A felicidade é distraída – Por Daniela Lusa

Dizem que ela anda por aí, dizem que ela mora ao lado. Sempre duvidei. Há que viva com ela, há quem jamais a tenha encontrado. Nunca encontrei, por mais que tenha procurado. Até que eu descobri que há coisas pelas quais não devemos procurar.

Foi em uma destas esquinas da vida que eu esbarrei com ela, por acaso. Era segunda-feira, o típico dia do mau humor. Lembro que estava com pressa, com milhares de coisas na cabeça, pensando em soluções para problemas que eu mesma havia criado. Eu me sentia exausta, nem percebi que seguia por uma rua sem saída. Meus passos apressados e meu olhar meio perdido não me deixaram notar que ela vinha em minha direção. Afinal de contas, como eu poderia esperar avistá-la, se ela sempre havia fugido de mim? Se eu ia pela rua, ela ia pela calçada. Se eu tentava segurar a sua mão, ela escapava e andava mais depressa, não conseguia alcançá-la. A verdade é que eu já tinha desistido dela, até que senti o impacto de nosso encontro. Não pude desviar, foi inevitável. Meu corpo todo estremeceu e eu não soube o que dizer.

Pedi desculpas por ser tão desastrada, ela pediu desculpas por ter me evitado por tanto tempo. Olhei bem dentro dos seus olhos e senti que era sincero o que me dizia. Confesso que eu não soube o que dizer. Eu nunca sei o que dizer. Menti que estava atrasada para um compromisso qualquer, despedi-me e mudei o meu caminho. Senti a pele arrepiar quando ela segurou a minha mão e pediu para me acompanhar. Como negar tão adorável companhia? Confusa e um pouco assustada, concedi com um leve movimento da cabeça. E ela não soltou a minha mão.

Desde aquele instante, a Felicidade tem andado ao meu lado. Dorme na minha cama e almoça comigo todos os dias. Caminhamos de mãos dadas já há algum tempo, e eu não sou capaz de dizer o quanto sou grata à vida pelo nosso esbarro. Mas acontece que, às vezes, ela tropeça em alguma lembrança ruim ou em alguma mágoa qualquer e a gente quase cai. Eu a puxo de volta e sinto a dor que o tropeço nos causa. Custa prestar atenção por onde anda? A Felicidade é distraída. Pior é quando eu não a compreendo e insisto em seguir por caminhos que não nos levam a lugar algum. Ela se chateia comigo e eu a entendo. A verdade é que eu nunca soube andar de mãos dadas. Muito menos com ela.

Hoje eu sei que ela não anda por aí à toa, nem mora ao lado. A felicidade está nos caminhos que percorremos, nos momentos que dividimos, nos sorrisos que provocamos. Só preciso aprender a caminhar de mãos dadas, sem tropeçar.

Daniela Lusa

A vida é uma peça de teatro que ela nunca ensaiou – Por Betina Pilch

Tudo que ela queria era ser misteriosa. Acreditava que seria mais fácil lidar com a vida se ninguém soubesse o que se passava dentro dela. Talvez fosse mais suportável lidar com a sua companhia se ela não ficasse alagando a vida dos outros com aquilo que transbordava do seu interior.

Era difícil não saber esconder os sentimentos e pensamentos que formavam aquela menina, às vezes tão velha, outras vezes tão criança. Talvez ela fosse um livro infantil com páginas amareladas. Ou um livro novo com enredo antigo. Não sabia como se classificar. Ela era diferente, aberta, mas de difícil leitura. E, a cada nova abertura que ela fazia em si mesma, era um novo arrependimento e uma nova murmuração. Acreditava que era sempre melhor ter ficado quieta, mas o silêncio fugia o tempo todo, deixando abertas as portas da emoção.

Com certeza, ela preferia ser um livro em branco àquele cheio de rabiscos confusos, que ninguém conseguia entender. Aqueles rabiscos gritavam, mesmo sem emitir som… e seu barulho a irritava tanto! Mas, não tinha jeito: a sina daquela menina era viver com a vida assim mesmo, entalada na garganta. E, por isso, ela falava tanto… para ter acesso à própria existência.

De fato, ela não era misteriosa… tinha tendência à transparência, bastava olhar para os seus olhos que todos enxergariam seu interior. E era fácil fazer parte da sua vida também, porque ela tinha amor para dar, doar e doer, mesmo que nunca o recebesse de volta. Ela tinha palavras de conforto para todos, ainda que não tivesse alguém para lhe confortar quando ela mesma precisava.

É… Ela realmente gostava de falar. Gostava de fazer os outros perceberem que eles não estavam sozinhos, porque ela se manteria ali para ajudar. Gostava de tentar entender as pessoas e mostrar para elas que as compreendia. Sempre dizia aos que amava o quanto eles eram importantes em sua vida. Sim, ela precisava expressar o que sentia. Era essencial cada demonstração.

Acreditava que a vida era para ser vivida assim: intensamente! Sem jogos, camuflagens, máscaras… feita de extremos. Era intensa até mesmo nas vírgulas, que tentavam pausar seus sentimentos… e, em cada ponto final, ela conseguia enxergar as reticências. Sentimentos não tinham fim. Uma vez sentimento, sempre sentido, mesmo que às vezes sem sentido algum.

Mas, nessa de pensar tanto nos outros e cuidar tanto de todo mundo, ela se esquecia de pensar em si mesma, de cuidar da sua própria história. Cometia negligências consigo, sempre se colocava em segundo plano e não conhecia o egoísmo.

Ao correr atrás da felicidade alheia, deixava de ir atrás de sua própria vida. Nunca protagonizou seus sonhos. Concretizava suas fantasias através do próximo, simplesmente por não saber lidar consigo e, ao parar para ler sua história, percebeu que tinha escrito mais sobre os outros do que sobre si mesma.

Deixava que os demais subissem no palco da sua vida e se tornassem protagonistas, porque ela jamais saberia lidar com os aplausos, muito menos com os vaias da sua peça. Então, tornou-se mera coadjuvante da história que escreveu.

Eternizou sentimentos que nunca serão correspondidos, cuidou de quem nunca cuidará dela, arrancou sorrisos de quem nunca a fará sorrir de volta, chorou por quem nunca notou suas lágrimas. Sofreu por quem nunca conheceu o sofrimento, lutou por quem nunca quis ser conquistado, correu por quem preferiu ficar sempre parado e viveu por quem não sabia o que era viver. Tudo isso porque ela não sabia ser metade. Não sabia ser fração. Não saía dando pedacinhos dos seus sentimentos às pessoas, porque isso a lesionava. E ela compreendia que, após tantos retalhos, não haveria bordados capazes de esconder os remendos feitos nela.

Por isso se dava por inteiro, a ponto de não sobrar nem um pouquinho dela para si mesma. Queria abraçar o mundo e, em meio a esse desejo, esquecia que seus braços eram curtos demais. Mas ela só sabia ser assim e, não importava o que fizesse para tentar mudar, não conseguia. Porque seu jeito de cuidar de si mesma era cuidando daqueles que estavam próximos.

Então, não… ela não era misteriosa, não tinha o melhor papel para atuar na sua própria vida, não era mocinha nem vilã. Era mais espectadora do que atriz, era destrambelhada e complicada, vivia dando com a cara na porta e pulando janelas, mas só fazia pelos outros aquilo que esperava que um dia fizessem por ela.

Betina Pilch

Meu primeiro encontro com o amor – Por Mariana Gouveia

“Eis o que eu aprendi
nesses vales onde se afundam os poentes:
afinal, tudo são luzes
e a gente se acende é nos outros.
A vida é um fogo,
nós somos suas breves incandescências.”

– Mia Couto –

Era a primeira vez que eu saía da fazenda que, para mim, já era gigante, e que ia além dos campos e da cerca de arame farpado, até encontrar a divisa da fazenda vizinha.

Eu havia sido escolhida para ser a representante na festa de Nossa Senhora da Abadia, como candidata à rainha. Era uma festa tradicional, que acontecia todo ano na região onde eu nasci, para ajudar a igreja e, ao mesmo tempo, comemorar a colheita.

Só que tudo acontecia na cidade… e era para onde eu precisava ir. Naquela época, tinha quase 15 anos e havia passado a infância toda ali na fazenda, meu mundo encantado.

Percebi uma aflição no olhar dela que – de pronto – se ofereceu para fazer o vestido. Teria de ser o mais bonito, ela dizia. Passou dias cozendo, bordando, recosturando. Apertando aqui e ali. O tecido, meu pai trouxera da cidade, assim como as pedrarias.

Eu ficava horas sentada aos seus pés, enquanto ela fazia meu vestido de festa. Meus olhos se encantavam quando viam um pouco do bordado pronto, dando vida ao tecido.

O veludo preto e os fios dourados lembravam os cogumelos venenosos e mais lindos que havia no jardim. Aqueles que curavam e matavam também. De onde ela havia tirado um pozinho, quando eu cortei meu pé em uma pedra, e que curou como milagre o machucado. Mas, bastava eu me aproximar dos canteiros, que ela logo ralhava comigo.

– Você gosta de perigo, menina! – ela dizia, entre resmungos.

Percebi que ela não queria que eu fosse. Senti uma tristeza em seu rosto, ao ver meus preparos para a viagem. Sairíamos bem cedinho no dia seguinte. Perguntei se eu ia perder – ela sempre sabia de tudo – e, se fosse esse o motivo de estar triste, não fazia mal, o mais importante era ajudar, como meu pai fazia todo ano.

– Vai ganhar! Mas não vai esquecer o que verá e, aí, vai querer ir embora daqui.

– Não! Eu nunca vou querer ir embora daqui! É meu lugar!

Senti uma pontada de tristeza, mas que, logo, com o vestido pronto e a agitação da viagem, passou. Quando o dia da festa chegou, saímos de madrugada e ela, na porteira, acenou a mão.

Além da cerca de arame farpado, tinha tudo quase igual ao que eu cresci vendo. Fazendas, serras, estradas e arrozais… Mas, na cidade, havia gente, movimentos, carroças, moças lindas, rapazes tímidos. Meu olhar vasculhava cada canto.

E, à noite, quem brilhava não eram as estrelas. Luzes pendiam de postes e, na imensidão da rua, havia um palco para o desfile. Ali, não cheirava a flores do campo.

Não durou muito. Realmente, eu ganhei o título de rainha da região.

O vestido, lindo, fazia com que eu parecesse uma fada… e eu me sentia feliz. As barracas enfeitadas foram apresentadas para mim pela, rainha anterior. Em cada uma delas, um histórico breve da vida de cada fazenda.

Na nossa barraca, meus irmãos trajavam roupas diferentes das usuais e contavam histórias que eu conhecia também. Desejei muito que ela tivesse vindo. Quando eu passei a relatar a história dela, era como se o encanto a tivesse trazido para a festa. Enquanto eu a chamava de fada, as pessoas a conheciam como a parteira… aquela que praticamente era responsável – havia anos – para que cada uma daquelas pessoas, ao menos as mais novas, tivessem vindo ao mundo.

As meninas falavam sem parar… rapazes sorriam atrás… olhares que eu não sabia absorver.

De repente, um olhar no meio do povo me chamou a atenção, e o coração acelerou quando ele se aproximou. Vestido de príncipe e com jeito doce, ele me levou ao centro do palco. Eu tremia e tinha medo de cair. Mas, as mãos fortes me seguraram e parecia que só existia a gente ali.

Foi o meu primeiro encontro com o amor.

Ela tinha razão, sempre… Eu ia querer voltar!

Mariana Gouveia

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Porque é primavera… – Por Hélia Barbosa

Ela abriu a porta, apressada, e entrou rapidamente em casa. Olhou o relógio, eram quinze horas. Sentou-se na poltrona, tirou o celular da bolsa e o colocou ao seu lado. Cruzou as pernas e ficou olhando a tela, aguardando pela ligação dele. Os olhos permaneciam imóveis, mas os pés balançavam em um ritmo frenético, que não escondia sua ansiedade. Às vezes, pegava o celular e, na lista de contatos, ia até a letra L. Olhava o número dele e repetia seu nome: Leonardo… O desejo de ligar para ele era enorme e os dedos tremiam na vontade de concretizar o ato. Mas ele disse que ligaria e ela não tomaria a iniciativa. Não dessa vez.

Ele havia ficado de ligar às quinze e trinta e ela quis aguardar em casa. Um vento fresco afastou as cortinas e a luz do sol entrou na sala, trazendo a luminosidade da tarde primaveril. O mês de setembro aproximava-se do fim e ela lembrou-se de que, dali a três meses, completar-se-iam dez anos desde o dia em que decidira investir tudo em sua relação com Leonardo. Dez anos. De muito amor, de muita paixão, de muito prazer e de momentos intensos. Mas, também, dez anos de abandono, de decepções, de solidão. Sim, Leonardo sabia ser maravilhoso nos momentos de paixão. Mas, em todo esse tempo, ela nem saberia que nome dar ao relacionamento deles. Ele nunca a assumira, de fato.

Ainda assim, ela se dispôs a ficar ali, esperando pela ligação dele. Ela tinha dado um basta, havia quinze dias. Ele ficou, durante todo esse tempo, em silêncio. Não a procurou, nem mesmo para saber como ela estava. Até que, na noite anterior, depois de algumas taças de vinho e consumida pela saudade, ela mandara mensagens, perguntando como ele estava. Depois de algumas mensagens trocadas, ela sentiu a paixão reacender. Teve suas esperanças renovadas, quando ele mandou uma mensagem dizendo que ligaria para ela no dia seguinte. E ali estava ela, aguardando por ele. Como sempre fazia, aliás.

A tarde se despedia, a noite se aproximava e o relógio mostrava dezoito horas. Ela olhava a tela silenciosa do celular e se perguntava em que momento de sua vida havia permitido que o amor por ele destroçasse o seu amor próprio. Como podia um sentimento sublime e nobre, a que chamamos amor, tornar-se tão sombrio, trazer tanto sofrimento e fazer com que ela sentisse que não era digna de receber afeto sincero de alguém? Isso não poderia ser amor. Pelo menos, não era o amor que a embevecia nos versos de seus poetas preferidos. Não era o amor que ela desejava para si.

Ela ainda sentia uma vaga esperança de que ele ligasse e se agarrava a ela como um náufrago, sobre um último destroço a flutuar no mar. Foi essa esperança que fez com que ela ignorasse a chamada do número desconhecido, que começou a piscar na tela do telefone. Não atendeu e teve um pouco de raiva dessa pessoa que insistia em ligar naquele momento. Na terceira ligação, ela atendeu, dizendo um “alô” seco e irritado. A voz do outro lado lhe trouxe uma certa quentura no peito e lhe pareceu familiar: “Olá… Quanto tempo! Que bom ouvir sua voz!”. Ela podia sentir o sorriso dele do outro lado, sua alegria sincera. Ela lembrou-se de uma outra primavera, nove anos atrás, quando ouvira aquela mesma voz dizer que queria deixar tudo para reconstruir a vida ao seu lado e que gostaria que ela também largasse tudo para ficarem juntos. Lembrou-se da decepção estampada no rosto dele quando ela pediu que a esquecesse, pois havia decidido construir sua vida ao lado de Leonardo.

Ela percebeu que um sorriso aparecia em seu rosto, também, quando perguntou: “Você? Depois de tanto tempo… Por que me procurou hoje, agora…?”. Ele contou que havia se mudado, morou em outro estado e que, hoje, ao retornar à cidade, havia sentido uma saudade imensa e uma vontade enorme de falar com ela. Que ela não pedisse explicação, ele não saberia explicar. Mas que nunca a esquecera. Até tentara. Não conseguiu. E que queria muito vê-la agora. Ela perguntou se ele ainda se lembrava do seu endereço e ele disse: “Estou na porta da sua casa…”. Quando ela abriu a porta, ele estava lá, emoldurado pela luz da rua. E tudo ficou tão claro! Ele disse: “Lembra-se daquele barzinho, onde nos falamos pela última vez? Continua o mesmo. Queria conversar com você lá. Porque eu sei que a nossa história não acabou ali, teve apenas um intervalo. Ela continua…”. Ela não teve dúvidas ao dizer aquele “vamos, sim!”. Colocou o celular na mesinha, pegou a bolsa e saiu com ele, fechando a porta atrás de si.

Caminharam por entre alguns pés de ipê, lado a lado, até que ele tocou de leve em seu braço e segurou sua mão, suavemente. Enquanto caminhavam de mãos dadas, ela não podia ver que seu celular começou a tocar, insistentemente, na sala vazia. Mas, sinceramente, isso não fazia mais a menor diferença…

“Você voltou, meu amor
Alegria que me deu
Quando a porta abriu você me olhou
Você sorriu, ah, você se derreteu
E se atirou, me envolveu, nem brincou
Conferiu o que era seu
É verdade eu reconheço
Eu tantas fiz, mas agora tanto faz…”

(Vinicius de Moraes – Samba da Volta)

Hélia Barbosa

Definitivo – Por Heleny Galati

A porta bate. Uma criança chora. Na televisão, uma novela feita para quem permanece boa parte da tarde em casa. O dia está quente, fazendo da preguiça uma companhia constante. As pernas doem, possivelmente devido aos exercícios feitos pela manhã. O corpo jogado no sofá sente que está de volta a sua eterna armadilha: rotina, obrigações, comida como forma de compensação pela falta de perspectivas.

A criança chora. A irritação que o choro provoca é incompreensível. Crianças e suas demandas se transformaram em tormenta, talvez por simbolizarem espécie de algema, quem sabe? Algemas pipocam por toda parte, em todas as formas. A maior prisão é a necessidade básica de sobreviver, sem o conhecido pote de ouro não há vida, mal existe morte.

O sofá sacode com o movimento ansioso. Quanto tempo sem sentir um ser humano pode suportar? Meses? Anos? Seu não sentir se arrasta por três anos, é pura sinfonia do vazio. Isso faz com que o viver não faça sentido, ou melhor, respirar. Viver é algo muito diferente. Poucos são os estímulos que trazem algum pulso, um filme ou um sabor exótico. Eles, no entanto, não garantem a vida.

Não existe desejo maior do que ser livre. A liberdade do não compromisso com nada e ninguém. A solidão que parece servir bem como companheira. Esse é seu único pensamento. Obsessão da manhã até o anoitecer, espécie de rio correndo por dentro. Rio ácido que corrói, corrompe.

O calor aumenta, a vontade de não fazer absolutamente nada segue ganhando terreno. Há meses, anos, essa inércia se faz presente. Essencialmente é um caso desesperador, um cadáver onde pulsa o coração. Cadáver insano, inexplicável, casca vazia. Tudo tão absolutamente lugar comum, tão banal. Seria a vida banal?

Olhos fechados mesmo que possam ver ao longe. Estupidez essa de tentar quebrar o vidro a sua volta. No princípio acreditava que alguém o faria. Compreendera, enfim, que seu libertador nunca viria, ele estava ali, preso na mesma caixa.

Lembra quando uma porta imaginária apareceu e saiu por breve espaço de tempo. Nunca fora tão feliz. Nunca experimentara tanto de si. Por fim, as correntes executaram seu propósito, arrastando o corpo infeliz de volta. Havia a acomodação agora, especialmente por perceber que nada especial surgiria. Nada.

Um pássaro voa de uma árvore para outra. Finalmente a criança se calou. O ventilador se move de uma lado para outro, sem sair do lugar. Movimento conhecido de oscilar e não se mover. Olhar para o azul dói. O sangue corre lento em suas veias, corre lento para fora também. Verão e inverno.

Logo será hora de preparar o jantar. O menino, que se esconde no quarto, vai aparecer, colocar as mãos na cintura e perguntar o que irá comer. Um pouco mais tarde, alguém abrirá a porta de entrada, poucas palavras serão trocadas. Não existe nada mais a ser dito. Hora de dormir.

A cama é um tipo de juiz. Aponta incisivamente cada pedaço da estória que tenta esconder. Lágrimas escorrem e aquela eterna esperança de não acordar no dia seguinte ganha espaço. Seria tão simples. Limpo. Definitivo. Sim, talvez seja esse o termo adequado ali: definitivo.

Heleny Galati

Dança comigo? – Por Heleny Galati

Escadas… qual seria a razão subconsciente que a fazia não gostar de escadas? Sempre pensara que a escada era um tipo de caminho de nenhum lugar para lugar algum. Coisas de sua ‘cabeça’, sua inusitada e peculiar mente.

Num dia de sol, com ventos frios e flores se exibindo, ela caminhava solitária rumo a um jardim. Apreciava a oportunidade que lhe fora dada de usufruir um lugar como aquele. Lagos, cascata, caminhos tortuosos, que passavam por belos jardins e terminavam na margem das águas, onde cisnes e patos decoravam, viviam e davam vida ao local. Era absolutamente maravilhoso se sentar em um banco e nada fazer, apenas observar.

A manhã aprazível, morno casulo para seu corpo, despertava outros pensamentos, antigas lembranças. Na cabeça, um chapéu se equilibrava; nas mãos, os anéis de prata resplandeciam ao sol e os pés se mantinham em calçados confortáveis – os eternos Converse – enquanto um tipo místico de energia ia se acumulando. Ela compreendia bem o que acontecia, aceitava e usava tudo aquilo para escolher seu futuro.

Fechou os olhos com suavidade, apenas os ruídos naturais embalavam os pensamentos. Então, como sempre, ela voltou no tempo.

Um dia de sol como hoje, apenas mais quente, apenas menos carinhoso. Um dia de pedidos. Pedir algo a alguém custava tanto a ela quanto admitir que precisava de ajuda. Crescera sozinha, sem poder gritar suas necessidades infantis, suas confusões adolescentes a ninguém. Esse treinamento fora o combustível para quem chegara a ser agora. O verbo pedir não lhe fazia companhia. Mas, naquele dia, num quente e sufocante começo de setembro, ela quebraria suas regras particulares.

Agora, talvez, depois de repensar e analisar,  ela teria enfim a decência de vencer suas dificuldades psicológicas e pedir o que deveria ter pedido havia tempos.

Ela entra na sala, ele está deitado no sofá. A música eletrônica embriaga a mente dele através dos fones de ouvido. Fones que ela dera a ele. Seu maior desejo é que ele a ouça. Sua expectativa é de que ele compreenda. Seu sonho, que ele aceite.

Como por mágica, ele remove os fones e sorri para ela. Estende a mão, convidando-a a sentar ao seu lado. Ela fica parada, olhando, com a lembrança de seus gestos passados correndo diante de seus olhos, como o rio corre diante da árvore na margem. A coragem, que nunca existira antes, toma forma. Ela se aproxima sorrindo, pega na mão dele e o ajuda a se levantar do sofá.

Ele não acompanha o que ela tenta dizer, mas confia tanto nela que entrega seu corpo aos movimentos que ela coordena com as mão e seu corpo. Eles estão próximos, tão próximos quanto dois corpos podem estar. Frente à frente, olhos nos olhos, ela murmura algo. Ele não capta imediatamente o significado do som. O idioma dela não é o dele, o dele não é o dela. Eles usam uma idioma comum, repleto de falhas e símbolos desconhecidos, a comunicação não é simples, especialmente em momentos como esse.

Os obstáculos entre eles sempre foram a tinta colorindo a paisagem por onde passavam, as casas onde viviam. Não era diferente agora.

Ela repetiu com mais calma, ele prestou mais atenção. “Dança comigo?” Era o começo do mar de palavras que se seguiriam. Capturadas no ar, fizeram com que ele entrelaçasse o corpo dela. Os movimentos eram suaves, embalados por uma música misteriosa, que tocava a mente de ambos.

Ela continuou com as palavras, queria dançar com ele, não apenas aquela música. Queria dançar todas, especialmente as que iriam compor juntos. Dançar rumo às mudanças que ocorreriam em seus corpos. Dançar contra os momentos de dor e mágoa que aconteceriam entre eles. Ela queria dançar em comemoração ao sentimento que os unia, a coragem que era o amálgama do sentir deles. Queria ter o prazer infinito de dançar eternamente a dança de vida com ele.

Ele ouviu, enquanto embalava o corpo dela naquela dança. Desta vez, ela repetiu: “Dança comigo?” Não teve medo, nem vergonha de pedir o que seu corpo todo clamava havia séculos. Repetiu novamente, mergulhando seus olhos nos olhos dele. E, novamente, quando os lábios dele tocaram os dela.

Ansiava pela resposta. Ansiava pelo fim daquela agonia de milênios. Ansiava por dançar.

Ele a puxou mais perto, nem o ar passava entre eles, os corpos balançavam no ritmo. O olhar dele antecipou a resposta e, quando o som saiu dos lábios dele, ela sabia que desta vez vencera: “Evet”, “Yes”, “Sim”.

E eles dançaram e dançaram, choraram, riram, criaram, destruíram, mas, acima de tudo, amaram um ao outro, como todas as impossibilidades diziam que não seria. No fim, quando chegou o momento de retornar a serem apenas pequenas partículas, partiram juntos, ainda dançando.

Heleny Galati

(C)or-do-sol – Por Betina Pilch

Aquele seu riso exibido de erro percebido me fez sorrir deliciosamente. Você tem esse dom de me encantar, enquanto canta com a aquela pose de moço sedutor e olhar envolvente. Mas eu realmente gosto quando sua pose despenca e o que resta é aquele simples menino oculto em sua essência. A complexidade transforma a brisa em vendaval, a garoa em tempestade, a calmaria em tormento. Já a simplicidade torna tudo mais leve e suave. Então, quando você errou aquela simples nota e sorriu, eu queria aplaudir seu riso em pé, porque – de fato – sua alma sendo exposta através daquela expressão risonha tinha sido a melhor parte do seu show teatral. E tudo isso justo naquela noite!

Aquela noite que chegou após uma tarde linda e cheia de melancolia. É, eu tenho essa mania de misturar todos os tipos de sentimentos em um único dia. Mas aquele dia… Ah! Era um daqueles dias em que não namorar o céu parecia um tremendo absurdo. Meus olhos beijavam cada cor celeste e me faziam sentir a delícia de degustar aquelas cores que devastavam o cinza. Admirando a imensidão, eu via o sol rasgando e queimando o horizonte, para dizer adeus à tarde e dar lugar à noite.

Ah! O Sol… Sempre tão humilde, eu pensava comigo. E, enquanto ouvia o adeus, meus olhos, que antes beijavam o céu, agora – taciturnos – olhavam pro sol, porque sabiam que os sabores das cores iriam se pôr junto à luz ofuscante. As cores estavam indo embora e eu, na minha ignorância, achava que a poesia também, mas logo fui beijada por um milhão de rimas. Caiu a noite e a pose dele despencou. Isso me fez pensar em como algumas quedas podem ser incrivelmente bonitas. Eu, que vivo caindo em pranto, despecando dos sonhos, levando tombos, nunca tinha percebido a beleza de uma queda. Justo eu, que coleciono garoas, cascatas e cachoeiras de lágrimas, nunca havia notado que toda queda ou gera sentimentos ou é gerada por eles – e eu nunca gostei de cair. Nunca gostei do roxo que as quedas deixavam.

Ah! As cores que me perdoem. Eu reclamava do cinza e, quando era colorida com tons de roxo, ficava brava. Quando as cores eram obrigadas a se pôr com o sol, eu me entristecia. Ah, menina indecisa! Mas o fato é que as cores do céu no final da tarde eram minha anestesia. Meu artifício inventado para fugir da vida. E, toda vez que o sol ia embora e levava consigo sua caixinha de lápis de cor, eu olhava para mim e lembrava que eu não passava de um contorno em preto e branco. E, quando a noite caiu e eu vi que ele sorriu, descobri nele o arco-íris que sempre almejei – e apenas desejei que, um dia, quem sabe – num final de tarde –, ele se refletisse em mim.

Betina Pilch

Sobre a autora…

Uma menina que se perde e se encontra no meio das letras. Que se esconde e se acha no meio das rimas. E que vez ou outra, ao escrever, percebe que dentro dela ainda existe vida.

Blog: Criticamente Poético

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