Orgias Literárias – Por Lunna Guedes

“O Erotismo é uma das bases do
conhecimento de nós próprios,
tão indispensável como a poesia.”

                                                                               (Anais Nin)

Pensar o erótico enquanto palavra e não movimento… não é uma tarefa fácil, ainda mais vivendo em tempos em que as palavras dizem seus “cinquenta tons de cinza”…

Somos uma geração de escritores tentando se encontrar dentro do malfadado pecado… não estamos mais enraizados nas tramas cristãs, mas permanecemos longe de nos ver libertos das artimanhas religiosas, que impregnam boa parte da sociedade… talvez, por isso, não saibamos ainda o nosso lugar no paraíso.

Pairam sobre nossas cabeças certas maldições: Adão, Eva e Lilith… figuras responsáveis pelo pecado que carregamos na pele, na mente e também na alma. Somos comumente amarrados por filosofias pensadas para nos lembrar que houve um homem que se deixou dominar por um sentimento — fraco e frágil — e, por isso, foi condenado a viver longe do paraíso.

A maioria de nós já ouviu dúzias de versões dessa mesma história, cujo objetivo é nos lembrar do perigo do amor, do prazer e fundamentalmente: do sexo! Ceder à tentação da matéria subjugada aos preceitos da unidade que, somada a outra, conjuga-se feito verbo: a satisfação. Pecado. Pecado. Pecado… gritam os moralistas, aos quatro cantos do mundo, condenando às labaredas da purificação todo aquele que ousa confessar em voz alta seus desejos e vontades…

Para os homens, justificou-se, durante os anos, o prazer pela qualidade da matéria… afinal, ao homem não é permitido o verbo sentir. Uma figura selvagem se orienta através — unicamente — da força.  Era preciso preservar a qualquer custo a sua condição altiva. Ser onipresente e onisciente da sociedade patriarcal. Provedor. Forte… o que sai de casa, deixando em casa a mulher, que é a figura menor, responsável pela prole e pelos cuidados para com o lar — palavra dócil, mínima — e, logo, colocada como figura tímida, humilde, passiva… que se submete ao seu senhor e suas vontades.

À mulher do lar não é permitido ter vontades ou desejos — as  fantasias, contudo, vivem do lado de dentro da pele — sendo submetidas à força do credo. A confissão sempre foi o elo entre realidade e imaginação. Reza-se. Engole-se a maçã e, cospe-se o caroço…

A literatura, no entanto, sempre contestou tal realidade, apresentando-nos formas diferentes de conduta. As mulheres, sempre belas e sedutoras… com talento de sobra para fazer o homem ceder à tentação. Cair em pecado.

Na literatura, a mulher veste-se em soluços e foge… e o homem despe-se em tosse e fica. Nelson Rodrigues alinhavou o amor ao sexo, como se a salvação da espécie dependesse de saber pecar e se confessar. Matéria e alma numa mesma bandeja.

Mas, assim como a vida, a literatura é movimento e, o que ontem era cuidado… hoje é porta aberta, escancarada — descaso — já não se dá o devido trato às frases e, como tudo se diz, não há mais necessidade de conduzir os olhos do leitor por um fino lençol branco de seda… para alimentar a alma com o fruto proibido.

Perderam-se as vergonhas todas e já se pode falar do gozo, determinando cores e aromas como se a palavra fosse o próprio gesto consumado em si, sendo incapaz de macular o leitor moderno, acostumado à realidade do sexo…

Na literatura erótica antiga se preservavam as aparências e, salvava-se a matéria… em outras palavras, o erotismo da literatura moderna nasce livre de amarras e proibições,  sendo natural falar do universo que antes era restrito a quatro paredes, como se fosse um segredo intransponível. Já não é preciso ter artimanhas para narrar o proibido, tudo pode ser escancarado…

E a liberdade, que antes era mínima, agora é plena e sem restrições… trata-se de temas vários, mostrando ao leitor que sua imaginação é um eco do escritor, que se senta diante da tela para falar da pele, da carne… e de seus rompantes mais comuns.

A dita liberdade dos modernos é provar que temos  direito, muito além do desejo, ao prazer… ao sexo, que se tornou um bendito fruto, não mais proibido… e dizem, em suas  linhas, que nada mais causa escândalo ou sobressalto, tudo é comum, normal e natural… e se lê a “literatura erótica” em todo canto e lugar. À luz do dia, às claras… não mais no quarto escuro, junto à luz opaca do abajur.

Deveria ser satisfatório da minha parte afirmar que, pela primeira vez, o sexo tornou-se matéria de poesia, sem que haja necessidade de recorrer às escoras dos símbolos e aos disfarces da metáfora. Depois de muitos e muitos séculos, podemos hoje representar o sexo de modo direto, explícito,  realístico e poético, em uma obra literária… mas, estranhamente, o efeito é contrário: vejo um lamento emergir das minhas masmorras e pedindo um pouco de quietude. Suplicando  desesperadamente um punhado de metáforas para dizer o silêncio que parece faltar dentro dessas quatro paredes literárias.

Lunna Guedes

* matéria escrita e publicada na edição Erótica Plural, lançada no dia 13 de dezembro de 2014, em São Paulo.

Você trabalha ou apenas escreve? – Por Lunna Guedes

“Eu acho que fiz muito bem, considerando que eu comecei com o nada e mais um monte de papel em branco.”

[ Steve Martin ]

Comumente eu ouço escritores reclamarem da difícil realidade em que vivem…  alguns cantam em voz alta que não se dedicam com mais afinco à escrita porque, infelizmente, precisam pagar suas contas e, para isso, necessitam ter um trabalho “de verdade”… Afinal, o escritor apenas escreve e o efeito desse “trabalho” nem sempre resulta em moedas no bolso!

Contudo, já existem, no cenário atual, inúmeros escritores que conseguem se manter única e exclusivamente, em tempo integral, de sua arte… algo impensável até pouco tempo!

A indústria do cinema em Hollywood modificou essa realidade de maneira definitiva, ao pagar somas impensáveis para transformar páginas em sucessos de bilheterias. Eu poderia citar uma dúzia de filmes que, nos últimos anos, foram adaptados por importantes diretores para as grandes telas. Em maioria, livros que, primeiro, encantaram seus leitores, tornando-se best-sellers nas prateleiras das livrarias, para só depois ocuparem espaço nas salas de cinema do mundo inteiro… se agrada, se convence, é outra história! 

Mas essa “novidade” é recente, e não é para todos… muitos escritores ainda precisam se dividir entre realidade e ficção para sobreviver, enquanto esperam por um lugar ao sol!  

Eu gosto de pensar, no entanto, que o ato de escrever necessita ser alimentado constantemente e, sendo assim, um trabalho alheio à palavra escrita pode se considerar uma experiência valiosa na construção desse universo tão particular do autor…

Melville, por exemplo, autor do consagrado “Moby Dick”, talvez não tivesse escrito esse livro, se não tivesse trabalhado a bordo de uma baleeira. E Kafka, que atuou numa companhia de seguros – lugar imerso em tédio e frustrações –, poderia não ter encontrado os sentimentos tão necessários para a sua escrita, caso se dedicasse apenas a sua arte. E Keroauc, ao lavar pratos, pode ter encontrado ali toda a inspiração necessária para escrever “On the road”.

Eu trilhei diversos caminhos antes de me decidir pela escrita. Ocupei uma sala numa rua pouco movimentada, com uma porta escura de duas faces, onde recebia meus pacientes… e, pouco depois – ao abandonar essa profissão primeira –, fiz várias coisas distintas. Experiências enriquecedoras que certamente contribuíram para com essa minha realidade inventada.

Se para muitos autores – ter um trabalho alheio à realidade da palavra – é um obstáculo intransponível… para mim é apenas uma espécie de motor para a criatividade.

Lunna Guedes

Os muitos símbolos da escrita… – Por Lunna Guedes

Tenho alguma dificuldade – quem convive comigo sabe… – em compreender certas palavras e, também, seus significados. Por isso, sempre acho graça quando as pessoas citam a ausência de “sotaque” em minha fala…

O problema começa a existir quando alguém faz uso de regionalismos, tais como a expressão: “rainha da cocada preta”. O único desenho que se forma em minha mente acerca dessa insólita combinação é o de uma mesa cheia de doces feitos com açúcar e côco e, ao lado, a Rainha Elizabeth com coroa e cetro.

Confesso que, mesmo depois da explicação a mim oferecida, a figura não se desfez… e eu continuei a vislumbrar esse cenário curioso e inusitado. Fico observando horizontes, enquanto em minha face se desenha um belo ponto de interrogação imaginário.

Não é nada fácil, e quem sabe outros idiomas deve compreender a minha dificuldade… mas existem outros dissabores, uma vez que, enquanto “estrangeira”, o  meu idioma raiz – no caso, o italiano – tem grande força em minha mente. Na hora do desespero, sobram palavras conhecidas, enquanto todas as demais simplesmente desaparecem. Eu respiro fundo, permaneço em silêncio, exibo qualquer coisa de sorriso nos lábios e tento – sofregamente – recuperar o fôlego… mas, acima de tudo, as palavras.

Porém, algumas delas me escapam e simplesmente não fazem sentido: cuore, amore, farfalla… são alguns exemplos sem sinônimos em outras línguas. Coração. Heart. Amor. Love. Borboleta. Butterfly… não têm a sonância desejada e tão necessária para dizer o que desejo. São vazias e não interpretam o que tenho dentro de mim.

E isso acontece com muitas outras palavras. A tal da saudade que, segundo dizem, só existe em português, por exemplo… tem outro sabor quando digo em italiano, faz o sentimento parecer mais denso e terrível, como tanto gosto. Saudade é palavra leve para mim. Prefiro a minha: “che nostalgia”, que fala em falta, como quando dizemos, em meio a um suspiro: “mi manca lei”.

Uma das palavas que mais me incomoda é: “querida”… sempre me lembro de uma canção do Jobim, que dizia: “Longa é a tarde, longa é a vida / De tristes flores, longa ferida / Longa é a dor do trovador, querida”… mas isso não me impede de sentir-me desconfortável quando a ouço, ainda mais se for numa clara referência a mim. O significado da palavra não faz eco em minha anatomia e, ela parece vir acompanhada de um insuportável peso. Soa como uma faca a cortar enquanto há carne. Mas, dita em francês: “chèrie”, parece um afago feito com o cuidado necessário.

Palavras, para mim, são desenhos de imagens… acontecem primeiro aqui dentro, como uma fotografia sob o móvel da sala, levando-me ao encontro de coisas que me foram gratas – gentis ou não –, são símbolos antigos, referências a minha infância… Por isso, é preciso fazer sorrir, chorar, suspirar. É preciso ter aroma, tal qual uma xícara de café ristretto!

Lunna Guedes

Um olhar sobre o "modernismo paulista"… – Por Lunna Guedes

A edição de 31 de janeiro do “Jornal do Commercio” trazia em suas páginas o anúncio do Festival de Arte Moderna… que pretendia – diziam seus artistas – ser um divisor de águas na vida cultural da cidade. A ideia – pretensiosa – era fazer história e celebrar um novo momento na arte brasileira que, na ocasião, não tinha destaque algum no mundo literário.

O anúncio, no entanto, acontecia – espremido – entre curiosidades: um artigo comparava o tremor de terra ocorrido na cidade de São Paulo, nos primeiros dias do ano de 1922, às crises histéricas de esposas que sofriam dos nervos… ou seja, mal havia começado o ano e a cidade já estava sendo sacudida, numa espécie de presságio… pouco depois, outro artigo anunciava o desconforto e o pânico sentido pelos habitantes “da pacata São Paulo”, causado pela fuga de presos da cadeia pública, que se aproveitaram do descuido do sentinela para escapar pelos fundos, misturando-se aos operários que trabalhavam no local.

“Já um autor escreveu, como conclusão condenatória, que
‘a estética do Modernismo ficou indefinível’… Pois essa é a
melhor razão-de-ser do Modernismo!”

– Mário de Andrade –

Acreditava-se que a São Paulo dos anos 20 era a única cidade a ter condições para abrigar um evento como a Semana de Arte Moderna.

Depois de ser considerada imprópria pelos colonizadores, por não oferecer a eles o que extrair… foi abandonada e esquecida, até ser ocupada pelos Jesuítas, que encontraram, no então chamado Planalto de Piratininga, uma realidade agradável, que em muito se assemelhava à realidade com a qual estavam acostumados.

São Paulo, naqueles dias, era um lugar entre rios – com clima ameno, agradável e, habitada apenas por índios –, que recebeu o grupo de padres europeus de braços abertos, indicando, inclusive, o lugar onde construir o templo do Deus que eles traziam no peito… com seus símbolos de ouro e na alma… suas frases a dizerem um idioma desconhecido pelos homens nus e, estranhamente, considerados: povo sem cultura!

De simples vila de passagem à cidade, foi um pequeno salto… O famoso triângulo paulista – onde fica o “Pateo do Collegio” – foi o marco inicial da cidade… quem olha as fotos mais antigas talvez se espante com esse monstro de concreto, que escondeu seus rios dentro da terra e se multiplicou em contingente, dentro de pouco mais de cem anos… Talvez o tempo não lhe faça justiça, afinal, São Paulo, enquanto história, acusa seus quase quinhentos anos… contados a partir do momento em que os bandeirantes rasgaram seu solo, embrenhando-se mata adentro… inventando um mapa – que hoje serve de traçado definitivo – para esta que é uma das maiores cidades do mundo. São Paulo aconteceu graças à ação de estrangeiros, tentando fazer, desse cenário selvagem, uma cidade.

Por tudo isso, São Paulo mostrava-se própria ao descontentamento, à aventura… mas, o que os jovens artistas que, naqueles dias, retornavam da Europa – aonde foram enviados para estudar e devorar o que era cultura alheia –  não sabiam, tampouco desconfiavam… era que, embora fosse considerada “a cidade do futuro” por muitos, São Paulo abrigava em suas veias uma população conservadora e rude, pouco disposta ao que era novo… e, mesmo tendo seu destino alterado pelo dinheiro oriundo do “ouro verde”, que apresentou o interior paulista ao Brasil e ao mundo como sendo um “tapete verde” infinito… os que aqui viviam queriam apenas beber do mesmo cálice dos quais bebiam os Europeus.

A arquitetura local repetia os traços parisienses no chamado “centro velho”… o Teatro Municipal – assim como muitos outros prédios – foi erguido às margens do Vale do Anhangabaú – onde uma imponente estrutura ligava um lado da cidade ao outro – apenas para agradar aos Barões do Café… que erguiam suas luxuosas mansões no mais suntuoso endereço da futura capital financeira do país – o chamado “coração brasileiro” – a pulsar Paulista… sua Avenida em linha reta era uma espécie de traço desenhado por um uruguaio, que ousou dizer: “essa via irá lhe conduzir ao seu futuro”. São Paulo acontecia naqueles tempos como sendo uma espécie de Paris menor, menos imponente.

A cidade paulista que, por muito tempo, foi São Paulo de Piratininga, recebia pessoas com ideais distantes… Nada se conjugava no tempo presente: sonhava-se com o dia seguinte. O passo além do tempo. O sonho de permanecer enquanto história… aqui tudo era possibilidade, promessa! Assim pensavam também os modernistas, que se reuniam na casa de seus amigos-patrocinadores-incentivadores…

Eles acreditavam na terra brasilis… ouviam os ecos deixados pela voz silenciada do colonizador. “É preciso investir na história da terra…”, repetiam, eufóricos. “Este país precisa ter identidade própria…”, aclamavam, entusiasmados!

Escreveu o poeta Gonçalves Dias: “minha terra tem palmeiras onde canta o sabiá” – verso esse que seria reescrito por Oswald de Andrade, o mais entusiasta dos modernistas: “minha terra tem palmares | Onde gorjeia o mar | Os passarinhos daqui | Não cantam como os de lá”… era o seu grito de independência que, em comum com o proferido por Dom Pedro II, às margens do Ipiranga, tinha apenas a vontade de se fazer ouvir.

Mas, o que não sabiam os modernistas… era que a cidade de São Paulo era povoada por uma gente conservadora… e, mesmo sendo transformada por jovens artistas numa espécie de Centro Cultural da época, dando à cidade o conceito que jamais a abandonaria – um lugar fadado ao que é novo, moderno e belo – a arte acadêmica era o que agradava e confortava a quem desfilava passos pelo cenário pré-colônia…

Sua gente não estava pronta para ser afrontada por um homem amarelo pintado na tela… tampouco por versos que não repetiam as falas mais comuns. Nem mesmo seus artistas, como Monteiro Lobato – o mais conservador dentre todos – soube suportar a novidade. Agrediu a modernista Anita Malfatti com suas palavras mais duras e, assim, aconteceu o fracasso.

O discurso – quase sem voz – de Mário de Andrade não alcançou os ouvidos das pessoas, que se espalharam pelo hall do Teatro Municipal… a vaia foi mais forte e, se motivada ou não por Oswald de Andrade, pouco importa.

O fato é que a única cidade capaz de compreender a Semana de Arte Moderna deu as costas ao movimento e, todos os senhores por trás dessa euforia foram punidos com o esquecimento. Ainda que a principal Biblioteca da cidade leve o nome daquele que é considerado o “pai do modernismo brasileiro” – Mário de Andrade –, sua arte foi deixada em segundo plano. Seus versos e sua importante traJetória foram praticamente enterrados por essa gente, que nunca compreendeu o movimento… se Oswald foi perdoado – sendo ovacionado recentemente com uma bélissima e justa exposição no Museu da Língua Portuguesa – o mesmo fato não aconteceu com Mário… que narrou essa cidade em prosa e verso como nenhum outro poeta/autor foi capaz de fazer: “quando eu morrer quero ficar, não contem aos meus inimigos, sepultado em minha cidade. Saudade” …

Mário de Andrade está sepultado no principal cemitério da cidade – Consolação – pouco depois da Biblioteca que leva seu nome… mas sua história é quase uma vírgula nesta cidade. Ele, que ilustrou o homem brasileiro e, atuou como ávido pesquisador da cultura local – a fim de preservá-la – foi também enterrado no coração da metrópole, a quem jurou amar mesmo depois de sua morte…

A cidade de São Paulo foi palco de muitos outros movimentos… mas sua gente se atrapalha em misturas que, de certa maneira, contribuem – estranhamente – para não lhe dar o que tanto queriam os modernistas: identidade!

Lunna Guedes

Meu melhor personagem: esse passado que às vezes acena – Por Lunna Guedes

Estava sentada à mesa de um café… pensava um texto. Reunia um punhado de palavras para compor um artigo, quando fui interpelada por uma figura que me reconheceu não sei bem de onde.

Creio que estudamos juntas, ou algo assim… Ela, do alto de seus quase quarenta anos, disse-me, em estado de espanto: “Lunna??? Não acredito. É você, mesmo?” – quase neguei… alegando erro de reconhecimento, mas inventei um sorriso e pronto… nos abraçamos e ela desandou a falar de si mesma,  numa empolgação pouco comum a mim.

Casada pela segunda vez. Mãe de duas meninas, completamente realizada e feliz. Respirei fundo. Ela continuou seu discurso de coisas perfeitas… narrando de maneira incansável sua vida radiante.

De repente, do nada – indagou-me: “e você, minha amiga?” – a essa altura, minha mente já estava tecendo um homicídio imaginário. Respirei fundo pela segunda vez em menos de dez minutos.

Pensei – …”viajei por aí. estudei bastante… ganhei um cão que recentemente completou dez anos… tenho um namorado que é, sem dúvida alguma, um humano maravilhoso em todos os aspectos… descobri finalmente o meu estilo de escrita… lancei um livro artesanal e tenho mil projetos em andamento…” – mas, obviamente, não disse coisa alguma –, o que serviu para ela começar seu questionamento incisivo: “Não se casou?” Não. “Não tem filhos?” Não. “Ainda trabalha no mesmo lugar“. Não.

Visivelmente desconfortável diante das minhas negativas… ela foi num crescente sem volta. Contudo, lembrou-se de sorrir e dizer: “Mas você ainda é jovem. Só não demore muito, viu? O tempo passa mais rápido para nós, mulheres“…

Cansada, respirei fundo novamente e disparei: “E quem disse a você que pretendo me casar, ter filhos?” Ao que ela prontamente respondeu, num tom falsamente ameno: “Oras, e você não quer ser feliz? É uma consequência natural na vida de uma mulher!“…

Em silêncio, fiquei me questionando sobre a tal felicidade que todos fingem acalentar em seu íntimo. Eu  nem sempre sou feliz e, sinceramente, não quero ser feliz o tempo todo. Quero meu direito à tristeza-melancolia-solidão. Quero o direito as minhas escolhas respeitado e, obviamente, não quero que ninguém venha me incomodar com essas bobagens que regem o mundo alheio.

Consequência natural é eu viver o que eu quero, sendo o que sou, sem que ninguém venha criticar minhas escolhas… ponto final.

No entanto, confesso que o mais esquisito em tudo isso foi ser chamada de “amiga” por uma pessoa da qual nem mesmo o nome consigo me lembrar. Não sei como me reconheceu, mas até agora não reconheço um só filigrama de sua estranha figura…

Lunna Guedes

Os contrários em mim gritam… – Por Lunna Guedes

Há pouco mais de seis meses, estava sentada numa “roda de amigos”, desses que gostam de discutir Dostoiévski e Woolf e outros autores, lidos com a típica euforia das primeiras vezes… De repente, um deles disse, como se fosse um trovão que atravessa o azul: “eu tenho medo de me render ao argumento atual: já fizeram absolutamente tudo que tinha para ser feito”.

Ficamos em silêncio, rendidos e incomodados… remoemos nossos pesadelos – respiramos fundo – e, com feições de desconforto, nos olhamos nos olhos e mudamos de assunto… alguém citou um artigo publicado em uma revista francesa e fomos nessa direção. Mas o tema – indigesto – não me abandonou, grudou em meus passos e foi comigo para casa.

Durante a caminhada, lembrei-me imediatamente dos livros que chegaram aos meus olhos nos últimos anos… poucos foram os nomes a me convidarem para ficar, mas eles existiram, e isso já me permite qualquer coisa de alívio… afinal, ainda não li tudo que existe no mundo para ser lido e, sei que é algo que não irá acontecer, pois não há tempo o bastante.

Pensei nos filmes – no minuto seguinte –, abandonando o desconforto de saber páginas que não terei diante dos olhos e veio a certeza: há meses não vou ao cinema, porque as histórias que chegam às telas não me atraem… já não exibem roteiros brilhantes como antes. As histórias não seduzem, não nos conquistam, nem nos envolvem… perdemos alguns gênios, mas os que ainda existem por aí parecem cansados. Andam investindo em cenários de guerra, tragédias ou preferindo os efeitos às histórias…

O mesmo caso, infelizmente, acontece na televisão que, nos últimos tempos, numa vã-tentativa de sobrevivência, repete velhas fórmulas, gastas… releituras são feitas. O mesmo tema como nomes novos. É como se dissessem: “tudo que tinha para ser feito já foi feito”.

De tempos em tempos, no entanto, surge alguém com o olhar refinado, agudo… e o medo desaparece. Ainda há o que fazer. Obviamente já existe muita coisa pronta, acabada… mas é preciso dizer que não vivemos o nosso melhor momento. Tantas informações junto aos olhos ferem a mente, nem mesmo a morte consegue mais ser discreta como antes. Morre-se num segundo e nem se pode mais sofrer a perda, é preciso dizer-se o sentir ao outro, que quer explicações para os conflitos de uma vida inteira…

Há, por aí, um sem-fim de pessoas que tudo sabe e entende. São indivíduos sem voz ou rosto que, por isso mesmo, sentem-se confortáveis, como se não precisassem mais se desafiar para levantar a mão, estando em sala de aula, com os colegas dispostos a praticar o ato, ao qual a minha geração sobreviveu e, a atual parece frágil e propensa a sucumbir: o intitulado ‘bullying’.

Eu não acho que estamos menos criativos… cheguei a essa conclusão depois de meditar sobre palavras tantas que surgem diante da tela a todo e qualquer momento, mas estamos menos seletivos, aceitando toda e qualquer coisa que nos chega. Já fomos mais exigentes… hoje nos alegramos em saber que temos mais de dois mil amigos no Facebook… e gostamos de exibir figurinhas imprecisas como resposta ou o ‘curtir’ com o desenho do polegar levantado para cima – César que nos perdoe – como se tudo que nos chega fosse um táxi a nos levar pelos endereços conhecidos da cidade…

Definitivamente, ainda existe muita coisa a ser feita, mas ficará para os que sobreviverem, porque essa geração anda ocupada demais com tolices e, por ser assim, tornam-se pessoas incapazes de articular ideias, quiçá um pensamento. Quando abrem a boca para cuspir suas “verdades”, o que aparece é tão assustador que, aqui dentro de mim, grita este eco silencioso: “quando foi que nos tornamos tão pequenos?”…

Lunna Guedes

"O melhor curso de escrita criativa é a vida"… – Por Lunna Guedes

Outro dia, ouvi um desses diálogos de café, que chegam a mim pela metade. Dois autores conversavam. Um deles contou que apanhava das conhecidas técnicas de escrita, e que precisava de ajuda. Disse estar disposto a participar de cursos oferecidos na cidade: “são muitos”, afirmou. Mas, claramente, estava em dúvida sobre qual escolher.

O outro, mais velho, atento que estava, sem dizer palavra, tirou de sua bolsa de couro um livro. Eu me estiquei para ver do que se tratava, mas o título não chegou aos meus olhos, apenas o nome do autor – e, qual foi a minha surpresa: “Mia Couto”.

“A melhor técnica consiste em saber primeiro o que os outros escrevem e, depois, escrever sem se ocupar de bobagens…”  – afirmou, de maneira lúcida e calma – “apenas escreva, até esvaziar-se, esgotando-se em palavras. Escreva até sentir que morreu.” – disse o estranho, que conquistou toda a minha admiração naquele segundo… com voz amena, tranquila, agradável e uma fala em pausas espaçadas.

O autor mais jovem, no entanto, insistiu: “mas… e os cursos?” – quis saber. Ele – homem mais velho, um escrevinhador, colecionador de palavras – deu um daqueles sorrisos de ocasião, que parece dizer: “você não ouviu nada do que falei?”… e, por fim, como quem viaja para distâncias isoladas, questionou ao ragazzo: “você já vendeu sua alma ao diabo?”…

Lunna Guedes