Tinha que ser você… – Por Hélia Barbosa

Gosto de olhar para o calendário e ver os dias passando, num ciclo infinito. Porque isso me faz pensar que essa coisa toda de contar os dias é só uma convenção. E que a vida, na verdade, é absolutamente contínua.

Assim, olhando os dias, fico pensando em quanto tempo estamos juntos e em quanta coisa intensa a gente já viveu. Parece clichê, mas eu realmente não consigo me lembrar muito bem de como era tudo antes de você chegar e, de repente, tornar-se parte de mim.

A minha vida não começou a existir apenas quando conheci você. Mas ela passou a fazer muito mais sentido depois que você chegou.

Gosto quando você finge que não está nem aí e, no entanto, fica fazendo sempre tudo para me deixar feliz. Gosto do seu jeito de me puxar pro seu abraço, quando eu resolvo me sentar mais afastada, em frente à televisão. Gosto da sua mão buscando – automaticamente – a minha, quando a gente sai na rua, seja lá pra fazer o que for. Gosto do seu ciúme disfarçado e do seu excesso de proteção escancarado. Gosto da sua mania de nunca sair sem me dar um beijo e sempre me beijar novamente, logo ao chegar.

Gosto de pensar nas coisas que você já fez pra me agradar (como no dia em que rodou pelos bairros em busca do buquê de flores que queria me dar, até encontrá-lo em uma floricultura tão próxima do meu trabalho, que dispensou o entregador e foi levá-lo pessoalmente).

Agora eu entendo porque os meus romances passados, que pareciam ter tudo para dar certo, nunca conseguiram vingar. Eles estavam só me preparando para o melhor, que é você. É porque tinha mesmo que ser com você.

Eu queria poder guardar seus beijos em uma caixa dourada, para poder senti-los toda vez que você tiver que se afastar. Em vez disso, guardo-os na minha boca, no meu corpo, na minha mente. E sinto você aqui comigo, mesmo quando você não está.

“É, só tinha de ser com você
Havia de ser pra você
Senão era mais uma dor
Senão não seria o amor
Aquele que a gente não vê
O amor que chegou para dar
O que ninguém deu pra você”

(Tom Jobim e Elis Regina – Só tinha de ser com você)

Hélia Barbosa

Era uma vez, nós dois… – Por Hélia Barbosa

Ela não se parecia muito com uma princesa clássica dos filmes da Disney. Mas era linda, com aquele seu jeito, tão único, meio “Fiona de ser”!

Ele era lindo, mesmo não se assemelhando tanto aos príncipes encantados dos desenhos.

Mas a encantou!

E o destino, num de seus desatinos, resolver unir os dois, que se completavam em suas imperfeições.

Pouco a pouco, o que parecia, de início, ser assim tão diferente, foi se tornando algo bem singular e especial.

As diferenças atraíam.

As semelhanças cativavam.

E, em meio ao amor pelos cães, ao interesse pelas tatuagens, ao entusiasmo pelos livros e à paixão pelas músicas do Teatro Mágico, os dois foram se embolando, se misturando e transformando aquele encontro em uma história de amor, mais linda do que qualquer outra que já tenha sido contada.

Ela entendia o mau humor e as implicâncias dele. Ele achava lindo o ciúme infundado dela. E a vontade de ficar junto só aumentava, a cada dia.

Ela nunca imaginou que pudesse ser dessa forma. Mas sempre esperou viver um amor assim!

Uns achavam que o romance deles não duraria um mês.

Outros achavam que eles tinham sido feitos um para o outro.

Os dois não achavam nada.

Eles tinham certeza de que seria para sempre.

“Enquanto houver você do outro lado
Aqui do outro eu consigo me orientar
A cena repete, a cena se inverte
Enchendo a minha alma daquilo
Que outrora eu deixei de acreditar
Tua palavra, tua história
Tua verdade fazendo escola
[…]
Só enquanto eu respirar
Vou me lembrar de você…
Só enquanto eu respirar…”

(O Teatro Mágico – O Anjo mais velho)

Hélia Barbosa

Enlace… – Por Hélia Barbosa

 

Era um dia luminoso de maio quando um amor doce chegou, despretensiosamente, em minha vida. Foi tudo obra de uma conjunção de fatores e estranhas coincidências. Ou o resultado de diversas decisões e escolhas. Ou o destino. Ou coisa de Deus.

Eu não procurava por ele, ele não esperava por mim. Mas o amor é este sentimento rebelde mesmo, que parece se esconder quando o buscamos desesperadamente. E se insinua insistentemente, quando não estamos nem pensando nele.

Talvez seja apenas uma artimanha, esse jeito de nos pegar desprevenidos.

E me pegou.

Quando me dei conta – antes que eu pudesse pensar, negar ou tentar escapar – estávamos ali, risadas gostosas, olhos nos olhos, meu rosto refletido na cor indefinida do seu olhar. E quando a mão dele tocou, sem querer (será?), na minha, eu não podia imaginar que, muito mais que mãos, bocas e pernas, eram nossas vidas que estavam se cruzando, se juntando, se emaranhando, num grande e infinito laço.

De repente, caiu por terra toda aquela discussão sobre o que é paixão e o que é amor, se o que importa é o desejo ardente ou um sentimento suave e constante.

Porque foi, então, aquela mistura de arrepio na pele com o aconchego de um abraço. A combinação do cheiro da loção pós-barba no quarto com o aroma do café coado vindo da cozinha. O encontro do fogo que arde com o sossego da alma. Bem assim, se fosse resumir o que se tornou esse amor, que chegou. Tudo isso com pitadas de alegrias, tristezas, rotina, dor, saudade, raiva, dúvidas, medo, vontade de largar tudo, certeza de querer ficar pra sempre. Tudo junto e misturado.

E porque, um dia, Deus (o destino, as escolhas, as coincidências…) colocou esse amor no meu caminho, eu, que nunca confiei em príncipe encantado nem em par perfeito, vi minha vida ganhar novas cores e um novo sentido, ao ser entrelaçada em outra vida.

E, logo eu, que nunca acreditei em romance eterno, desperto – todos os dias – desejando acordar em infinitas manhãs, bem feliz, ao lado dele.

“Meu coração pulou…
Você chegou, me deixou assim, com os pés fora do chão.
Pensei: que bom… Parece, enfim acordei!
Pra renovar meu ser, faltava mesmo chegar você…
Assim, sem me avisar, pra acelerar
Um coração que já bate pouco…
De tanto procurar por outro, anda cansado.
Mas quando você está do lado, fica louco de satisfação!
Solidão, nunca mais…”

(Tunai – Frisson)

Hélia Barbosa

Você, minha poesia… – Por Hélia Barbosa

Arrumando armários e remexendo em coisas (bem) velhas, encontrei cadernos de anotações e páginas cheias de corações rabiscados, com meu nome e o seu dentro deles. No meio do caderno, uma antiga fotografia minha. De repente, eu me vi novamente naquela moça romântica, que vivia sonhando com um mundo de amor perfeito. E que fazia planos de passeios de mãos dadas pelo parque, sorvete compartilhado aos domingos, beijos sem fim em tardes preguiçosas e noites estreladas.

E, então, vi saltar das páginas do caderno a menina que chorava enquanto cantava músicas românticas da Adriana Calcanhoto e pensava em você. A menina que via os outros casais, tão perdidos, e repetia sempre: “Ah, mas nós dois somos diferentes!”. Que enxergava um futuro de namoro eterno e uma vida toda feita de poesia. Que esperava que houvesse poesia todos os dias!

Aquela menina não pensava na rotina cotidiana do trabalho, no trânsito irritante, na administração do lar, nas contas que nunca cessam, na falta de dinheiro para realizar sonhos, nas incompatibilidades, nos dias de estresse, nas palavras ásperas que ferem, nos arrependimentos. Ela não pensava nos outros… em todos os outros que fazem parte do cotidiano de um casal e que interferem em sua vida e em seu humor. Ela não sabia, em sua inocência, que a realidade não se parece tanto com aqueles filmes românticos de sessão da tarde. Que a correria que a gente mesmo se impõe, muitas vezes, atropela momentos doces e leves, como aqueles que ela sonhava viver, enquanto escrevia em seu caderno.

Se pudesse conversar com aquela moça sonhadora que fui, eu diria para ela que a vida real é bastante diferente daquela com que sonhou. Eu lhe diria que a vida real é muito… muito, não… Que é infinitamente melhor!

Eu iria dizer para essa moça que os passeios de mão dadas e os sorvetes divididos são tão especiais, justamente, porque não podem acontecer todos os dias. Que as contas, as correrias, o trabalho duro e até a falta de dinheiro, muitas vezes, fazem com que cada pequena – ou grande – conquista se torne mais importante e valiosa.

E eu diria a ela que, sim… há poesia todos os dias!

Minha poesia se mostra quando você me acorda pela manhã, com um sorriso e um “Bom dia, meu amor”. Quando meu telefone toca no meio da tarde, bem naquele momento em que eu estou mais estressada com as questões do trabalho, e ouço sua voz do outro lado: “Só pra dizer que te amo”.

Minha poesia se revela quando o mundo parece desabar sob meus pés e eu sinto a sua mão segurando firme a minha. Ela se desenha no seu abraço, que me envolve. No seu peito, onde encontro meu conforto e minha paz. No seu perfume, que fica no ar depois que você sai – e que fica em mim, quando você passa umas gotas na minha pele, dizendo: “Pra você lembrar de mim…”. No meu coração, que ainda bate acelerado, quando ouço seus passos subindo as escadas.

Talvez nosso amor nunca vire um livro. Mas ele inspira os meus poemas mais bonitos.

Então, olho a moça da foto e penso que ela nunca poderia supor que a vida real, tão diferente de todos os seus sonhos, iria fazê-la, assim, tão feliz!

“O nosso amor não vai parar de rolar, de fugir e seguir como um rio
Como uma pedra que divide um rio… Me diga coisas bonitas!
O nosso amor não vai olhar para trás, desencantar, nem ser tema de livro
A vida inteira eu quis um verso simples pra transformar o que eu digo”

(Adriana Calcanhoto – Mais feliz)

Hélia Barbosa

A grama verde do meu vizinho… – Por Hélia Barbosa

Certa época, trabalhei em uma empresa de informática, que ficava no segundo andar de um prédio – cujo primeiro andar era ocupado por um supermercado. Bem em frente, do outro lado da rua, havia uma padaria e, no segundo andar do mesmo edifício, uma academia, que tinha a fachada toda de vidro. De modo que, ao chegar a algumas das janelas ou à grande varanda frontal da empresa de informática, podíamos ver praticamente tudo o que acontecia lá dentro da academia. E o que víamos eram pessoas bonitas e saudáveis, que procuravam se cuidar, além de instrutores sempre sorridentes e cheios de energia. Os que pareciam mais alegres e dinâmicos eram os dois proprietários da academia.

Aquela visão contrastava com o ambiente da nossa empresa, bem mais silencioso, aspecto sério, com pessoas concentradas e que passavam horas ao computador – especialmente os programadores.

Era um tempo de grande crescimento na informatização e várias companhias do ramo estavam sendo criadas. A empresa em que eu trabalhava vivia um clima um pouco tenso, de reformulações e incertezas.

Um dia, um consultor que trabalhava conosco – nos preparando para enfrentar aqueles novos desafios –, chamou-nos até a tal grande varanda e pediu que observássemos a academia. Em seguida, solicitou que relatássemos nossas impressões. Depois que todos falaram – coisas boas e otimistas – ele disse:

– Provavelmente, ao olharem para cá, eles devem pensar a mesma coisa a respeito de vocês. Devem imaginar como esta empresa está próspera, como as pessoas trabalham em um ambiente de tranquilidade, sem inquietações. Provavelmente, eles também estão preocupados com a carga tributária, com todas as despesas e pagamentos, com os concorrentes. Isso nós não vemos. Assim como eles não veem os conflitos que enfrentamos. Isso é absolutamente normal, afinal, é comum acharmos que só nós temos problemas ou que os nossos são maiores que os dos outros.

Aquilo me fez refletir bastante e mudou muito a minha percepção a respeito de diversas coisas, em todos os aspectos da vida. Aguçou meu senso crítico.

A verdade é que temos mesmo a mania de achar que a grama do vizinho é mais verde que a nossa. Isso pode parecer inveja ou baixa autoestima. Mas, segundo um psicólogo americano, James Pomerantz, existe uma razão lógica para esse pensamento – e ele chegou a essa conclusão por meio de diversos estudos. A explicação é tão simples que nos perguntamos como não pensamos nisso antes: ao olharmos para a grama do vizinho, realmente, visualizamos a parte verde, devido ao ângulo e à distância do nosso olhar. Quando observamos a nossa própria grama, vemos bem mais a terra, as pedras, um tom marrom se misturando ao verde. É que, só quando olhamos bem de perto, podemos ver as coisas como elas realmente são. Essa realidade nem sempre pode ser vista nas fotos de férias em família de uma pessoa, ou nas redes sociais, por exemplo.

Viver se enganando, desejando ter a vida perfeita do outro, apenas acaba nos trazendo mais tristeza e frustração. Cada um de nós tem suas dores e delícias. Nenhuma rotina é isenta de problemas, mas podemos tornar a nossa muito melhor quando nos focamos nela, e não na vida dos outros (o que não quer dizer que não possamos seguir bons exemplos!). Do contrário, é capaz de descobrirmos – tarde demais – que a grama do vizinho tem muito mais terra e folhas secas que a nossa. Ou, pior. A descoberta pode ser como algo que li, certa vez: “Invejava o vizinho porque a grama dele era mais verde que a minha… Até que descobri que a grama dele era de plástico”.

“Ando devagar porque já tive pressa e levo esse sorriso porque já chorei demais
Hoje me sinto mais forte, mais feliz, quem sabe eu só levo a certeza
De que muito pouco sei… Ou nada sei.
Conhecer as manhas e as manhãs, o sabor das massas e das maçãs…
É preciso amor pra poder pulsar, é preciso paz pra poder sorrir
É preciso a chuva para florir…”

(Almir Sater – Tocando em frente)

Hélia Barbosa

Saudade de você… – Por Hélia Barbosa

Noite calma, lua cheia se exibindo no céu, e eu me sento próxima à televisão; mas não saberia dizer o que se passa na tela à minha frente. Meus pensamentos vagueiam para muito além desta sala, vão pra longe desta casa, e têm um destino único e certo. Porque é nestes momentos, em que encerro a correria de cada dia, quando o silêncio toma conta de tudo por aqui, que eu penso mais mansamente e profundamente em você.

Até parece que uma invisível mão mágica acaricia minha cabeça e faz com que se apaguem todas as lembranças tristes e dolorosas que eu possa ter de você e das coisas que a gente viveu. Tudo o que eu sinto é um carinho imenso, um afeto suave, e só vêm à minha mente lembranças ternas e doces de momentos vividos, de emoções divididas e alegrias multiplicadas. E, então, eu sinto uma falta enorme de sua presença, um desejo imenso de transportar você para perto de mim.

Madrugada adentro, eu me pego escrevendo, em textos românticos, tudo o que eu queria dizer para você, sem medo de parecer boba e ingênua, sem censuras, sem críticas, sem cortes e edições. E as linhas que escrevo são um retrato fiel dos sentimentos bonitos que inundam meu coração, como flores a enfeitar um jardim esquecido em uma manhã de primavera.

As primeiras luzes da manhã me encontram ainda acordada, e sentindo tanta saudade de você! Guardo minhas confissões de amor numa gaveta, onde ficarão esquecidas, junto a tantas outras que escrevi e nunca tive coragem de te mostrar. Talvez, quem sabe, em um dia qualquer, eu descubra que os meus medos são tão menores que a falta que você me faz e, finalmente, te revele que tudo o que escrevi até hoje foi em sua direção. Até lá, o tempo vai passando, impiedoso, enquanto você, em algum lugar, segue normalmente sua vida, sem suspeitar de que, em uma distância – muito mais de escolhas do que geográfica –, há alguém se lembrando ternamente de você e desejando, ardentemente e loucamente, deixar tudo para estar apenas ao seu lado.

“Me dê notícia de você, eu gosto um pouco de chorar, a gente quase não se vê, me deu vontade de lembrar. Me leve um pouco com você, eu gosto de qualquer lugar, a gente pode se entender e não saber o que falar. Seria um acontecimento, mas lógico que você some. No dia em que o seu pensamento me chamou, eu chamo o seu apartamento: não mora ninguém com esse nome. Que linda a cantiga do vento; já passou. A gente quase não se vê, eu só queria me lembrar, me dê notícia de você, me deu vontade de voltar.”

(Chico Buarque – Cadê Você)

Hélia Barbosa

Porque é primavera… – Por Hélia Barbosa

Ela abriu a porta, apressada, e entrou rapidamente em casa. Olhou o relógio, eram quinze horas. Sentou-se na poltrona, tirou o celular da bolsa e o colocou ao seu lado. Cruzou as pernas e ficou olhando a tela, aguardando pela ligação dele. Os olhos permaneciam imóveis, mas os pés balançavam em um ritmo frenético, que não escondia sua ansiedade. Às vezes, pegava o celular e, na lista de contatos, ia até a letra L. Olhava o número dele e repetia seu nome: Leonardo… O desejo de ligar para ele era enorme e os dedos tremiam na vontade de concretizar o ato. Mas ele disse que ligaria e ela não tomaria a iniciativa. Não dessa vez.

Ele havia ficado de ligar às quinze e trinta e ela quis aguardar em casa. Um vento fresco afastou as cortinas e a luz do sol entrou na sala, trazendo a luminosidade da tarde primaveril. O mês de setembro aproximava-se do fim e ela lembrou-se de que, dali a três meses, completar-se-iam dez anos desde o dia em que decidira investir tudo em sua relação com Leonardo. Dez anos. De muito amor, de muita paixão, de muito prazer e de momentos intensos. Mas, também, dez anos de abandono, de decepções, de solidão. Sim, Leonardo sabia ser maravilhoso nos momentos de paixão. Mas, em todo esse tempo, ela nem saberia que nome dar ao relacionamento deles. Ele nunca a assumira, de fato.

Ainda assim, ela se dispôs a ficar ali, esperando pela ligação dele. Ela tinha dado um basta, havia quinze dias. Ele ficou, durante todo esse tempo, em silêncio. Não a procurou, nem mesmo para saber como ela estava. Até que, na noite anterior, depois de algumas taças de vinho e consumida pela saudade, ela mandara mensagens, perguntando como ele estava. Depois de algumas mensagens trocadas, ela sentiu a paixão reacender. Teve suas esperanças renovadas, quando ele mandou uma mensagem dizendo que ligaria para ela no dia seguinte. E ali estava ela, aguardando por ele. Como sempre fazia, aliás.

A tarde se despedia, a noite se aproximava e o relógio mostrava dezoito horas. Ela olhava a tela silenciosa do celular e se perguntava em que momento de sua vida havia permitido que o amor por ele destroçasse o seu amor próprio. Como podia um sentimento sublime e nobre, a que chamamos amor, tornar-se tão sombrio, trazer tanto sofrimento e fazer com que ela sentisse que não era digna de receber afeto sincero de alguém? Isso não poderia ser amor. Pelo menos, não era o amor que a embevecia nos versos de seus poetas preferidos. Não era o amor que ela desejava para si.

Ela ainda sentia uma vaga esperança de que ele ligasse e se agarrava a ela como um náufrago, sobre um último destroço a flutuar no mar. Foi essa esperança que fez com que ela ignorasse a chamada do número desconhecido, que começou a piscar na tela do telefone. Não atendeu e teve um pouco de raiva dessa pessoa que insistia em ligar naquele momento. Na terceira ligação, ela atendeu, dizendo um “alô” seco e irritado. A voz do outro lado lhe trouxe uma certa quentura no peito e lhe pareceu familiar: “Olá… Quanto tempo! Que bom ouvir sua voz!”. Ela podia sentir o sorriso dele do outro lado, sua alegria sincera. Ela lembrou-se de uma outra primavera, nove anos atrás, quando ouvira aquela mesma voz dizer que queria deixar tudo para reconstruir a vida ao seu lado e que gostaria que ela também largasse tudo para ficarem juntos. Lembrou-se da decepção estampada no rosto dele quando ela pediu que a esquecesse, pois havia decidido construir sua vida ao lado de Leonardo.

Ela percebeu que um sorriso aparecia em seu rosto, também, quando perguntou: “Você? Depois de tanto tempo… Por que me procurou hoje, agora…?”. Ele contou que havia se mudado, morou em outro estado e que, hoje, ao retornar à cidade, havia sentido uma saudade imensa e uma vontade enorme de falar com ela. Que ela não pedisse explicação, ele não saberia explicar. Mas que nunca a esquecera. Até tentara. Não conseguiu. E que queria muito vê-la agora. Ela perguntou se ele ainda se lembrava do seu endereço e ele disse: “Estou na porta da sua casa…”. Quando ela abriu a porta, ele estava lá, emoldurado pela luz da rua. E tudo ficou tão claro! Ele disse: “Lembra-se daquele barzinho, onde nos falamos pela última vez? Continua o mesmo. Queria conversar com você lá. Porque eu sei que a nossa história não acabou ali, teve apenas um intervalo. Ela continua…”. Ela não teve dúvidas ao dizer aquele “vamos, sim!”. Colocou o celular na mesinha, pegou a bolsa e saiu com ele, fechando a porta atrás de si.

Caminharam por entre alguns pés de ipê, lado a lado, até que ele tocou de leve em seu braço e segurou sua mão, suavemente. Enquanto caminhavam de mãos dadas, ela não podia ver que seu celular começou a tocar, insistentemente, na sala vazia. Mas, sinceramente, isso não fazia mais a menor diferença…

“Você voltou, meu amor
Alegria que me deu
Quando a porta abriu você me olhou
Você sorriu, ah, você se derreteu
E se atirou, me envolveu, nem brincou
Conferiu o que era seu
É verdade eu reconheço
Eu tantas fiz, mas agora tanto faz…”

(Vinicius de Moraes – Samba da Volta)

Hélia Barbosa