Alinhavando – Por Joakim Antonio

Ela olha para a máquina de costura e deseja novamente usá-la, porém, a força lhe fugiu das mãos. Ainda há grande brilho na alma, mas pouco nos olhos e menos no coração. Mesmo assim, todos os dias, ela faz uma tentativa de voltar a ser quem deixou para trás. A mulher forte que todos esperam sempre encontrar.

Ninguém desconfia, muito menos os netos, que cada história contada traz água ao seu deserto, descendo pelo redemoinho do peito e matando a sede de poder ser. Já foi chamada de princesa, rainha e puta, colocada no colo, acariciada com zelo, mas também levou todas as pancadas, até físicas, que uma vida pode dar.

Mas, quando conta suas histórias, ela é novamente uma hábil costureira, alinhavando seus momentos para, habilmente, costurá-los no final. Deixando à mostra a imagem de uma antiga amazona, daquelas raras, que é forte por saber se reinventar.

Assim o fez e, hoje, seus novos netos – que agora são tantos, que nem pode se lembrar dos nomes – a visitam todos os dias, querendo beber mais das histórias que seu livro traz. Então, ela volta a ser menina arteira, que inventava histórias brincando, parada em frente à antiga máquina de costura em sua casa, imaginando ter força para usá-la.

Ninguém desconfia, mas hoje a menina viveu, por um momento, o maior desejo que já sentira: ter mãos fortes e precisas, para poder começar a alinhavar algo novo e costurar, sem esforço, Nesse momento, seu coração bate forte no peito e seus olhos brilham mais, devido à lágrima que cai.

Uma criança segura sua mão e a traz de volta… Quando olha ao seu redor, tantos netos novos, tantos rostos lhe presenteando sorrisos, que ela para e pensa: “Reinventar-se é uma bênção!”. E, então, começa uma nova história.

Era uma vez, uma menina sabida, que tinha o sonho de costurar a vida…

Joakim Antonio

Por encanto – Por Joakim Antonio

Conheceu a flauta guiada pelas mãos de fada da vó. Encantou-se pelo instrumento ao ouvir seu som mágico. E, um dia, como sua vó sempre dizia, por encanto, sua própria flauta apareceu. Desde aquele momento, seu mundo tornou-se mágico.

Ao tocá-la, descobriu que cada nota evocava um sentimento e, juntas, formavam frases encantadas, preenchendo corpo e alma de alegria. Então, aprendeu a guardar momentos no coração, para, por encanto, revivê-los em melodias.

Ao tocar, levava mágica ao mundo de todos, e sempre lhe diziam: “Esta música surgiu por encanto”, ao que respondia: “Cada momento tem seu encanto, que dança até a nota final”.

Hoje passou na casa antiga, já fazia um tempo que não tocava… Certa vez, deixara a flauta para sua vó consertá-la, mas outras fadas vieram buscá-la e para sempre se encantou.

Abriu a porta e viu que a casa fora saqueada há tempos, restando apenas um lampião e um caixa de papelão cheia de poeira em cima. Por impulso, abriu-a e encontrou dentro apenas um bilhete: “Está no compartimento secreto!”. Então, correu para o esconderijo de criança, onde fadas deixavam doces, e achou seu bem mais precioso para aquele momento.

Consertada, polida, brilhante diante da claridade que se firmou. Segurou-a com a delicadeza das fadas, como outra fada já lhe havia ensinado…

E, ao som da sua flauta, novamente sua vó sorriu… 
Por encanto!

Joakim Antonio

Pronto – Por Joakim Antonio

Acordou pensando em quantas vezes é preciso estar pronto para voar. Não os voos simples, nem alguns mais elaborados que o dia traz. Mas aquele voo mais que preciso, das inevitáveis mudanças que a vida impõe.

O voo sem rota, não pelo simples prazer de viver, mas porque ele nem sabe o motivo ou quando deverá pousar. Não compreende se o solo é realmente firme ou se vai surpreendê-lo com um agravante… só saberá se tentar ficar.

E tudo isso o faz refletir… se sempre estará pronto para voar, se o tempo será seu amigo, se as asas continuarão lá!

Se o vento será turbulento, ou se o céu lhe agraciará com tempo bom, ares aconchegantes e momentos para planar, continuando seu voo e, paralelamente, podendo apreciar as paisagens do caminho.

Ele se concentra tanto, explica tanto, às vezes se anulando tanto em prol do ficar, que não percebe a própria posição, e o mais óbvio que poderia constatar… Sempre que precisa perguntar se está pronto para voar… ele já está!

Joakim Antonio

Eu árvore – Por Joakim Antonio

eu árvore
eu poeta
eu crescendo de ideias
sons e tons constantes
de pensamentos soltos
presos no tempo
descendo ao caule
à semente e flor

eu árvore
eu poeta
eu palavra certa
nas folhas impressas
em telas de vidro negro
estimuladas por fótons
elétrons e retinas despertas
por sentimentos táteis

eu árvore
eu poeta
eu raízes antigas
explodindo em versos
trazendo o passado
presente e futuro incertos
nunca quase tortos
sempre quase retos

eu árvore
eu poeta
eu tudonada
entre cordas bambas
sobre abismos infindáveis
no pulo derradeiro
numa última vã tentativa
de retornar ao que realmente sou

Joakim Antonio

Tempo estranho – Por Joakim Antonio

Como medir o tempo da melhor maneira, quando o pensamento está em quem se ama? Pelo relógio lógico ou pelo biológico? Pois, no lógico, pode ter se passado apenas um dia, mas – no coração – às vezes se arrasta um ano… e o olhar brilha mais só de saber que o outro vem.

É inevitável pensar que ainda nem fizeram 24 horas e você só se lembra da demora, dos minutos que faltam no relógio lógico, pois, no biológico, eles sobram. Sobram tanto, que você tem tempo para tudo, preenchendo os buracos… até poder ver quem – de certa forma – supre o vazio em você.

E, quando chega o momento do encontro, você se vê todo de braços abertos, todo colo de espera, todo “casa”, esperando quem tem espaço para, no seu coração, morar.

Realmente o tempo é estranho, talvez para mostrar que saudade não segue o ritmo das horas, adequando-se apenas ao tamanho… O tamanho de quanto seus braços abrem, abraçam e apertam o outro. Porque, no relógio do coração, sempre é hora de amar.

Joakim Antonio

Pai Sol – Por Joakim Antonio

Domingo, dia de sol, de eleição e reunião. Dia totalmente programado e, ao mesmo tempo, nada fixo. Começando na madrugada, em três, e acabando no final do dia, em muitos.

Recebi um convite para um dia em família, incluindo os amigos, pois foi-me dito que o objetivo maior era sorrir e trazer calma, tanto para os nossos, como aos outros corações presentes. E digo presentes além do tempo, pois cada um nos deu algo mais. Adultos e crianças, do seu jeito único, pedindo e doando amor, como todos fazem, mesmo que não percebamos.

Mas a maior dádiva foi termos ganhado um abraço de pai, daqueles bem grandes, que vão além. Presente por toda casa, no prato principal, na fruta escolhida a dedo, no momento certo de sair e dar uma volta. Sempre deixando quem precisava conversar dentro do grupo correto, calma para os agitados, andanças para os mais elétricos e sorriso… muitos sorrisos.

Sorriso de piada, de causo antigo, de gestos engraçados do outro – pegos num piscar de olhos –, comentários daqueles que parecem escritos antes, de tão encaixados no momento. Mas a maior alegria vinha do coração que nos levou até lá.

A filha-mãe abraçando o pai-filho, sorrindo por dentro… a menina-raio de luz retornando ao colo do pai-estrela… a mulher feita recebendo colo do melhor amigo que poderia ter. Tudo isso de um modo que um texto inteiro não condiz, mas uma frase descreve melhor do que mil palavras.

Domingo foi dia do Sol.

Joakim Antonio

Guardiã – Por Joakim Antonio

Neste fim de semana, vivenciei dias de trilhas, descobertas e presentes, sendo que a última experiência foi uma pequena iluminação de ideias, que trouxe paz ao coração de todos os envolvidos.

Ao entrarmos na mata, já sabíamos qual era a trilha e o local mais propício, mas fomos sendo atraídos para outro caminho – sempre aberto aos olhos em conjunto –, como que guiados ao nosso destino. Até encontrarmos uma árvore ainda desconhecida para nós, imponente e altiva, com uma energia que só conseguimos descrever como maternal. Uma grande mãe no topo da floresta, oferecendo guarida aos filhos, que em agradecimento também a protegiam. Fato impossível de não ser notado, pela quantidade de moradores da floresta que apareceram, fazendo com que também agradecêssemos.

Foi um momento surreal, pois alguém teve a ideia de abraçar a árvore para agradecer. Uma energia de paz percorreu a todos e, de olhos fechados, podíamos ouvir cada habitante da floresta a nos envolver, como em uma dança ancestral… o crepitar das folhas sendo pisadas nos deixava perceber o quanto seus outros filhos estavam perto e nos rodeando, numa enorme ciranda em volta da grande mãe.

Ao abrir os olhos, cada um contou suas percepções, mas a mais intrigante que notamos foi que a árvore formava um imensa estrela, espalhando-se pela floresta, abraçando e protegendo tudo ao seu redor. Todos se olharam e foram impelidos a dar um grande abraço, cada um sentindo-se também, naquele momento, uma grande mãe.

Recolhemos nossa coisas, agradecemos a guarida e o presente, pois voltamos pessoas diferentes, já que agora tínhamos mais uma mãe… e um local para chamar de casa.

Joakim Antonio