Aceito – Por Ana Barcellos

Quando eu me achava muito esperta,
muito vivida, muito madura
e muito segura de mim,
Você me aparece com esse mundo novo
Como vindo de um outro planeta
Fazendo minhas certezas caírem por terra
E minhas verdades se dissiparem no ar
Dizendo que agora via o mundo com os meus olhos
E tocava com as minhas mãos
Que nada mais restaria de você
Que deixaria tudo para trás
Bastava eu aceitar.

Respiro fundo,
Penso…

E depois paro de pensar.
Porque o amor não se concretiza se a mente interfere
Cansada da mente sã
[Quase] ansiando pelo risco
Porque mais vale a adrenalina da aventura
Do que o marasmo das certezas.

Então eu aceito.

Que venham as mudanças…
E que se dane o conflito entre o desejo de mudar e a vontade que nada mude.
Porque agora eu já disse sim.

Ana Barcellos

Janela #20 – Por Poeta da Colina

Certas horas sempre chegam. O tempo nem é um fator. Vivemos sempre sabendo. Já faz algum tempo que teu recorte mudou e a paisagem agora escapa aos meus olhos. Talvez tenha sido o primeiro sinal de que aqui não era mais meu lar. Volto a confessar em teus braços na consciência de que em breve não mais o farei, sabendo quando e como te deixarei. A verdade não lhe é um segredo e, mesmo assim, suas estrelas brilham e o vento me abraça, como se não importasse o sacrifício. Todos precisamos seguir em frente. Quando digo que sempre seremos, não é nenhum clichê. É nosso sangue, nosso coração, nosso amor que cobrirá todas as distâncias. Nosso vínculo é mais que natural, é construído, laço a laço. Nessas noites que fiquei em silêncio e em tantas outras que me desfiz em pedaços, me trouxeste uma paz permanente. Quantas coisas atravessam a alma, não é mesmo? Nestas travessias cresci e encontrei quem vai me levar pelo resto do caminho. Tu fizeste tudo por mim, e farás ainda mais ao me deixar partir. Aprenderei o que só poderei sozinho, sem nunca me abandonar dos teus cuidados. Nossa relação vai evoluir, nem todos podem dizer isso ou chegar até aqui. Na cumplicidade de serem felizes, livres. Minha despedida é cheia de sorrisos, de uma profunda gratidão e da certeza que, quando fechar essa janela… não será o fim.

Danilo Mendonça Martinho

Tinha que ser você… – Por Hélia Barbosa

Gosto de olhar para o calendário e ver os dias passando, num ciclo infinito. Porque isso me faz pensar que essa coisa toda de contar os dias é só uma convenção. E que a vida, na verdade, é absolutamente contínua.

Assim, olhando os dias, fico pensando em quanto tempo estamos juntos e em quanta coisa intensa a gente já viveu. Parece clichê, mas eu realmente não consigo me lembrar muito bem de como era tudo antes de você chegar e, de repente, tornar-se parte de mim.

A minha vida não começou a existir apenas quando conheci você. Mas ela passou a fazer muito mais sentido depois que você chegou.

Gosto quando você finge que não está nem aí e, no entanto, fica fazendo sempre tudo para me deixar feliz. Gosto do seu jeito de me puxar pro seu abraço, quando eu resolvo me sentar mais afastada, em frente à televisão. Gosto da sua mão buscando – automaticamente – a minha, quando a gente sai na rua, seja lá pra fazer o que for. Gosto do seu ciúme disfarçado e do seu excesso de proteção escancarado. Gosto da sua mania de nunca sair sem me dar um beijo e sempre me beijar novamente, logo ao chegar.

Gosto de pensar nas coisas que você já fez pra me agradar (como no dia em que rodou pelos bairros em busca do buquê de flores que queria me dar, até encontrá-lo em uma floricultura tão próxima do meu trabalho, que dispensou o entregador e foi levá-lo pessoalmente).

Agora eu entendo porque os meus romances passados, que pareciam ter tudo para dar certo, nunca conseguiram vingar. Eles estavam só me preparando para o melhor, que é você. É porque tinha mesmo que ser com você.

Eu queria poder guardar seus beijos em uma caixa dourada, para poder senti-los toda vez que você tiver que se afastar. Em vez disso, guardo-os na minha boca, no meu corpo, na minha mente. E sinto você aqui comigo, mesmo quando você não está.

“É, só tinha de ser com você
Havia de ser pra você
Senão era mais uma dor
Senão não seria o amor
Aquele que a gente não vê
O amor que chegou para dar
O que ninguém deu pra você”

(Tom Jobim e Elis Regina – Só tinha de ser com você)

Hélia Barbosa

Também pela chuva – Por Daniela Lusa

Hoje eu só queria a simplicidade de um banho de chuva. Queria sentir a chuva tocando meu corpo e levando ao chão tudo o que não é bom em mim. Uma purificação. Queria você aqui, também. Queria que me segurasse a mão e me convidasse para sair por aí, com os pés descalços contando os passos molhados no asfalto morno. Sento na varanda e vejo a chuva que cai sem pressa e devolve vida à grama seca. Imagino nós dois presos a um beijo molhado — também pela chuva, com os corpos unidos pela água fria e a roupa molhada — também pela chuva, mas que continuam quentes. O beijo seria como a chuva que faz reviver, vê que lindo isso? Crio tantas cenas com nós dois. Penso em você segurando a minha mão, enquanto tira as gotas d’água do meu rosto e me diz docemente: “você fica tão bonita com os cabelos molhados”, e eu lhe respondo com um beijo molhado — também pela chuva. Imagino seu toque quente e a chuva fria e isso me faz arrepiar. E nós dois caminhamos e conversamos e trememos e nos abraçamos, tudo sob a chuva fina que agora cai apressadamente. E, depois da chuva, fico querendo te ver tirar a camiseta molhada, envolvendo-me com seus braços e me aquecendo em seu peito nu. Corpos molhados — também pela chuva — mas com sede um do outro.

E eu aqui, sentada na varanda, vendo a chuva cair sem pressa.

A chuva me traz lembranças do que nunca vivi. 

Daniela Lusa

Escrita… e Só – Por Cláudia Costa

Escrevo textos como quem morre

de desalento, amor ou desencanto

Faço do teclado meu sepulcro

onde encerro [e enterro] [des]ilusões.

Sem obrigação de ser correta,

polida ou bela, a poesia escorre

transborda e me afoga,

implorando para existir.

Sem rumo reto ou compromisso,

é o grito urgente do que acredito

e não existe.

Palavras escritas com sonho e sangue

são a transfusão de vida da poeta.

Cláudia Costa

Era uma vez, nós dois… – Por Hélia Barbosa

Ela não se parecia muito com uma princesa clássica dos filmes da Disney. Mas era linda, com aquele seu jeito, tão único, meio “Fiona de ser”!

Ele era lindo, mesmo não se assemelhando tanto aos príncipes encantados dos desenhos.

Mas a encantou!

E o destino, num de seus desatinos, resolver unir os dois, que se completavam em suas imperfeições.

Pouco a pouco, o que parecia, de início, ser assim tão diferente, foi se tornando algo bem singular e especial.

As diferenças atraíam.

As semelhanças cativavam.

E, em meio ao amor pelos cães, ao interesse pelas tatuagens, ao entusiasmo pelos livros e à paixão pelas músicas do Teatro Mágico, os dois foram se embolando, se misturando e transformando aquele encontro em uma história de amor, mais linda do que qualquer outra que já tenha sido contada.

Ela entendia o mau humor e as implicâncias dele. Ele achava lindo o ciúme infundado dela. E a vontade de ficar junto só aumentava, a cada dia.

Ela nunca imaginou que pudesse ser dessa forma. Mas sempre esperou viver um amor assim!

Uns achavam que o romance deles não duraria um mês.

Outros achavam que eles tinham sido feitos um para o outro.

Os dois não achavam nada.

Eles tinham certeza de que seria para sempre.

“Enquanto houver você do outro lado
Aqui do outro eu consigo me orientar
A cena repete, a cena se inverte
Enchendo a minha alma daquilo
Que outrora eu deixei de acreditar
Tua palavra, tua história
Tua verdade fazendo escola
[…]
Só enquanto eu respirar
Vou me lembrar de você…
Só enquanto eu respirar…”

(O Teatro Mágico – O Anjo mais velho)

Hélia Barbosa

Amor incondicional – Por Tuka Borba

Ela ficava na janela, aguardando minha volta para casa. Abria suas asas e me recebia com um abraço que curava tudo. Era como se um escudo me livrasse de qualquer mal.

A comida com um sabor único e a cama pronta.

-de ponta a ponta, o branco da paz-

Ela era capaz de me acalmar no olhar só pra me fazer sorrir. E, se ao dormir, as cobertas caiam, suaves passos se aproximavam da cama até que eu novamente adormecesse.

Das vezes em que eu não acreditei que podia, ela me ensinou a ver que tudo tem seu tempo na vida. E, as lições antes da partida definiram meu caminho. Hoje, eu fecho os olhos com carinho e ela ainda está ali, servindo de espelho e aliviando minhas dores. Segurando minha mão e refletindo meus valores.

Obrigado, Mãe.

Tuka Borba