Partida – Por Inge Lobato

Parto cais, para não deixar vestígios.
Remo velas, para soprar o mar.
Se faz bom tempo, sigo o sabor das marés,
Ancoro em calmaria.
Se há prenúncio de tempestades,
Sou água a lavar o corpo, a salgar os lábios,
Sou corpo de marinheiro velho,
A acompanhar o balanço dos mares.
Nasço onde posso,
Morro onde já é tarde,
Fico até fazer bom tempo,
E parto cais,
Para não deixar vestígios.

 Inge Lobato

A Estrela que não era cadente – Por Cláudia Costa

“A noite acendeu as estrelas
porque tinha medo
da própria escuridão.”

– Mário Quintana –

A memória e o tempo deram-me várias imagens daquela estrela bonita, radiante e sempre altiva… brilhante, como nenhuma outra habitante da constelação de meus olhos. As primeiras fotos da retina mostram-me uma mulher mignon, quase franzina (não fosse aquela personalidade forte, que lhe conferia uma certa imponência), de pele branca, cabelos escuros e escorridos, e olhos de um castanho amendoado, que, ao se deitarem sobre mim, faziam-me vibrar. Por muito tempo, nem desconfiei, mas aquela moça tornar-se-ia meu modelo de beleza e vida, ainda que inconsciente.

Por anos escorridos em ampulhetas imaginárias, segui retratando pessoas com o filme da retina e a máquina da memória e, não raro, dava-lhes proporção de concretude no meu mundo abstrato. Assim sendo, em algumas fotos, minha estrela, sempre que ficava distante, era encoberta pelas nuvens. Em dias bons, as nuvens eram claras e davam asas à imaginação; em outros, o tempo fechava e as nuvens tornavam-se cinzentas, afastando a estrela do meu olhar ansioso.  

Quando ela aparecia por perto, em plena luz do dia, postava-me num canto, aguardando para sentir os ventos… se eram tempestuosos ou apenas brisa amena, disposta a algum tipo de brincadeira ou, quem sabe até, carinhos inesperados. Havia dias em que a estrela brilhava mais forte e parecia que ia explodir num clarão intenso, tal lava de vulcão… eram retratos quentes, os daqueles dias.

Quanto mais o tempo passava, mais a estrela se tornava distante dos meus olhos e as fotos tornaram-se raras, mas sempre muito valorizadas e cheia de contornos, cores e vida. Algumas vezes, tive medo de que a estrela fosse embora do meu olhar de uma vez por todas, mas, felizmente, trata-se de uma estrela sagaz e forte que, mesmo na ausência, faz-se presente.

A minha estrela ainda reluz aos olhos ansiosos por seu abrigo mas, nesse retrato, a estrela é guia, é exemplo e é inalcançável, ainda que, por vezes, pareça próxima…

Quase à distância de um abraço.

Cláudia Costa

Janela #20 – Por Poeta da Colina

Certas horas sempre chegam. O tempo nem é um fator. Vivemos sempre sabendo. Já faz algum tempo que teu recorte mudou e a paisagem agora escapa aos meus olhos. Talvez tenha sido o primeiro sinal de que aqui não era mais meu lar. Volto a confessar em teus braços na consciência de que em breve não mais o farei, sabendo quando e como te deixarei. A verdade não lhe é um segredo e, mesmo assim, suas estrelas brilham e o vento me abraça, como se não importasse o sacrifício. Todos precisamos seguir em frente. Quando digo que sempre seremos, não é nenhum clichê. É nosso sangue, nosso coração, nosso amor que cobrirá todas as distâncias. Nosso vínculo é mais que natural, é construído, laço a laço. Nessas noites que fiquei em silêncio e em tantas outras que me desfiz em pedaços, me trouxeste uma paz permanente. Quantas coisas atravessam a alma, não é mesmo? Nestas travessias cresci e encontrei quem vai me levar pelo resto do caminho. Tu fizeste tudo por mim, e farás ainda mais ao me deixar partir. Aprenderei o que só poderei sozinho, sem nunca me abandonar dos teus cuidados. Nossa relação vai evoluir, nem todos podem dizer isso ou chegar até aqui. Na cumplicidade de serem felizes, livres. Minha despedida é cheia de sorrisos, de uma profunda gratidão e da certeza que, quando fechar essa janela… não será o fim.

Danilo Mendonça Martinho

Pedro – Por Heleny Galati

O planeta Terra existe há quatro bilhões e meio de anos, mas, no entanto, o cérebro começou a se formar há apenas 100 milhões de anos. A natureza levou todo esse tempo para formatar a complexa e maravilhosa interação humana. O primeiro, neurologicamente falando, Homo Sapiens, conhecido como a Eva Mitocondrial – a quem estudos genéticos mostram que todos na Terra são relacionados – viveu há duzentos mil anos. Não sabemos ao certo a razão da evolução de nossos cérebros, fator que nos diferenciou de muitos parentes ancestrais, mas o nosso DNA não nega que, mesmo com todas as conquistas humanas, ainda continuamos a ser uma específica variação de uma espécie de macaco africano que evoluiu no Vale do Rift. Isso somos nós, mesmo com toda nossa grandeza de civilização, mesmo com nossa falsa impressão de superioridade: somos apenas e tão somente seres que evoluíram física e psicologicamente… um acaso da natureza, e não “os escolhidos”.

Curiosamente, esses pensamentos iam por minha cabeça numa noite fria em Londres. Os termômetros marcavam zero graus, eu olhava a lua branca pela janela que, apesar do frio, estava aberta – não consigo mais dormir com a janela fechada, não importa se lá fora está congelando – e o perfume da noite invadia o quarto. Silêncio, o momento era aquele em que o relógio – essa invenção tão nossa – pula de um dia para o próximo. Nesse exato instante, minhas memórias voltaram ao passado, e me lembrei de Pedro. Curiosamente, Pedro passou rapidamente por minha vida, era eu uma criança-adolescente e ele um colega de classe. A primeira imagem que voltou foi de seu sorriso, depois de um momento nosso, em que o encontro em uma ‘vendinha’ perto da escola.

Como tudo em mim, minha primeira ação mental foi compreender o que me fez lembrar de alguém tão do passado. Concluí que fora um artigo que eu lera a respeito de racismo e sobre como as mulheres ‘brancas’ encaram os homens ‘negros’. Pedro era um belo jovem negro.

Pedro entrou em minha vida como tudo, inesperadamente. Ele era extrovertido, simpático, com um sorriso – que eu costumava chamar de sorriso em lá maior – e o dom para e fazer pensar em como se pode conviver com diferenças aparentemente irreconciliáveis. Costumávamos sair da escola e correr para comprar refrigerantes e sucos – nem sempre ele tinha dinheiro, mas ele ia mesmo assim, nos acompanhando, contando estórias, fazendo brincadeiras e sorrindo.

Pedro gostava de arte, musica e história, não apreciava o futebol. Isso fora responsável por algumas das perguntas difíceis que ele enfrentara. Como um jovem negro não joga futebol? Como ele podia apreciar e conhecer tanto da história e de músicas – as clássicas eram suas favoritas – e não andar pela rua,s perdido em ‘peladas’? As perguntas não ofendiam Pedro. Ele encarava as pessoas e respondia: “Eu sou assim.”

Lembro-me de uma discussão entre ele e outro colega de classe sobre suas pretensões universitárias. Ambos ambicionavam a advocacia, e o rapaz não se conformava com a pretensão de Pedro. Pedro sorria e questionava: “Qual a diferença? “. A resposta era sempre a mesma: “Você sabe qual é.”

Num dia de sol, Pedro e eu estávamos sentados na mureta da escola. Eu o observava com curiosidade, afinal, ele parecia tão feliz, tão certo de quem ele era, do que queria e acima de todas as observações sem sentindo que nossos colegas faziam. Eu, ao contrário, me sentia infeliz, inapropriada, embora a mente estivesse repleta de certezas e planos. Peguei em sua mão – ele não a retirou da minha – queria sentir o calor que emanava dele, como se aquele brilho dos brancos dentes e a pele que reluzia – como se fosse um pedaço de madeira precioso –  pudessem me dar algum tipo de força, de resposta. Nosso silêncio era curioso.

Passada meia hora – essa foi minha sensação – não consegui conter minha curiosidade, minha ansiedade por compreender aquele menino-homem. Perguntei a ele a razão de aceitar tantos comentários inoportunos e ofensivos, como se ele fosse inferior de alguma forma aos outros.

“Entenda, pequena escritora…” – eu gostava de escrever e ele lera muitos dos meus textos – “Eu sei o que os assusta, também sei quem eu sou e qual será meu futuro… As vozes que me apontam lugares para estar, coisas a fazer, não me tocam. Não são essas pessoas e suas palavras que farão com que eu me enxergue de forma diferente, seja no espelho, seja no dia a dia.”

Eu sorri, ele continuou: “Essa coisa de cor de pele, de ser negro, branco, amarelo, vermelho e quantas outras cores você quiser usar para classificar uma pessoa, é um subterfúgio, um tipo de defesa dos fracos contra aqueles que são diferentes. A cor da pele é apenas uma delas, talvez por ser fácil de visualizar, pelo contraste ou mesmo pelo fato de que aqui, nestas e em outras terras, pessoas com cor de pele semelhantes foram tratadas como escravas, como objetos. Não sei, essa superioridade que alguns sentem em relação a outros só pode indicar um tipo de incompreensão da evolução humana. Decidi não me importar e continuar a me esforçar para atingir meu objetivo, nunca considerei a cor de minha pele um obstáculo ou um tíquete para facilidades. Sou um ser humano, com origem igual a de todos os humanos na Terra. Assim me vejo, assim sou.”

Como parecia simples para ele. Como deveria ser simples para mim.

Anos mais tarde, descobri que ele se formara advogado pela São Francisco. Estudara muito, esforçara-se dobrado e, no final, seguira para estudos nos Estados Unidos, onde se casou, teve dois filhos e passou a integrar a banca de um prestigiado escritório de advocacia. Tentei contato, ele respondeu, enviando a foto da família. Todos tinham o mesmo sorriso franco, iluminado. Na carta, ele disse que ainda enfrentava comentários de colegas, as pessoas lhe perguntavam sobre futebol e samba. Mesmo vestindo um terno impecável, com toda a postura nobre que ele sempre teve, ainda enxergavam primeiro a cor de sua pele e, agora, somavam a isso sua nacionalidade, pois não viam o quanto ele era semelhante. Semelhança do DNA, da espécie, diferença do indivíduo.

Pedro me perguntou se eu permanecia com aquele ar de dúvida, questionamento e decepção. Sorri quando li essas palavras… Sim, eu continuava a ter dúvidas, a questionar e a me decepcionar com a natureza humana. No entanto, aprendera que o verdadeiro senhor da minha vida sou eu, não há ninguém mais. E que o silêncio, alem de ser meu maior confidente, também era meu maior mestre. Nele aprendera mais sobre quem eu era, mais sobre a humanidade que me cerca e muito sobre DNA, mente e crenças. Aprendera a desmistificar a diferença, encarando-a como saudável expressão da natureza. Entendera que as limitações são sociais e não pessoais, e que talento vem ou se cria.

Enviei a carta com minha foto. Não tinha um filho naquela época, ele veio depois. Pedro respondeu, com um pequeno álbum de fotos da cidade na qual vivia, um pequeno urso onde se lia “I Love NY” e dizendo que eu precisava ter pelo menos um filho. Assim, talvez, aos poucos, a Terra viesse a ser um local que compreendesse as diferenças e não apenas se esforçasse para tolerá-las.

Heleny Galati

Tinha que ser você… – Por Hélia Barbosa

Gosto de olhar para o calendário e ver os dias passando, num ciclo infinito. Porque isso me faz pensar que essa coisa toda de contar os dias é só uma convenção. E que a vida, na verdade, é absolutamente contínua.

Assim, olhando os dias, fico pensando em quanto tempo estamos juntos e em quanta coisa intensa a gente já viveu. Parece clichê, mas eu realmente não consigo me lembrar muito bem de como era tudo antes de você chegar e, de repente, tornar-se parte de mim.

A minha vida não começou a existir apenas quando conheci você. Mas ela passou a fazer muito mais sentido depois que você chegou.

Gosto quando você finge que não está nem aí e, no entanto, fica fazendo sempre tudo para me deixar feliz. Gosto do seu jeito de me puxar pro seu abraço, quando eu resolvo me sentar mais afastada, em frente à televisão. Gosto da sua mão buscando – automaticamente – a minha, quando a gente sai na rua, seja lá pra fazer o que for. Gosto do seu ciúme disfarçado e do seu excesso de proteção escancarado. Gosto da sua mania de nunca sair sem me dar um beijo e sempre me beijar novamente, logo ao chegar.

Gosto de pensar nas coisas que você já fez pra me agradar (como no dia em que rodou pelos bairros em busca do buquê de flores que queria me dar, até encontrá-lo em uma floricultura tão próxima do meu trabalho, que dispensou o entregador e foi levá-lo pessoalmente).

Agora eu entendo porque os meus romances passados, que pareciam ter tudo para dar certo, nunca conseguiram vingar. Eles estavam só me preparando para o melhor, que é você. É porque tinha mesmo que ser com você.

Eu queria poder guardar seus beijos em uma caixa dourada, para poder senti-los toda vez que você tiver que se afastar. Em vez disso, guardo-os na minha boca, no meu corpo, na minha mente. E sinto você aqui comigo, mesmo quando você não está.

“É, só tinha de ser com você
Havia de ser pra você
Senão era mais uma dor
Senão não seria o amor
Aquele que a gente não vê
O amor que chegou para dar
O que ninguém deu pra você”

(Tom Jobim e Elis Regina – Só tinha de ser com você)

Hélia Barbosa

Para não dizer que eu não disse – Por Betina Pilch

Não direi que a falta de palavras doces me amarguram, tampouco que o silêncio me incomoda. Não direi que o vazio me angustia, não direi que estou perdida, nem mesmo que me encontrei. Não quero dizer nada, se não o que não direi.

Não direi que a vida é dura, nem que é fácil. Não direi que sentir demais me sufoca, tampouco que me afogo nos meus transbordamentos de mim. Não direi que não sentir tem sido ruim. Também não direi se entendo o começo, o meio ou o fim.

Não direi que não aguento mais os meus clichês, também não direi que os suporto. Não direi que estou indiferente a tudo, tampouco que me importo. Não quero dizer, dizer não quero, mas é preciso ficar dizendo com ou sem esmero.

Então, direi tudo sobre nada, mas não direi nada sobre tudo. Iluminarei minhas trevas, mas não acenderei uma luz no meio do escuro. Preciso dizer o que não direi, porque até mesmo calada vivo dizendo. E os dizeres que nada dizem acabam dizendo tudo.

Digo, digo, digo e, às vezes, esse amontoado de dizeres nada significam. Então pode ser que algo sem significado acabe significando muito, pelo menos uma vez. Talvez, quem sabe, um dia eu não saiba mais nada. Não que eu saiba algo agora, mas vivo achando que sei. Então, não direi sobre aquilo que tenho certeza. Prefiro apenas dizer sobre o que não quero dizer.

E quero seguir assim, vivendo sem dizer nada, com a brutalidade das coisas não ditas sem ser trancada, apenas trilhando essa estrada com as palavras lapidadas bem guardadas, aqui, dentro de mim.

Betina Pilch

Alinhavando – Por Joakim Antonio

Ela olha para a máquina de costura e deseja novamente usá-la, porém, a força lhe fugiu das mãos. Ainda há grande brilho na alma, mas pouco nos olhos e menos no coração. Mesmo assim, todos os dias, ela faz uma tentativa de voltar a ser quem deixou para trás. A mulher forte que todos esperam sempre encontrar.

Ninguém desconfia, muito menos os netos, que cada história contada traz água ao seu deserto, descendo pelo redemoinho do peito e matando a sede de poder ser. Já foi chamada de princesa, rainha e puta, colocada no colo, acariciada com zelo, mas também levou todas as pancadas, até físicas, que uma vida pode dar.

Mas, quando conta suas histórias, ela é novamente uma hábil costureira, alinhavando seus momentos para, habilmente, costurá-los no final. Deixando à mostra a imagem de uma antiga amazona, daquelas raras, que é forte por saber se reinventar.

Assim o fez e, hoje, seus novos netos – que agora são tantos, que nem pode se lembrar dos nomes – a visitam todos os dias, querendo beber mais das histórias que seu livro traz. Então, ela volta a ser menina arteira, que inventava histórias brincando, parada em frente à antiga máquina de costura em sua casa, imaginando ter força para usá-la.

Ninguém desconfia, mas hoje a menina viveu, por um momento, o maior desejo que já sentira: ter mãos fortes e precisas, para poder começar a alinhavar algo novo e costurar, sem esforço, Nesse momento, seu coração bate forte no peito e seus olhos brilham mais, devido à lágrima que cai.

Uma criança segura sua mão e a traz de volta… Quando olha ao seu redor, tantos netos novos, tantos rostos lhe presenteando sorrisos, que ela para e pensa: “Reinventar-se é uma bênção!”. E, então, começa uma nova história.

Era uma vez, uma menina sabida, que tinha o sonho de costurar a vida…

Joakim Antonio