouvir, e não impor nossa certeza sobre essas pequenas crianças. Acima de tudo, o profissionalismo deve imperar, não o lucro, não os favores trocados. As crianças diferentes, como o menino diferente, merecem respeito, suporte, incentivo. Merecem um afago quando acertam e não tapas quando erram. Precisam, acima de tudo, ser respeitados, para poderem respeitar. Os diferentes, sejam visivelmente diferentes, sejam apenas diferentes, têm o direito a pertencer à espécie humana, têm o direito ao amor e a um lugar nessa sociedade feita de iguais. Sua diferença é o tempero necessário à nossa sobrevivência. Tantos – que hoje são respeitados e enaltecidos como gênios – foram chamados de diferentes.

A humanidade ainda prefere os iguais. A massa não pensante, fora do círculo que lhe foi imposto na infância, ainda se preocupa com detalhes que não fazem diferença. Continua a matar gênios, apenas porque eles são diferentes.

Heleny Galati

Ele – Por Heleny Galati

“Tem coisas que são simples e nós complicamos, tem coisas que são complicadas e nós ‘temos’ que simplificar.” Essa é uma das frases favoritas dela, e a razão é simples: ela vive isso todos os dias.

Complica o acordar pela manhã com desculpas, com preguiça e até mesmo aquele sentido de depressão tão constante em sua vida. Complica seu relacionamento, insistindo que o outro caiba em seus sonhos, que seja o ideal e não o real. Complica todos os momentos de sua jornada para o trabalho, reclamando de tudo e de todos. Do trem lotado, do ônibus atrasado e, especialmente, da falta de educação de quem a cerca. Complica e complica.

No entanto, ela precisa simplificar quando se trata do filho. O que lhe toma toda energia e traços de felicidade. Ele não é afeito a mudanças, só que mudanças passaram a ser um constante em sua vida. Mudou de escola, país, casa, amigos e, logo depois, apenas passados três anos, precisou modificar tudo novamente. Justo ele, que não tolera um novo condimento na comida, uma forma diferente de preparar o macarrão ou o jeito novo de dispor um objeto em casa. Logo ele, que se recusa a experimentar algo novo, tem que fazê-lo todos os dias. Cabe então, a ela, simplificar essa complicação da vida dele.

Não para por aí. Ela tem que abordar os estudos de maneira especial. Não adianta exigir, punir… não funciona. Tirar computador ou televisão ou qualquer regalia, tem efeito contrário. Então, é preciso abordar com criatividade e paciência, incentivando e insistindo no que ela chama de ‘sermões da montanha’, dia após dia. Ele tem sempre certeza de que está certo, mas ela sabe que não… Porém, contradizê-lo não funciona: ele precisa descobrir isso – seja na conta de Matemática, no tópico de História ou mesmo no novo jogo que acabou de comprar. A autoestima dele é baixa, às vezes, como se ele desconfiasse de quem é, do que é capaz. Isso machuca, pois ela o ama demais para aceitar passivamente tal fato.

De manhã, acompanha a preparação para a escola, tenta manter o moral alto, até ele fechar a porta… então, ela desaba. No meio da tarde, quando ele retorna, ela novamente veste a fantasia da felicidade, do contentamento e da leveza, recebendo o filho com ansiedade e sorrisos. Lição de casa, conversas sobre o dia… Ele algumas vezes nervoso e irritado, ela tendo que manter o bom humor. Ambos cansados, afinal, estrada tem sido longa.

No começo, ela pensava que o erro era seu. Que ele era fruto de seus excessos, de seus altos padrões. Pessoas a haviam convencido disso, fazendo com que ela acreditasse em sua incapacidade de ser mãe, levando-a a uma distância tal que, mesmo perto, ele não conseguia alcançá-la. Ela tentou fugir, ele aceitou, mas ela não conseguiu. Voltou a lutar ao lado dele, mesmo exausta, sofrendo, com medo.

Apenas agora, nesta nova estrada, ela percebe que não foi sua culpa. Só hoje ela vê quem ele realmente é, sem as etiquetas que os demais, em outros tempos, em lugares medíocres e atrasados, impingiram a ele. Neste momento, ela escuta, de profissionais não amadores, respostas a suas dúvidas: ele é inteligente, ele é esforçado, educado, gentil, doce… enfim, ele é completo e capaz.

Ela está sentada na sala escrevendo. Novo livro, novos momentos. Ela ainda não está feliz, faltam poucas pinceladas aqui e ali, um toque de liberdade, uma cor de aventura. Ela continua esperando, pacientemente, mesmo que complicando o simples, pelo momento em que ele voará… e ela, também.

Heleny Galati

Reticências – Por Heleny Galati

Ela enrola o xale em torno,
Passando pelo corpo caído, perdido.
Deseja um ponto e um espaço,
Não sabe onde será o próximo ano.

Ela se levanta da cadeira, não caminha.
Empurra a vida, empurra tudo,
Protelando sempre o que tem que ser
Quem quer um pedaço?
Do pão amanhecido, do casaco descolorido
Do cabelo esbranquiçado.
Quem quer a revolta tardia

Quem? Onde?

Neve cobre a pedra, macio regalo
Da terra onde queria ser
Ela se enrola no xale, caminha,
Pula, rejubila entre pústulas.
Pinga na terra o sangue,
não frutifica, não justifica.
Ela enrola o xale e parte.

Heleny Galati

A xícara de chá e ela – Por Heleny Galati

“Deveríamos nos conhecer melhor.” Era assim que ela começava suas conversas com uma platéia imaginária: era um tipo de exercício diário, forma inusitada de manter sua sanidade e, acima de tudo, avaliar o quanto conhecia a si.

Ela era uma mulher de meia idade, de meia vida, meios sonhos, meio amada, meio odiada, meio. Uma mulher de meios. Como sobrevivera a tantas metades? Ao desperdício de tempo e vida que essas meias verdades a conduziram… Ela não queria acreditar que se deixara prender nessa meia vida, mas fora assim. O que restara? O jardim que cuidava como a um filho? O sonho de ser alguém que nunca seria? A imobilidade das certezas que a vida lhe trouxera? O que restara? Esse era seu exercício matinal, juntamente à yoga que praticava nos últimos 20 anos, uma reflexão tardia de seu corpo.

As espiadelas pela janela traduziam suas incertezas. Tantas dúvidas sobre quem ela era realmente. Tantas perguntas que ficavam escondidas sob camadas e camadas de certezas impostas. Era doentio viver assim… não que fosse incomum, certamente esse tipo de vida era o mais aceitável pela maioria. Essa passividade angustiante diante dos fatos.

Fatos. Ela aprendera, com certo esforço, a encará-los não como realidades, mas como impressões da mente de alguém. Ler o jornal era navegar por outras vidas, outros pontos de vistas, não pela verdade. Algumas vezes, essa viagem era cansativa. A luz que ela podia ver, poucos enxergavam… assim, tinha que se calar e continuar a ser a mesma. A senhora sentada no sofá, tricotando um novo cachecol para o filho, aguardando o bolo de chocolate – preferido dele e dela – sair do forno. Esperar.

A vida dela fora um eterno esperar. Esperar pela oportunidade que, quando apareceu, pegou-a tão alheia a tudo que não conseguiu tomar pelas mãos. Esperar pelo amor, ostentado em uma aliança no dedo e uma cama de casal, onde nunca fora feliz. Uma espécie de expectativa do mundo que, para ela, mostrou-se mais uma decepção. Decepções foram suas eternas companheiras, como se a vida negasse a oportunidade de realizações fantásticas guardadas na mente ainda jovem, ainda ansiosa pela vida, pelos descobrimentos e erros. Ela queria errar. Queria muito. Loucura talvez esse desejo de errar, de ser incomum, de tornar-se um tipo de ser liberto de suas qualidades – positivas ou negativas –, imerso em si mesmo. Ela queria…

Não havia sol que a aquecesse, nem beleza que comovesse sua mente. O que ela via era uma fria corrente de mentiras que levava todos – crentes e não crentes – ao mesmo destino: a ignorância. Antolhos e cabrestos, chicotes e esporas, o mundo havia se transformado num local onde poucos possuíam esses equipamentos e, com eles, guiavam a todos: a maioria cega e confusa, incluindo ela.

Ela se perguntava naquele instante se acordara melancólica. Não, não era melancolia. Era cansaço da rotina de ser humana, não Humana, mas um ser esperado e construído numa sociedade que acreditava ter as respostas. Ela sabia que eles não tinham. Como ela sabia? Observando… algo que fazia com primazia. Observar o mundo fora o que lhe restara. Um resto de si mesma perdurava naquelas observações. Ela via o que ninguém percebia.

Nas curvas do caminho para o santuário, vira os crentes serem usados, manipulados, colocados sob um manto de culpa e deveres, enquanto os que os guiavam estavam livres para todos os pecados. Vira, nas casas espalhadas, mulheres e crianças massacradas em nome de um deus ou outro, de um culto ou outro, sem a compreensão da bestialidade que o ato representava, sem o arrependimento humano.

Ela vira famílias serem constituídas e mantidas apenas pela aparência, num ambiente onde o amor fora esquecido e substituído pelo verbo ‘dever’. Quantos deveres tínhamos, quantos deles avaliávamos serem reais? Não, não havia a porta do futuro para todos. Ela via claramente os caminhantes fantasmas de um mundo imaginário. Ela via a destruição e a falta de visão. Ela via. Nada fazia.

Parada em sua casa, esperava o momento de se tornar mais útil. Quem sabe, num outro estado, em outra formação, suas partículas fizessem sentido. O que ela não compreendia, até então, era que o sentido não existia, nem tudo tem explicação, nem tudo é para ser. Apenas acontece.

O que ela não aceitava era que os Homens são injustos, egoístas e sempre procuram a guerra como fonte. Que a desigualdade é um tipo de ferramenta na mão daqueles que governam o mundo dela. Ela não entendia que seu objetivo ali estava sendo cumprido em suas palavras, que sua rotina e suas questões sobre tudo eram combustível para acordar outros. Ela não percebia, ou não queria. Ela nunca gostara da responsabilidade de ser exemplo… preferia o silêncio.

Ela, mulher de meia idade, sem novos sonhos – e não digam a ela que sonhar é preciso –, pois os antigos ainda persistiam. Ela, solitária flor desperta para a realidade que poucos se davam ao trabalho de ver. Ela, sempre ela, novamente ela. Mulher que foi fantasia para alguns, objeto para outros, apenas uma mulher para muitos. Ela não queria ser tão direta em suas conclusões… não, conclusões não, seus ‘insights’. Ela preferia se calar, deixando que a ignorância clamasse o poder sobre a verdade. Ela, cansada e exaurida. Ela, apenas ela e a xícara de chá.

Heleny Galati

Silêncio de outono – Por Heleny Galati

O despertador toca: hora de recomeçar a viver nesta realidade, neste momento. Lá fora, os pássaros gorjeiam e as folhas dançam animadas nos braços do vento frio do norte. O morno sol se levanta… parece que ele gastou todas as suas energias entre a primavera e o verão, pois agora ilumina sem aquecer. Não há silêncio no outono. Primavera e verão são ruidosos convites ao coletivo, à festa, à exposição de si. O inverno representa a reclusão, a procura pelo aquecimento e alguns dias de diversão quando a neve aparece. E o outono? Ele é o preparo? Uma estação intermediária, sem significado próprio, sem voz?

Amo o outono, esse conceito de dias frios e sol, de flores renitentes e verdes que desbotam em amarelos, vermelhos e marrons. Gosto de acordar com o frio, pois ele é espécie de companheiro para minha rotina matinal. Descalça, ando pela casa ainda silenciosa, observando o movimento da natureza lá fora pela janela suada. Suspiro. Esses são meus primeiros passos pela manhã e, coincidentemente, são semelhantes aos últimos que dou ao anoitecer… antes de me aninhar entre algodão e plumas, vejo meu reflexo na janela, sobreposto às arvores e ao céu escuro. Se tenho sorte, a lua me ilumina e energiza com sua beleza.

As luas de outono são especiais. Elas são mais brancas, rigorosas deusas noturnas, com seus raios inspiradores. Algumas vezes, é difícil imaginar sua superfície rochosa e poeirenta, ou saber que não há luz nelas, apenas reflexo. Poeticamente, a lua é uma deusa; na realidade, um satélite, provavelmente arrancado, arremessado para fora, mas prisioneiro por milênios e milênios… tão diferente do sol, da estrela, que nos traz vida. Curiosamente, nós o vemos da mesma forma – um deus de fogo –, cruzando os céus para alimentar a vida. Hélios, Apollo, um mitológico ser, no fundo, bem ali na mente, o sol é apenas um corpo que, através da fusão, relembra-nos da nossa dependência e de um futuro fim.

Vagueio com eles de manhã até o último suspiro do meu dia. Caminho, limpando a mim das etiquetas que me colocam, dos comportamentos ditos adequados, das dores que trouxeram lágrimas e das felicidades que passaram tão rapidamente. Alguém comentou que sou uma figura trágica. Buscando sempre as dores e os medos, as incertezas e as perguntas, sem me contentar com a falsa alegria, a pretensa coragem, as certezas plastificadas de uma sociedade amortecida. Foi dele que ouvi claramente que não gosto de respostas, prefiro perguntas. Foi ele que me deu um beijo e disse que sou única, impossível, uma ficção de ser humano. Ele e eu. Independentes e tão perfeitamente encaixados, como o sol e a lua.

Meu devaneios são reflexo das conjecturas que levanto, dos pensamentos caóticos que me possibilito. Sim, eu me autorizo àquilo que contradiz o que o mundo afirma ser permitido. Sou negativa, sou covarde, sou lenta em tomar decisões, sou fraca para manter meu ‘não’. Não perdoo com facilidade, aliás, nunca acreditei em perdão, não confio, não aceito, gosto do ‘não’ mais que do ‘sim’… estranho isso, pois, num mundo em que todos procuram a felicidade em objetos, eu a procuro em mim.

Aceitando minhas fraquezas – ou forças contràrias à turba enlouquecida, que acredita na perfeição de tudo, especialmente na própria –, no mergulho que dou ao lado escuro de minha mente, recobro aquela parte de mim que luta frequentemente para ser simplesmente o que é. Um tipo de invólucro de uma mente repleta de ligações, questões e opiniões. Uma mente que se recusa à etiqueta de cor, de nacionalidade, de sexo e idade… alguém que prefere a solidão à companhia forçada, imposta pela necessidade que nos dizem de ser social.

Não sou social nesse sentido e, se alguém me etiquetasse agora, diria que, de forma inesperada, eu não aprecio gente. Não é bem verdade, amo o ser humano, embora de alguma maneira tenha encontrado poucos pelo caminho. A maioria esta engatinhando entre o animal primordial e a humanidade, em uma luta constante entre seu mundo e a realidade. Como disse, prefiro ser apenas um tipo estranho de humano, que gosta de outono e inverno, sol e lua, que não se importa em andar descalço pela vida. Prefiro minhas escolhas que a de outros. Metamorfose é um tipo usual de palavra, mas não me vejo assim, em eterna metamorfose… me vejo como um er de energia, sem objetivo concreto além do simples viver. Não sou escolhida ou especial, sou apenas mais um grupo de elementos aglomerados num formato provável, não necessariamente real.

Não tenho cor, sexo, nome, sobrenome, profissão ou postura. Desperto nas pessoas suas ambiguidades, seu sentimentos extremados, seus medos confinados, mesclando com dor suas felicidades fugidias. Sou um tipo inequívoco de liberdade escolhida, não imposta… se me restrinjo, é por querer. Se voo, é por poder. Recuso as fantasias que tentam, com promessas tolas e fúteis, controlar as pessoas e suas escolhas. Vidas e mortes não cabem em nossas mãos. As soluções são múltiplas e únicas em determinadas ocasiões. Nós nos vestimos de preto e julgamos, para depois nos despirmos e usarmos o branco da pureza e da certeza. Minha cor é o preto… não como juiz, mas como a noite nos parece. Preto para a introspecção.

O outono não é silencioso. Eu também não sou, nunca fui. Meus sons me custaram sangue, lágrimas, silêncios. Não me importo, calar é como morrer um pouco a cada dia. Não são sapos que engolimos, são energias que perdemos. Não perco mais. Nasço com o sol, vou dormir com a lua e vou viver nesse ciclo aqui por algum tempo, retornando, afinal, ao elementar, ao todo. Não é o fim, apenas o eterno ir e vir.

Heleny Galati