Janela #20 – Por Poeta da Colina

Certas horas sempre chegam. O tempo nem é um fator. Vivemos sempre sabendo. Já faz algum tempo que teu recorte mudou e a paisagem agora escapa aos meus olhos. Talvez tenha sido o primeiro sinal de que aqui não era mais meu lar. Volto a confessar em teus braços na consciência de que em breve não mais o farei, sabendo quando e como te deixarei. A verdade não lhe é um segredo e, mesmo assim, suas estrelas brilham e o vento me abraça, como se não importasse o sacrifício. Todos precisamos seguir em frente. Quando digo que sempre seremos, não é nenhum clichê. É nosso sangue, nosso coração, nosso amor que cobrirá todas as distâncias. Nosso vínculo é mais que natural, é construído, laço a laço. Nessas noites que fiquei em silêncio e em tantas outras que me desfiz em pedaços, me trouxeste uma paz permanente. Quantas coisas atravessam a alma, não é mesmo? Nestas travessias cresci e encontrei quem vai me levar pelo resto do caminho. Tu fizeste tudo por mim, e farás ainda mais ao me deixar partir. Aprenderei o que só poderei sozinho, sem nunca me abandonar dos teus cuidados. Nossa relação vai evoluir, nem todos podem dizer isso ou chegar até aqui. Na cumplicidade de serem felizes, livres. Minha despedida é cheia de sorrisos, de uma profunda gratidão e da certeza que, quando fechar essa janela… não será o fim.

Danilo Mendonça Martinho

Janela #19 – Por Poeta da Colina

Silenciosamente eu desligava a luz do meu quarto, abria a folha de vidro, subia na cama e me agarrava contra as grades. Na rua um movimento comum. Algumas árvores no meu horizonte e os vizinhos que, confesso, nem me lembro de ter visto uma vez sequer. Ali falava bobagens e sentimentos. Fazia um diário que escrevia no céu. Sentia, como de certa forma ainda sinto, que era minha missão lhe descrever o que se passava dentro de mim. O propósito das coisas que vivia era descrever as experiências. Talvez tenha dúvida sobre nós tanto quanto nós temos em relação aos seus mistérios. Sem falar podemos ser pessoas extremamente imprevisíveis. No fim acho que foi tudo reza. Bem mais do que as ensinadas, bem mais do que os regrados agradecimentos e pedidos. Era desabafo, era sinceridade, era conversa, uma troca, uma busca por paz. É bem verdade que nunca me ocorria um ponto final. Nunca parecíamos chegar em uma conclusão, em um caminho por seguir, ou uma mera certeza. Mas, da mesma forma que achava cumprir uma missão, também acreditava que tinha que ser assim. Fechar a janela com algo que ficava para amanhã. Qual a graça de desvendar todos os segredos em uma única noite?

Nossos encontros são mais raros hoje. Não que me falte uma janela gradeada ou um céu azul. Falta-me o tempo, ou me perco nele, uma das duas coisas. Sempre que lembro, faço questão de voltar, de lhe detalhar o sorriso como lhe detalhava minha dor. Quem sabe te alegre entender melhor o que sinto, saber o que se passa nessa cabeça tão humana, ouvir que alguém não procura Deus, mas sim apenas um amigo para pôr a conversa em dia. A saudade faz parte de tudo.

Danilo Mendonça Martinho

Janela #18 – Por Poeta da Colina

Faz tempo que não encaro os horizontes de meus olhos. Cubro conscientemente minha verdade, negando-me a abandonar a parte mais simples de mim. Quando a vida se torna apenas responsabilidade, percebemos que crescemos sem escolher, sem tempo de dizer adeus. Há um grande medo de não poder mais ser aquilo que deixamos. Eu sei que no fundo é tudo apenas uma transformação, mas me preocupa se preservarei a parte que ainda pode ser livre. Acredito que o receio é se atar por completo aos deveres de um mundo em que sinceramente não escolhemos todas as regras. Crescer é admitir que seguiremos algumas delas. É entender que o sonho vai ter que abrir espaço na realidade, que a brincadeira sempre vai ficar para depois. Também é verdade que nossa felicidade plena só está em frente e será inevitável o próximo passo. Ficamos nesse espaço paradoxal várias vezes, aguardando a coragem ou, talvez, simplesmente a consciência de que já não existe linha dividindo o passado do futuro, já somos o amanhã e evitar é apenas não viver. Mudar… repito aos meus olhos, e começo a enxergar mais idade no meu rosto, e que o jovem, que também já foi criança, estará por trás do sorriso, por trás dos afazeres do dia, por trás do homem que me torno. A nossa simplicidade sustenta tudo que construímos. Guardarei comigo, e talvez o grande segredo seja, em algum momento, entre tantos dias, reservar um minuto que seja para ser simples, ser banal, ser leviano, ser. Só que há muito mais dentro desse espelho. Nada é absoluto. Pois, se crescer é assumir responsabilidades e regras, evoluir é encontrar a liberdade dentro e além delas.

Danilo Mendonça Martinho

Janela #17 – Por Poeta da Colina

A organizadora deste espaço, em seus detalhes, lembrou-me da penumbra da manhã. Quando levantamos antes mesmo do silêncio e assistimos de camarote o dia nascer. Como sou apaixonado por este momento. No começo, os passos na madrugada são apenas guiados pela memória, a consciência vai se acostumando à ideia de que já é outro dia. A porta dos outros quartos estão fechadas e seu caminhar parece ecoar como um barulho de um trem no corredor. A água ferve, o pão já está na mesa e, aos poucos, realidade e sonho vão se separando nos pensamentos. Então, vem aquele sublime instante em que, com um resto de chá na xícara, fico diante da janela da sala, e a manhã vai mudando lentamente sua cor. Nossa alma vai sentindo a esperança, nosso sorriso vai nascendo com o horizonte, os pássaros cantam e as folhas se remexem. As portas vão rangendo conforme se abrem, o silêncio já não é tão vazio. A cada gole de chá, eu sinto a vida entrar e o coração, então, amanhece. Nesse breve segundo, um sentimento de plenitude me toma, como se soubesse perfeitamente o que sou, o que quero e para onde ir. As manhãs despertam o melhor de nós.

Danilo Mendonça Martinho

Janela #16 – Por Poeta da Colina

Estou à beira de tudo que já fui. Os anos se passam um pouco debaixo dos nossos narizes. A percepção de tempo é muito diferente dentro da alma, temos que aproveitar quando a realidade a encontra. Daqui é quase a mesma coisa que admirar um horizonte, mas temos a tendência de buscar os nossos erros, nossas tristezas, o que não deu certo em si. Construir-se é um processo cheio de frustrações, em que precisamos exercitar separar o que conquistamos de tudo que precisamos deixar para trás. Há muito que não precisamos ser, pois o mesmo que parece complicar é o que simplifica. Sentir é simples, é inconsciente e natural, a função do racional é simplesmente decidir abraçar o que nossa alma já sabe. Respiro fundo diante minhas memórias, nostálgico, feliz, e me despeço. Serei bem diferente de tudo que já possa ter imaginado. Serei apenas eu, será apenas o meu caminho na vida, distante de todos que me orientaram até aqui. Todas as responsabilidades do meu bem-estar me serão transferidas e, como no dia em que comecei a andar, soltarão minha mão, para me verem sair da porta e crescer pelos meus próprios enganos e sonhos. Minha pausa será longa neste precipício, eu fui um quarto de século deste outro pedaço e terei de aprender ser algo novo. Agora confesso que anseio muito mais do que temo, quero construir este eu independente, esta liberdade esquisita de estar no mundo e ser completo em cada decisão. No parapeito do passado só tenho a certeza de que vou levar tudo comigo, vou precisar de cada lágrima, vou precisar de cada sorriso.

Danilo Mendonça Martinho

Janela #15 – Por Poeta da Colina

Meu amigo, gostaria que não tivesse se fechado, que houvesse em seu rosto essa expressão de raiva com o lugar de onde o mundo de trouxe, sobre muletas, recolhido no canto de um vagão lotado, pronto para reclamar de tudo, sem sinal de esperança. Seu abraço sempre foi sincero, sempre pude contar com sua palavra, com sua ajuda e, mesmo à distância, nunca deixei de enxergar uma pessoa a qual poderia reencontrar, como se jamais tivesse partido. Mas, cá estou, neste meu encontro inesperado com o futuro, e a idade não disfarçou suas feições, ainda extremamente sós. A alma é preciosa, mas não a ponto de guardar apenas para si. Te lembro e te vi entre muitos sorrisos, com companhia e sonhos, o que torna minha visão ainda mais perturbadora… o que foi que o destino te trouxe? O que foi que não estava por perto para te ajudar a superar? Te senti amargo, com o olhar perdido, fixo em um passado que não poderia jamais mudar. Não estava sozinho, outra alma caminhava a mesma trilha, mas não pude dizer se era conveniência ou simplesmente compaixão. Nos meus encontros com o futuro, tendo a fazer o mesmo que faço no passado, evitar o toque, o olhar e a palavra. Distraí-me nas possibilidades e, quando fui ver, já estava de costas, desembarcando em algum outro sentido. Talvez o aviso da porta do trem, talvez um aviso da vida.

Danilo Mendonça Martinho

Janela #14 – Por Poeta da Colina

Pela fresta o vento da madrugada anunciou a virada do tempo
Por baixo das estrelas o silêncio não era o único
Tinha muita gente indo para casa, a multidão que não se mistura
Tem sempre muita gente que nem sabe para onde vai
A rotina empurra a gente barranco abaixo
Quem tem o tempo de querer? Quem tem o tempo de saber?

Pela fresta percebi o quanto de mim era consumido
A garoa que molhava meu braço tirava a poeira
Que estranho se esquecer da própria pele
A companhia é uma camuflagem onde não somos
Meu grito preso apenas ecoaria no espaço
Pessoas não são a medida do vazio
Quem diria uma verdade sobre você?

Pelas frestas me exprimi pelo mundo
Nas chances não calculadas
Nas possibilidades que não pude sonhar
O desconhecido é o único que guarda a felicidade que não está
O caminho me pareceu tão em frente que me perdi
Qual parte de mim que não deveria ter deixado pra trás?
Quem consegue lembrar o sonho que um dia teve?

Pela fresta transbordei o que já não cabia
As diferentes ambições que tenho e não quero escolher
Imaginei até onde pude todos os finais
Na esperança besta de que um sinal decidiria por mim
Passou-se o tempo de pedir por direções
Sei que a decisão me espera no final da poesia
Quem pode colocar todo o futuro na ponta de uma palavra?

Pela fresta da janela fui buscar alívio
E sem querer deixei a vida entrar

Danilo Mendonça Martinho