Quinze Minutos – Por Cláudia Costa

“E como ficou chato ser moderno,
agora serei eterno.”

– Drummond –

Eram cinco horas da tarde em Copacabana, Rio de Janeiro e, sou capaz de jurar: havia muito mais água transtornada dentro de mim do que naquele mar que estava à frente. Pra variar, eu andava transbordante, caótica, não cabia mais dentro do meu corpo. Bati nervosamente à porta, ansiosa e culpada por estar atrasada… É meu mundo de Alice: oscilo entre o gato risonho, um tanto louquinho, o chapeleiro que já encontrou sossego na birutice, e o coelho, sempre atrasado! Tratava-se de um encontro importante. Eu diria, à outra pessoa, todas as minhas dores de não caber, confessaria medos arraigados, choraria o mar inteiro e prenderia a respiração para ouvir o martelo do julgamento alheio, a rotular-me lúcida, fraca, perdida ou simplesmente louca (coisa muito comum hoje em dia). Levei quinze minutos contados no relógio, para metralhar minha juíza com as armas pesadas que vinha usando contra mim. Nem cheguei perto de desfiar meu rosário!

Passei dois dias querendo aquele encontro. Colocando, ali, a esperança de alívio para as tormentas que insistiam em me afogar de dentro pra fora. Lembrei-me de uma conversa antiga com o Paulo (sim, o Coelho), em que ele afirmava que um dos momentos mais prazerosos do humano, o sexo, não durava mais que onze minutos. Lembro que eu ri…do alto dos meus tenros e deliciosos trinta anos, eu ri da afirmação do Paulo… Naqueles tempos, a cama durava hooooras, entre brincadeiras e possíveis selvagerias… Hoje, com exatos quarenta, nada gostosos, entendo o Paulo e dou a mão à palmatória. São pouquíssimos os prazeres que duram mais que os tais onze minutos. É o tempo de esvaziar a primeira garrafa de vinho, numa boa conversa entre amigos falantes. É bem mais do que dura uma gargalhada boa e o sexo…bem, melhor deixar pra lá o comentário. Voltemos aos quinze minutos.

Lembram que bati ansiosamente na porta? Pois bem, fui atendida por uma mulher ruiva e de voz muito calma. Falando baixo e pausadamente, ela me deu os recados sérios: – Ali, não eram tolerados atrasos –  Após onze minutos (contados no meu relógio), contou que não haveria veredicto no meu julgamento, logo, não existiriam atenuantes para as tormentas tão cedo…não do modo “fácil”. Eu, como boa ré, deveria voltar ao tribunal dentro de alguns dias, para novo julgamento. Desta vez, sem atrasos – disse-me a voz pausada e vermelha.

Andei pensando sobre loucura… – desculpem-me, mas não tenho pudores em escrever ou falar sobre algo tão corriqueiro atualmente – essa loucura de olhos vazios, da falta de sonhos realizáveis, das telas de jogos violentos, da falta de palavras… A loucura real que invadiu os dias reais. Não penso na loucura factível de quem ousa fazer o diferente, pois isso ainda parece sanidade, independente de ganhos ou perdas materiais. Penso e confesso: tenho medo da loucura vazia… silenciosa… perdida em alguma esquina que coleciona almas.

Retorno ao primeiro dia de julgamento que deu em nada. Pergunto-me se quem lê deve me achar confusa, desastrada em meio aos pensamentos e já corro, querendo me defender (nem sei ao certo do quê)… Foram quinze minutos depois de dias de tensão à flor da pele, nos quais as angústias me tiravam do sono, e os sonhos eram de correria, tumulto e confusão. O inconsciente entrou na festa da tormenta e estava se divertindo. O Gessinger (sim, o Humberto), me contou que a atualidade anda correndo e que já não damos mais do que “seis segundos de atenção” para nossos interlocutores ou para nossas próprias histórias. É, meu caro Gessinger, hoje em dia o Papa voltou a ser Pop, a histeria anda à solta, as ruivas falam com pausas, as loiras gritam, morenas se armam até os dentes e o Pop… ah, esse continua sem poupar ninguém.

Enquanto eu, caro amigo que me lê, ainda mantenho acesos os sonhos, mesmo no olho do caos. Acreditei, por exemplo, que teria meu placebo em quinze minutos ou que você teria a paciência que me falta e chegaria até aqui…o fim da narrativa que não cabe no corpo, no copo e que, depois de dois dias, trocou a tormenta pela jangada no oceano. Estou à deriva, mas os projetos são tangíveis, estão sendo calmamente materializados, devidamente ponderados. Será essa razão, calma e segura, o placebo do mundo. Enquanto a alma não chega.

Obrigada pela companhia e pelos quinze segundos de atenção, se você chegou até aqui. Abra a alma, solte o verbo, enlouqueça enquanto pode e permita-se… enquanto sua alma cabe.

Cláudia Costa

O aroma necessário das palavras… – Por Tatiana Kielberman

“Tentei tocar.
E com as pontas dos dedos
não sei se toquei
ou afastei.”

[Zidna Nunes]

O cair da noite se faz brando e, como num gesto de concessão, permito-me repousar suavemente a cabeça sobre o travesseiro macio – que me espera a cada céu escuro envolto em nuances de ansiedade. Sinto a memória perpassar com detalhes cada momento daquele sábado que parecia longo e infindável, junto a um suspiro profundo de “missão cumprida”…

Game over.

O cansaço dos pés também repercute em pensamento, na possibilidade de adentrar certas lacunas antes que o sono se mostre mais forte – invencível à fadiga das horas…É um dos raros instantes em que, finalmente, eu me tenho quase inteira dentro de mim – e noto o quanto venho sentindo necessidade de dividir minha história com alguém.

O íntimo demanda espaço para se expressar. Falar. Gritar socorro, em um movimento que possibilite trazer para fora o que insiste em se manter tão escondido. Um discurso que seja diferente da terapia – contexto em que a escuta do outro, de maneira inevitável, já parte de inúmeros pressupostos e intepretações.

Procuro a expressão de palavras que possa ser seguida de um olhar sincero e neutro – ao menos até o dito instante, já que, após se deixar preencher por determinado número de palavras, é inapropriado considerar o ouvinte como um sujeito imparcial. Busco uma perspectiva que não tenha enxergado determinadas facetas minhas em época anterior – e que, justamente por isso, consiga se fazer mais presente no desabafo que minha própria alma.

Preciso… Quero… Clamo por ouvir os barulhos de minha própria voz, para que eu possa, enfim, reconfigurar algumas histórias, sem tanto medo.  Isenta de rótulos ou prisões imaginárias…

E., diante de um lugar alheio a rejeições, sentir que talvez esses personagens e enredos não me pertençam mais. Podem ter feito parte da cena em algum instante do passado, mas ficaram para trás… porque hoje o corpo que me habita se permite ser outro. E a presença de espírito – tão necessária às mutações –, também.

Tatiana Kielberman

Janela #4 – Por Poeta da Colina

Sem luz nem frestas. Os sentimentos têm limites claros, mas raramente vistos. De dentro da alma a perspectiva sempre muda e há muita incompreensão de quem olha de fora. Não existe sentir translúcido. Ninguém pode descrever ou julgar, apenas cercá-lo em alguma referência que faça sentido. Talvez por isso seja tão fácil e às vezes tão errôneo chamar algo de amor. Essa parede vale para os dois lados, quem está por dentro não sabe o que enfrenta e muito menos tem palavras para explicar. O sentimento se constrói de dentro para fora e nem imaginamos o que se perde nesta transformação. Imagine o que acontece cada vez que coloca uma parede entre você e o mundo.

Os olhos podem ser a janela para alma, mas é preciso abri-los. É preciso estar disposto a abrir o coração. Um sentimento que é segredo é uma ilusão. Derrube suas muralhas. Não precisa de pressa, apenas de vontade. Quando sua realidade encontrar com sua verdade, você fará, de tudo, algo possível.

Danilo Mendonça Martinho

Desespero… – Por Bia Tannuri

Estava a ponto de ter um colapso por um mistura de cansaço físico e, principalmente, mental, quando dei de cara com a mais cristalina das verdades: ainda bem que eu posso e aguento todo esse estresse!

Foi um pensamento rápido que me açoitou, como uma faixa em chamas que quisesse me sacudir e fazer com que parasse de me maldizer e visse o positivo da situação.

O pensamento se foi, mas me fez parar e refletir que tudo tem seu porquê, mesmo o pior dos momentos tem o seu lado bom e, por muitas vezes, não é tão ruim quanto tendemos a vê-lo, por estarmos mais voltados a sentirmos pena de nós, ao invés de dar graças por ter forças de estar ali, enfrentando e sobrevivendo aos percalços apresentados.

Desespero se alimenta da nuvem inebriante, que ele mesmo forma, que vai cegando os olhos da alma do ser que o vive e que, sem forças, vai lhe dando asas para crescer e, com ele, arrastar o equilíbrio para o abismo da falta de solução.

Tudo tem duas maneiras de ser visto e vivido e sentido, e tudo o mais que se apresente, até o desespero…

Bia Tannuri

Um dia – Por Tatiana Melgaço

Um dia, você percebe que amadureceu de verdade, quando olha com os olhos da alma para algo que sempre te fez chorar, percebendo o quanto foi imatura, e pede perdão a Deus por todas as vezes em que maldisse uma coisa que hoje não só admira, como também se orgulha.

Um dia, você pisca mais forte e vê que a vida está te dando uma nova chance e fica feliz por estar tão consciente do seu novo despertar.

Um dia, você descobre que cresceu como pessoa, está livre das mágoas, perdoou a si, aos demais e está pronta… para ser verdadeiramente feliz!!

Tatiana Melgaço

Horizonte #12 – Por Poeta da Colina

O menino provavelmente muito mais novo do que eu. Enxerga a vida cabisbaixo, sem interesse, sem ambições, em uma mistura complexa de inocência e realidade. Permanecia parado, encolhido, triste, certamente calejado. Não é a primeira vez que o encontro recostado contra a parede esperando, nesse caso não o trem, mas o ônibus, mas é outro que também já vem. Talvez seja demais presumir algo de sua índole, da sua rotina, do seu interior. Mas há algo no olhar dele inegável: a vida não tem sido fácil. Talvez não saiba ler, talvez passe fome, talvez seja explorado… não sei. Sei que provavelmente saíra há pouco da escola. E foi o seu olhar que notou minhas roupas, meu casaco.

Não sabia dizer se queria ter, se era apenas um olhar tímido admirado, ou ainda uma ideia de injustiça. Ninguém pode negar esses sentimentos a ele. Ele sente na pele as exclusões sociais. Ele sente na pele a história de sua etnia. Ele sente na pele as consequências da sua condição financeira. No seu rosto um aparente cansaço, desistência talvez. No seu olhar profundo me perderia em angústia. Quase ali mesmo criei uma dor igual para amenizar, mas volta e meia entendemos, ou pelo menos vemos, todo outro lado que existe para que a gente possa existir.

E como estender a mão, acenar um sorriso? Como ser gentil? Como ser solidário ao mal que causou? Esses olhares perdidos só têm a eles mesmos. O que pode salvar é alguém no caminho, alguma história que ouve, qualquer fio de esperança. Se eles conseguirem se agarrar a isso, eles vencem, eles mudam, eles crescem na vida. Mas são brechas tão pequenas que nem todo mundo vê, nem todo mundo alcança, nem todo mundo consegue segurar. E é só isso que ele tem, meia chance, para vontade brotar de dentro, sonhar e buscar e sorrir. A verdade é que não sei os sentimentos que tinha no seu olhar para mim. Mas por um momento empatizei com tudo que sentia na pele e agora rezo para que não sinta a mesma coisa na alma.

Danilo Mendonça Martinho