Escrevendo e Vivendo – Por Heleny Galati

Pesquisar para um novo livro é quase como empreender uma viagem. Você tem noções do ambiente e da história em que irá colocar seus personagens. Na verdade, alguns são conhecidos do público, entretanto, quando você dá aquele passo, mergulhando no passado e no universo de personagens históricos e lendários que serão companheiros de seus personagens imaginários, é nesse momento que você simplesmente descola do presente e aceita o desafio de voltar no tempo.

A viagem vale, sempre vale. Como pisar fisicamente em uma terra nova, colocar sua mente nos pressupostos, teorias e pequenos fatos coletados por milhares de outros seres humanos – arqueólogos, historiadores, biólogos – e dali iniciar o longo processo de recriar um mundo, um tempo – com seus costumes, sonhos, realidades e medos – que irá servir de palco para sua estória, é delirante.

Delírio, sim, podemos dar um nome assim para o que ocorre quando todo o processo tem início. De repente, eu me vejo navegando os mesmos mares, buscando os mesmos horizontes. Sinto na pele a brisa e o sal, o sol queimando enquanto remo em direção à cidade que, enquanto é destino, também é rival.

Eu queria tanto flutuar para aquele tempo. Simplesmente me abandonar naquele ponto da tradicional – não necessariamente real – linha do tempo. Como seria viver na idade do Bronze? O que representaria a mulher no contexto dos palácios, da vida cotidiana, das guerras?

A coincidência é um prêmio. Meu nome – Heleny, Helena, Eleni – é o mesmo da mulher que será perseguida, endeusada, amada e finalmente destruída. Seria meu destino também? Seria um tipo de fluxo gerado pelo nosso nome ou por quem ousamos ser? Não sei. Sei tão pouco sobre tudo. Esse não saber é inebriante, porque permite que eu crie. Crie um tipo de resposta à lenda que poucos ousarão crer. Posso criar a visão e as aspirações de corpos desfeitos pelo vento, pela chuva e erosão milhares de anos no passado. Sinto, algumas vezes, que estava lá, que fazia parte da horda insurgente ou da aristocracia excêntrica, egoísta, não empática. Seria eu um reflexo de ontem no hoje? Impossível não questionar.

Em algum momento, esse questionamento corta como uma das antigas espadas – vi algumas nos museus que percorri pelo mundo – e dói, dói muito essa ansiedade gerada por não poder dar a resposta certa – como se houvesse uma. Essa sou eu, a escritora que está sempre a procura da realidade, do lugar onde insere a fantasia e sua própria vida.

Hoje, particularmente, passei horas entre ruínas e reconstruções. Voltei quatro mil anos, percorrendo lentamente cada destruição e reconstrução. Ouvi, como um sussurro, a pergunta do porquê, qual a insensata razão que levou à reconstrução do que foi destruído pelo fogo, pela própria terra em seu sacudir, pelas guerras? Haveria alguma concreta e sensata resposta? Sim, havia, pelo menos para mim. O local onde isso ocorreu era fértil, estratégico porto da antiguidade. Os guerreiros, mercadores e nobres que ali viviam podiam controlar a passagem para paragens mais rentáveis.

Era essa a exata razão que criara o pequeno vulcão que explodiu através de um acaso, um incidente. No futuro, poetas revisarão a crua realidade de ganância e poder, pincelando com amor e luxúria, mantendo, no entanto, a morte como personagem principal. A simples verdade será escondida – parece ser essa uma tendência humana – atrás de mitos e falsas premissas.

Nós, aqui, neste ponto, somos incapazes de compreender os fragmentos que nos foram escondidos sob milênios de evolução cultural. Essa afirmação me faz rir, pois na verdade continuamos a acreditar nos mesmos mitos e lendas, nos mesmos favores e preces, apenas a roupagem é outra. Somos seres cercados por tecnologia, enquanto imersos nas crenças do passado.

Caminho, assim, em terreno perigoso, mas não posso deixar de me arriscar. A verdade é clara, gritá-la através de meus personagens é a única forma que tenho de protestar contra a cegueira e, vou usar a palavra real, estupidez humana. Não tenho todas as respostas, mas as perguntas que faço caem em ouvidos surdos, são respondidas por bocas que repetem os tradicionais murmúrios desconexos, contraditórios de um passado imaginário. Passado impregnado de preconceitos de todos os tempos. Prefiro, então, deixar que meus personagens me guiem, não como controladores, muito mais na forma de companheiros vivendo a mesma grande aventura. Construo suas vidas e reconstruo a minha. Confuso algumas vezes, tão nítido em outras.

Estou terminando este texto, e na televisão alguém fala sobre ‘dark soul’ – alma escura – é algo curioso. Não há essa tal de ‘dark soul’, apenas nossa mente se acomoda no sofrimento, na autocomiseração e na sensação indubitável de que a culpa é de um outro qualquer. Não consigo ser assim. Muitos influenciaram minhas escolhas – eu deixei – mesmo quando criança, acabei por deixar me levar pela crença do não poder, não dever, não ser correto. Cresci e, como os personagens dessa estória que está no início, só percebi que tudo era uma grande mentira quando o sol se pôs definitivamente.

Felizmente, diferente de minha personagem, o sol nasceu novamente. A oportunidade de aprender continuou a ser real e aqui estou, recriando meu aprendizado, do primeiro ao último livro, embutida em todas as palavras que digo ou ficam subentendidas. A mensagem está lá: tal qual Serhan, eu mesma tenho um tipo de dever, de papel – escolhido por mim – e sigo no intuito de cumpri-lo.

Não rumo para um fim, na verdade o rumo não importa. Sigo usufruindo da vida que tenho, junto aos meus personagens e o sentimento que sempre me moveu. Continuo, solitária, confusa alguns dias, quase compreendendo em outros. Continuo, por ser a única coisa que posso ser. Qualquer outra alternativa se mostra covarde, incompleta, qualquer uma não é a resposta. Sou esse emaranhado de vidas que me absorvem, sou esse complexo vagar por tempos e espaços, sou essa solitária mulher que acorda de madrugada com a nítida sensação de que ainda será possível. Sim, possibilidade é meu combustível, não é fé, não é crença, nem sequer algum tipo de filosofia, apenas acredito no meu próprio potencial – contra todos e tudo nesse mundo – e vou escrevendo, escrevendo e vivendo.

Heleny Galati

Recortes – Por Heleny Galati

[Ela abria a janela todos os dias, sempre com a esperança de encontrar a resposta para o abandono que sofrera. Abria primeiro as cortinas, como um ensaio, depois as antigas folhas de madeiras – raras hoje em dia – e finalmente olhava para o céu. Anos de repetição não lhe trouxeram a resposta, apenas o esquecimento.]

[Era uma manhã fria – o inverno rigoroso na cidade aquele ano o levara a procurar um novo abrigo. A velha ponte não servia mais. Durante anos aquele fora seu lar, como se um pedaço dele estivesse grudado ali, impregnado na estrutura da velha ponte, Hoje ele teria que partir. Não tinha a menor ideia de que local iria abrigá-lo. Virou-se para o único lugar que lhe fora um lar. Adeus.]

[A criança passara por necessidades, necessidades emocionais. A adolescente tivera falta de ambas: emoções e alimento. Somente na última noite de sua velhice ela compreendeu.]

[Ela passou o batom com cuidado. Tudo nela era cuidadosamente estudado: vestido, Jóias, cabelo e sapatos. A maquiagem impecável escondia todo tipo de marca: as da vida e as dele. Nunca compartilhara suas dores, fossem quais fossem. Era companheira do silêncio. Pegou a bolsa, a chave do carro e saiu. Nunca mais voltou.]

[Ele não queria ser feliz. Nunca procurou a felicidade, acreditara sempre que seu destino era aquele. Nada de coisas boas, nada de sucesso, apenas trabalho duro, bebida, mulheres quaisquer em camas quaisquer, os amigos – que nem sempre o compreendiam, – a família, eterno dever. Ele era aquilo, nada mais. Um dia ela apareceu, surgiu de lugar nenhum e nada continuou igual.]

[Ele nascera com um defeito. Era bem visível a todos a marca que seus pais deixaram nele. Não queria odiá-los. Não queria deitar na cama e pensar em como seria diferente se seus pais fossem menos crentes e mais ativos. Tanta energia e esperança desperdiçada em fábulas. Ele não acreditava nelas. Ele era a prova de que elas não existiam.]

[Era esse seu trabalho. Pelo menos levava comida para casa todos os dias, permitia luxos como férias na praia, escola para os dois filhos. No começo fora difícil, quase dor constante, com o tempo colocou uma máscara qualquer e seguiu. Era hora, saia curta, blusa decotada, maquiagem pesada e lá ia ela.]

[Oito anos, ela tinha apenas oito anos. Nunca conhecera outra vida, apenas aquela: lavar, cozinhar, limpar, cuidar dos irmãos menores, buscar água. Era essa sua vida, era quase feliz ali. Um dia, alguém lhe trouxe uma novo vestido. Uma pulseira apareceu em seu braço. A mãe olhava para ela com tristeza. O pai a encarava com ganância. No dia seguinte, ela foi jogada numa cama suja, numa casa suja, nunca entendeu o que aconteceu. Agora, na nova casa, sua casa, ela mantinha a mesma rotina. Por dois anos foi assim – obrigações do dia e da noite. No fim,uma troca: um bebê e a morte dela.]

[Nunca se preocupara com ninguém. Sempre se preocupara com todos. Era essa sua contradição essencial. Incapaz de qualquer empatia, mantinha um ritmo que enganava seus pares, eles a acreditavam boa. Ela não era. Tinha seus momentos mas era essencialmente despida de sentimentos. Sua mímica de amor – romântico e maternal – nunca passara disso, mímica e os filhos eram nada mais que projeções de sua perfeição. Ela era o que importava, nada mais.]

Heleny Galati

Definitivo – Por Heleny Galati

A porta bate. Uma criança chora. Na televisão, uma novela feita para quem permanece boa parte da tarde em casa. O dia está quente, fazendo da preguiça uma companhia constante. As pernas doem, possivelmente devido aos exercícios feitos pela manhã. O corpo jogado no sofá sente que está de volta a sua eterna armadilha: rotina, obrigações, comida como forma de compensação pela falta de perspectivas.

A criança chora. A irritação que o choro provoca é incompreensível. Crianças e suas demandas se transformaram em tormenta, talvez por simbolizarem espécie de algema, quem sabe? Algemas pipocam por toda parte, em todas as formas. A maior prisão é a necessidade básica de sobreviver, sem o conhecido pote de ouro não há vida, mal existe morte.

O sofá sacode com o movimento ansioso. Quanto tempo sem sentir um ser humano pode suportar? Meses? Anos? Seu não sentir se arrasta por três anos, é pura sinfonia do vazio. Isso faz com que o viver não faça sentido, ou melhor, respirar. Viver é algo muito diferente. Poucos são os estímulos que trazem algum pulso, um filme ou um sabor exótico. Eles, no entanto, não garantem a vida.

Não existe desejo maior do que ser livre. A liberdade do não compromisso com nada e ninguém. A solidão que parece servir bem como companheira. Esse é seu único pensamento. Obsessão da manhã até o anoitecer, espécie de rio correndo por dentro. Rio ácido que corrói, corrompe.

O calor aumenta, a vontade de não fazer absolutamente nada segue ganhando terreno. Há meses, anos, essa inércia se faz presente. Essencialmente é um caso desesperador, um cadáver onde pulsa o coração. Cadáver insano, inexplicável, casca vazia. Tudo tão absolutamente lugar comum, tão banal. Seria a vida banal?

Olhos fechados mesmo que possam ver ao longe. Estupidez essa de tentar quebrar o vidro a sua volta. No princípio acreditava que alguém o faria. Compreendera, enfim, que seu libertador nunca viria, ele estava ali, preso na mesma caixa.

Lembra quando uma porta imaginária apareceu e saiu por breve espaço de tempo. Nunca fora tão feliz. Nunca experimentara tanto de si. Por fim, as correntes executaram seu propósito, arrastando o corpo infeliz de volta. Havia a acomodação agora, especialmente por perceber que nada especial surgiria. Nada.

Um pássaro voa de uma árvore para outra. Finalmente a criança se calou. O ventilador se move de uma lado para outro, sem sair do lugar. Movimento conhecido de oscilar e não se mover. Olhar para o azul dói. O sangue corre lento em suas veias, corre lento para fora também. Verão e inverno.

Logo será hora de preparar o jantar. O menino, que se esconde no quarto, vai aparecer, colocar as mãos na cintura e perguntar o que irá comer. Um pouco mais tarde, alguém abrirá a porta de entrada, poucas palavras serão trocadas. Não existe nada mais a ser dito. Hora de dormir.

A cama é um tipo de juiz. Aponta incisivamente cada pedaço da estória que tenta esconder. Lágrimas escorrem e aquela eterna esperança de não acordar no dia seguinte ganha espaço. Seria tão simples. Limpo. Definitivo. Sim, talvez seja esse o termo adequado ali: definitivo.

Heleny Galati

Dança comigo? – Por Heleny Galati

Escadas… qual seria a razão subconsciente que a fazia não gostar de escadas? Sempre pensara que a escada era um tipo de caminho de nenhum lugar para lugar algum. Coisas de sua ‘cabeça’, sua inusitada e peculiar mente.

Num dia de sol, com ventos frios e flores se exibindo, ela caminhava solitária rumo a um jardim. Apreciava a oportunidade que lhe fora dada de usufruir um lugar como aquele. Lagos, cascata, caminhos tortuosos, que passavam por belos jardins e terminavam na margem das águas, onde cisnes e patos decoravam, viviam e davam vida ao local. Era absolutamente maravilhoso se sentar em um banco e nada fazer, apenas observar.

A manhã aprazível, morno casulo para seu corpo, despertava outros pensamentos, antigas lembranças. Na cabeça, um chapéu se equilibrava; nas mãos, os anéis de prata resplandeciam ao sol e os pés se mantinham em calçados confortáveis – os eternos Converse – enquanto um tipo místico de energia ia se acumulando. Ela compreendia bem o que acontecia, aceitava e usava tudo aquilo para escolher seu futuro.

Fechou os olhos com suavidade, apenas os ruídos naturais embalavam os pensamentos. Então, como sempre, ela voltou no tempo.

Um dia de sol como hoje, apenas mais quente, apenas menos carinhoso. Um dia de pedidos. Pedir algo a alguém custava tanto a ela quanto admitir que precisava de ajuda. Crescera sozinha, sem poder gritar suas necessidades infantis, suas confusões adolescentes a ninguém. Esse treinamento fora o combustível para quem chegara a ser agora. O verbo pedir não lhe fazia companhia. Mas, naquele dia, num quente e sufocante começo de setembro, ela quebraria suas regras particulares.

Agora, talvez, depois de repensar e analisar,  ela teria enfim a decência de vencer suas dificuldades psicológicas e pedir o que deveria ter pedido havia tempos.

Ela entra na sala, ele está deitado no sofá. A música eletrônica embriaga a mente dele através dos fones de ouvido. Fones que ela dera a ele. Seu maior desejo é que ele a ouça. Sua expectativa é de que ele compreenda. Seu sonho, que ele aceite.

Como por mágica, ele remove os fones e sorri para ela. Estende a mão, convidando-a a sentar ao seu lado. Ela fica parada, olhando, com a lembrança de seus gestos passados correndo diante de seus olhos, como o rio corre diante da árvore na margem. A coragem, que nunca existira antes, toma forma. Ela se aproxima sorrindo, pega na mão dele e o ajuda a se levantar do sofá.

Ele não acompanha o que ela tenta dizer, mas confia tanto nela que entrega seu corpo aos movimentos que ela coordena com as mão e seu corpo. Eles estão próximos, tão próximos quanto dois corpos podem estar. Frente à frente, olhos nos olhos, ela murmura algo. Ele não capta imediatamente o significado do som. O idioma dela não é o dele, o dele não é o dela. Eles usam uma idioma comum, repleto de falhas e símbolos desconhecidos, a comunicação não é simples, especialmente em momentos como esse.

Os obstáculos entre eles sempre foram a tinta colorindo a paisagem por onde passavam, as casas onde viviam. Não era diferente agora.

Ela repetiu com mais calma, ele prestou mais atenção. “Dança comigo?” Era o começo do mar de palavras que se seguiriam. Capturadas no ar, fizeram com que ele entrelaçasse o corpo dela. Os movimentos eram suaves, embalados por uma música misteriosa, que tocava a mente de ambos.

Ela continuou com as palavras, queria dançar com ele, não apenas aquela música. Queria dançar todas, especialmente as que iriam compor juntos. Dançar rumo às mudanças que ocorreriam em seus corpos. Dançar contra os momentos de dor e mágoa que aconteceriam entre eles. Ela queria dançar em comemoração ao sentimento que os unia, a coragem que era o amálgama do sentir deles. Queria ter o prazer infinito de dançar eternamente a dança de vida com ele.

Ele ouviu, enquanto embalava o corpo dela naquela dança. Desta vez, ela repetiu: “Dança comigo?” Não teve medo, nem vergonha de pedir o que seu corpo todo clamava havia séculos. Repetiu novamente, mergulhando seus olhos nos olhos dele. E, novamente, quando os lábios dele tocaram os dela.

Ansiava pela resposta. Ansiava pelo fim daquela agonia de milênios. Ansiava por dançar.

Ele a puxou mais perto, nem o ar passava entre eles, os corpos balançavam no ritmo. O olhar dele antecipou a resposta e, quando o som saiu dos lábios dele, ela sabia que desta vez vencera: “Evet”, “Yes”, “Sim”.

E eles dançaram e dançaram, choraram, riram, criaram, destruíram, mas, acima de tudo, amaram um ao outro, como todas as impossibilidades diziam que não seria. No fim, quando chegou o momento de retornar a serem apenas pequenas partículas, partiram juntos, ainda dançando.

Heleny Galati

Tempo – Por Heleny Galati

Ela apreciava a caminhada, era uma de suas atividades favoritas; estava entre ler um livro e escrever. Caminhar representava um tipo de amálgama entre a leitura e a escrita, possivelmente porque, enquanto caminha, ela observa a vida – dela e de outros. Hoje, num lindo dia de junho, o sol decidira mostrar toda sua energia. O verde estava tão verde a sua volta que, algumas vezes, ela desviava o olhar para não perder o senso de direção.

Aquele parque havia sido a residência de campo de alguém, que fora transformada em espécie de museu-jardim e abrigo de patos e cisnes. Calma e agitação se alternam ali, assim como nela.

Enquanto caminha, vai criando estórias. Algumas lhe escapam depois, nunca serão escritas. Outras ela consegue manter acesas, até que o computador – não consegue escrever mais com papel e caneta – esteja próximo e em ação. Neste instante, as ideias vão, da mesma forma que a pintura e a escultura – sendo moldadas, combinadas e finalmente transpostas da mente para a tela em branco. Colorindo com símbolos em preto e branco a folha virtual de papel.

Ela gosta desses improvisos provenientes das emoções despertas no ato de caminhar. Ela passa por um caminho longo, pedregulhos cobrem o chão de terra. De cada lado, árvores em intervalos sombreiam o caminho naquele dia de sol. Ela olha para cada janela criada entre uma árvore e outra, e de repente começa a ver o tempo retroceder.

Na primeira janela, olha para a jovem mulher. Ela ainda carrega sonhos em seus braços, mesmo que a maioria deles tenha morrido de inanição, maus tratos e surtos de realidade imposta. Ela sorri para a mulher jovem que foi, tão consciente de suas obrigações, de sua ‘adultês’. Não tinha tempo para a poesia, para o pôr-de-sol, os sabores dos morangos e a sensualidade do champagne. Era uma mulher de cama, mesa, banho. Um tipo específico esperado e cantado. Não apenas Amélia, além, um misto da mulher de verdade com a intelectual de salão. Havia, no entanto, outra sufocada e escondida, perdida e nunca liberada.

Na próxima janela, observou a adolescente. Como a paixão, aflorava em sangue, lágrimas e palavras. Poesia fluía como lava, quente, áspera, cortante. Ela viu todos os planos feitos no quarto, onde a irmã dormia e ela sonhava. Relembrou cada um deles, como quem se lembra de velhos amigos falecidos e quase esquecidos. Chorou e riu, com os planejamentos de ser uma cientista, uma mulher livre e simples, que traria respostas para perguntas que poucos tinham coragem de fazer. Tudo que ela pensava sobre si e seu futuro ficava guardado no baú de sua mente. Nunca permitira dividir isso com ninguém, eles não compreenderiam, possivelmente o riso seria a resposta – como quando disse que seria engenheira – assim, melhor sonhar sozinha.

Agora, a janela, entre o verde, mostrava a criança que fora. Os cabelos negros encaracolados, olhos escuros e um sorriso que, mesmo depois de tantos ‘nãos’, permanecera o mesmo. Era incrível que pessoas que não cruzaram seu caminho desde que era um bebê a reconheciam pelo sorriso. Ah! Sorriso e olhos. Ela sempre vai se lembrar do mito de seus olhos negros, profundos, repletos de mistérios. Assim como a beleza de seu sorriso, sempre pronto a iluminar o caminho de alguém, mesmo que, escondidas, lágrimas brotassem e rolassem dentro de seu corpo pequeno.

Fora uma experiência e tanto se ver em três momentos de sua vida… imaginava se cada uma delas, cada uma que ela fora, ainda repetia os mesmos gestos, os mesmos pensamentos… se elas seriam felizes e infelizes na mesma intensidade. Seriam?

A última janela foi uma surpresa. Ela viu os Universos, não apenas este que ela habitava agora, mas todos que existiram, existem e existirão. Enxergou-se neles, como parte significativa da energia, átomo que não poderia faltar no todo. Sorriu, pois não importava mesmo se os sonhos se completavam como planejado. Sequer se era amada ou desejada, Era necessária. Não a um, mas ao todo e isso, isso sim, dava significado a cada cicatriz que colecionara pela vida.

Ela saiu do caminho, virou à esquerda, cruzou a rua e seguiu pela direita. Agora cantava uma música que falava de esquecimento. Sorriu, dos olhos aos lábios… ela nunca iria esquecer.

Heleny Galati

Esperança – Por Heleny Galati

No dia em que ela completou 7 anos, descobriu duas coisas: a fotografia de uma pequena casa com uma família na frente e Deus.

A imagem marcou profundamente a menina. Não que a casa fosse luxuosa, na verdade era um pequeno casebre de alvenaria, metido no meio de algumas outras, tinha paredes manchadas de cinza, onde ainda se podia ver o branco que costumava usar. As janelas, nada enquadradas, eram pintadas de um verde escuro. O que atraiu o olhar de imediato foram as rosas no jardim e o sorriso no rosto da família. Foi então que, pela primeira vez, orou ao Deus que entrara em sua vida, trazido pela mãe e por alguns outros parentes.

Ela queria uma casa assim, nem precisava ser tão grande e exótica, apenas rosas no jardim e gente sorrindo seria o bastante. Comida na mesa suficiente para não ter que ir para a cama com o estômago cantando uma canção triste e alguns livros para poder conhecer mais do mundo onde vivia. Ela queria apenas uma vida.

A menina orou. Todas as noites, orou com o coração posto em cada palavra. Não era apenas de palavras que suas orações se compunham; ela procurava não mentir, mesmo quando a verdade lhe custava marcas de sangue no corpo e o abandono num canto. Evitou sentir inveja de quem possuía mais do que ela, agradecendo todos os dias pelo que tinha.

Sempre, não importava o quanto eles lhe ferissem, ela auxiliava a todos, especialmente ao pai e a mãe – como Deus dizia que tinha que ser. O tempo todo cônscia de sua responsabilidade como filha. Nunca reclamava de acordar cedo para preparar o café da manhã. Se o pai precisava de ajuda na mendicância, ela abandonava a aula de que tanto gostava e o acompanhava. Uma criança sempre trazia mais dinheiro para casa.

Nunca dizia ‘não’ à mãe, não lhe importava o pedido feito, a ordem dada. Ela a cumpria com presteza, amor e determinação. As costuras que a mãe fazia passavam por suas mãos jovens, que lhes davam acabamento e delicadeza. Ela bordava como se houvesse feito isso a vida toda. Bem, ela costurava desde que entendera o processo de usar a linha e a agulha para fazer arte.

Cuidava de todos, deixava de lado seus anseios, guardando-os para o momento em que, no pequeno colchão ao canto da cozinha, dormia, olhando muitas vezes a lua. Então, ela pegava a pequena foto e, sorrindo, não pedia mais, apenas agradecia por mais um dia.

O tempo passou, mas a vida pareceu imutável para ela, mesmo passados 33 anos depois daquele dia de descobertas. Os pais haviam envelhecido, e em sua rotina somara-se o pai inválido com Alzheimer e a mãe cega e esquizofrênica. Limpava seus corpos, alimentava-os com seu trabalho na máquina de costura e os belos bordados.

Quando o pai morreu, ela chorou, mas sabia que ele seguira para um local melhor. O mesmo ocorreu quando a mãe partiu. Todo dia agradecia pelo dia que se iniciava, toda noite agradecia pelo dia que terminava.

A velha foto estava agora em um porta-retrato na mesma casa em que nascera. Continuara sozinha, seguindo com suas orações. Era o melhor que podia fazer. Paciente criatura viva. Compreendia que Deus a testava em suas convicções e fé. Ela orava, ia à igreja, era voluntária na creche e no abrigo de idosos. Compartilhava o pouco que tinha. Chegava a não comer para alimentar os famintos. Suas noites pertenciam à solidão, ao frio e à fome.

Um dia, quando passava por um espelho que ela não tinha em casa – vaidade era pecado – percebeu a silhueta curva, o rosto amarelado e repleto de linhas repetitivas. Quase não se reconheceu.

Os anos agora trouxeram outras dores. A doença era um tipo de companhia constante. Sozinha, algumas vezes não podia se levantar da cama. Numa manhã de agosto, a janela não abriu como sempre. Os pedintes não foram atendidos. O padre notou que as flores do altar não haviam sido repostas. Amaldiçoaram a preguiçosa e egoísta que os deixará sem suporte, provavelmente perdida em algum deleite ou prazer.

Os dias foram passando como sempre. Notícias de enchentes aqui, seca acolá. Uma nova guerra. Novas vidas e novas mortes. A casa continuou fechada. Outras pessoas alimentaram os pedintes. Uma outra mulher trocava as flores dos vasos da igreja. Quase ninguém pensava nela.

Meses depois, quando uma prima distante veio à procura de ajuda, o corpo frio, meio decomposto, foi encontrado ainda na cama. Nas mãos o livro de orações, no peito a foto da casa com a família feliz.

Heleny Galati

Sonhos – Por Heleny Galati

O sonho sempre é repetido. Noite após noite, a mesma cena é apresentada a mim. A pedra cortada por uma adaga, permitindo que eu veja símbolos engastados nas paredes esverdeadas da pedra que antes era apenas cinza. Que símbolos são esses? Por que se apresentam a mim? O que têm a dizer que não pode ser dito quando estou acordada? Mesmo no sonho, mesmo nesse momento, ainda tento encontrar algum ponto de lógica no que estou vendo.

A adaga cortou a pedra como a quilha do barco corta a água, na aparência foi assim. No entanto, o barco necessita de algum tipo de energia para fazê-lo, aquela adaga era movida apenas pelo desejo. Simples.

O cenário muda e, agora, a névoa púrpura encobre a imagem anterior; no meio dela, um rosto. Sei que ele é antigo, não velho, apenas antigo. Não o reconheço, ele tem para mim o mesmo significado dos símbolos na pedra. Ambos são a tentativa inconsciente de traduzir meus mais profundos anseios. Reluto em compreender, quem não o faz? Nossos caminhos, repletos de imagens e palavras repetidas, muito e muito nos prendem a certezas definitivas e, naquele sonho, em meio a todas aquelas impossibilidades, certamente parte de mim se apega a essas certezas, renunciando ao poder de compreender além.

Neste exato ponto, a repetição muda. O rosto vai, pouco a pouco, misturando sua essência à névoa. Dali, um outro quadro: um homem em sua bicicleta. Ele é maduro, seu físico é forte, esguio, mas com músculos adequadamente formatados para sua atividade favorita: andar de bicicleta. Ele veste shorts preto, camiseta preta com fitas reflexivas laranjas e seu capacete – totalmente aerodinâmico – é de um brilhante verde, o mesmo verde do interior da pedra. Estou parada na calçada, decidindo se olho para a cena que antecipei, ou simplesmente viro as costas e continuo para outro momento.

A indecisão faz com que o homem tenha que enfrentar o carro que virou em sua direção. Ouço um grito. Fecho meus olhos, não quero ver outro ser humano machucado. Tenho visto tantos. Foi um piscar de indecisão, mas quando abri meus olhos novamente, não havia sangue. Apenas o motorista, o guarda e o homem da bicicleta. Cada qual com seu dilema. O motorista em desespero – onde vivo, um atropelamento, mesmo sem morte, significa perder o direito de dirigir um automóvel por um ano – move-se em agitação na tentativa de auxiliar o homem da bicicleta, que está imóvel no chão. Teria ele desmaiado?

O dilema do homem da bicicleta está em certificar-se de sua sobrevivência. Sim, ele está vivo, mas há algo errado com seu braço. Não é sangue, não é fogo, apenas um tipo de dormência calma, quente. Ele não consegue mexer o braço esquerdo. Não ousa se levantar do chão. As pessoas olham discretamente. Ninguém para para bisbilhotar ou incomodar o guarda, o motorista ou o homem da bicicleta. O guarda, após avaliar eventuais ferimentos, auxilia o homem da bicicleta a se levantar. O motorista, ainda com o rosto expressando o desespero, pega uma cadeira do restaurante próximo para o homem da bicicleta se sentar. Eles conversam.

O contraste das faces é evidente. O guarda exala austeridade, justiça, punição. O motorista está entre desespero e medo, pânico e dúvida. O homem da bicicleta sorri, entre alívio e o início de uma dor, que se transformará em algo maior.

Cinco minutos se passaram, uma ambulância chega. Os paramédicos avaliam a situação. Levam o homem da bicicleta para o interior da ambulância. Um rápido Raio-X confirma o braço quebrado, a tala permite que a dor não seja mais tão agonizante. Eles seguem para o hospital.

O motorista é fotografado pelo guarda. Assim como, a bicicleta, o carro e a forma como o motorista entrou na rua. Palavras de censura lhe são jogadas na face. Ele contrai o rosto. Ainda não sabe o que irá lhe acontecer. Incerteza é algo torturante. Mais 10 minutos e tudo está terminado. O guarda foi embora, o motorista seguiu para seu trabalho e o homem da bicicleta está no hospital, entre uma cirurgia ou apenas a imobilização. Quem sabe?

Nova mudança, como se a mente retomasse seu caminho ziguezagueante entre a realidade ocorrida – o acidente ‘sonhado’ realmente ocorreu hoje – e o delírio criativo. Agora, somos eu e as aves, sobrevoando cidades, rios, vales e montanhas. Um desesperado e inconsciente buscar por mim mesma. Sensação que carrego comigo no voo. As nuvens me dizem tantas coisas, mas me recuso a escutar, estou surda a outros e suas opiniões enlatadas sobre mim. Tenho meu próprio ponto de vista, elástico, espiralado, difuso. Nunca aceito a tradicional vestimenta social.

O pouso ocorre no topo de uma construção. Ela foi a mais magnífica igreja cristã construída em seu nascimento. Depois, o símbolo da conquista, hoje um museu, que relata o passado conforme a conveniência do presente. Pouso ali. Meu lar, meu lugar de ser simples e completa. Observo tudo ao redor, com olhos de completa apreciação. Sem julgamentos, sem decisões a serem tomadas.

Lembro-me do homem, do guarda e do motorista. Lembro-me do acaso que os colocou lado a lado. Lembro-me de você e de seus medos, seus preconceitos e seu sorriso infantil, repleto de desejos de uma coragem que nunca irá possuir. Lembro-me de quem fui, de quem sou e de quem sempre serei. Mutante em cada espaço, em cada tempo, constante em apenas um detalhe.

Alço voo novamente. Retorno a casa onde abrigo meu corpo, onde meu filho descansa. Espio tudo pela janela. Decido entrar e ficar, sim, vou ficar apenas mais um pouco. Ele, o menino, ainda precisa de mim. Eu? Bem… eu preciso partir. Sei que irei, mais tarde, sem medo, sem dor, sem austeridade. Apenas abrirei a janela e pularei.

Heleny Galati