Like a Bird – Por Betina Pilch

Ei, olhe para cá. Me enxergue em meio a minha invisibilidade. Me ouça em meio ao meu silêncio. Me tire daqui. Me livre de mim.

Dê a esta alma – agrilhoada aos chumbos do sofrimento – asas para voar rumo ao céu. Não deixe que estes ferros pesados rasguem meus sonhos de papel.

Toque este coração com sua linda melodia e o eleve até as estrelas, para que ele conheça novamente a luz. Me ajude. Me guie. Não me deixe aqui sozinha, abraçada a minha cruz.

Leve daqui estas esperanças remendadas e traga novos bordados para vestir esta menina que a vida retalhou. Rasgue este véu de medo que me anuvia e me cubra com seus ternos cuidados de amor.

Não diga nada, apenas sopre a vida para dentro de mim. Não vá embora… Acene que sim.

Dê notas a estes vazios que me matam, componha uma sinfonia capaz de reerguer meus sentimentos cansados e estilhaçados no chão.

Me dê sua mão, segure-me firme e olhe sinceramente para os meus olhos macambúzios, à espera de dias menos doloridos… compreenda minha dor. Então, cure estas cicatrizes que insistem em se abrir e me mostre algum motivo para sorrir.

Quando a noite parecer infinita e os pesadelos me acordarem, prometa que estará aqui.

Abrace-me e me proteja desta escuridão que expulsou o sol que brilhava sobre mim. Seque as lágrimas que agora escorrem desesperadas para fora deste eu que as assusta e, por favor, não se amedronte caso elas gritem agudas, feito notas si.

Abafe os brados histéricos de socorro que chegam até você com um beijo e não desista desta garota, que ligeiramente se afasta quando se assume frágil para alguém que pode sustentá-la e fortalecê-la.

Ensine-me a olhar para o céu quando o sol morrer, para que eu possa ver a lua levantar voo, velar a imensidão celeste e reger sua orquestra, composta de estrelas apresentando um concerto fúnebre, em homenagem à luz incandescente que se apagou.

Mostre-me que a morte não é o fim… Me convença de que as coisas não terminam assim. Não deixe que eu perceba que tudo acabou quando o silêncio abraçar meu corpo feito cetim.

Não deixe que eu me apague sem nenhuma poesia. Permita que meu ponto final seja marcado por sua composição melódica mais bonita.

E, quando a noite cair… Apenas prometa que tocará cada escala com dor na alma ao lembrar-se de mim.

Betina Pilch

De um jeito que eu nem sei – Por Daniela Lusa

A ebriedade dessa madrugada anestesia meus pensamentos e tonteia o meu sentir. O frio invade meu quarto e se apossa do meu corpo descoberto jogado sobre a cama, tomando conta do espaço deixado por você. Eu tremo. Sento-me e olho ao redor. Sua ausência ocupa cada lacuna, exceto aquele canto onde agora repousa uma garrafa vazia. Taças de vinho com saudade, foi o que bebi a noite inteira. Precisava de calor, preciso de você. “Eu te amo”, sussurro na imensidão incontestável da minha solidão, mas as palavras tocam as paredes geladas e voltam para mim, quase me congelam. Minha pele se arrepia e eu fecho os olhos.

Juro que sou capaz de sentir o seu corpo pressionando o meu contra a parede, suas mãos percorrendo meus contornos como se estivessem lendo cada impressão minha, seus lábios quentes queimando os meus e tocando minha pele de um jeito que me mata e me faz reviver ao mesmo tempo, sua voz sussurrada e entrecortada que entra pelos meus ouvidos e desperta minha alma de um sono que me parecia eterno. (Houve um tempo em que pensei estar morta por dentro). Inspiro o ar quente que sai dos seus pulmões na tentativa de te guardar em mim, ele sai mas você fica — cada vez mais dentro, mais profundo, mais meu. Inspiro o ar que sai de você, entende o que isso significa? É como se estivesse me dando vida.

“Eu te amo”, tenho vontade de gritar, mas a voz não sai porque agora estou chorando. Sinto meu corpo estremecer de medo e minha alma adormecer outra vez sem você aqui. E se você me faltar, como é que vou reviver? “Morreria definitivamente”, penso.

Tomo mais um gole de vinho e choro mais um pouco. Deito e me encolho. Cadê você para me aquecer? Você, que me faz entender que o amor não se explica, se sente. Você, que me faz querer ser melhor porque você é a melhor pessoa que eu poderia ter ao meu lado. Você, que me abraça de um jeito capaz de curar todas as minhas dores e juntar cada pedaço quebrado dentro de mim. Você, que me faz sentir completa, inteira, feliz. Eu te amo de coração, com meu corpo, minha alma e minha pele. Eu te amo com palavras, com olhares, com toques, com beijos. Eu te amo com uma força que eu nem tenho, com uma felicidade que me faz querer te fazer feliz, porque só assim eu vou ser feliz também. Eu te amo como não sabia que fosse capaz, como jamais pensei que pudesse. Deixa eu descobrir outras formas de amar você? Tenho certeza, agora, de que nunca amei, porque eu te amo de um jeito que nem sei.

Abandono a taça vazia sobre a mesa de cabeceira e deixo meu corpo esvaecer sobre os lençóis que guardam o nosso cheiro. Ouço a música que escolhi para ser nossa e sorrio. “Não sabia que o amor tem som”, sussurro enquanto fecho os olhos procurando por você — dentro de mim.

Sobre a autora…

Daniela Lusa é professora e apaixonada, também, pelas letras. Escreve para pacificar toda a confusão que as palavras lhe causam. Joga a alma no papel sem se importar se outras a lerão, porque é assim que aprendeu a fugir de si mesma.

Águas – Por Ana Barcellos

Era uma vez dois rios com nascentes em lugares diferentes.

Ambos começaram apenas como um filete de água e, ao longo de suas trajetórias – cada qual com a sua -, foram encontrando elementos climáticos, topográficos e outros filetes de água. Foram também sofrendo a ação das pessoas: algumas que pareciam não se importar com sua existência, outras que tentavam lhe poluir ou destruir, outras que os queriam preservar.

Tais elementos ajudaram não somente a construir suas trajetórias, mas a constituir os rios grandiosos que se tornariam.

Ao longo do tempo, enfrentaram interpéries. Transbordaram algumas vezes, quase secaram em outras. Houve ocasiões em que se tornaram até violentos por conta de circunstâncias externas, derrubando árvores e ferindo pessoas.

Mas, na maior parte do tempo, seguiam seu curso placidamente. Perseverantes, sempre em frente, buscando a felicidade que era o mar.

Por vezes, passavam por paisagens deslumbrantes. Admiravam-nas tanto que era difícil manter o rumo e deixá-las para trás. Tinham até vontade de deixar de ser rio para transformar-se num lago: um lago parado que apenas refletisse tamanha beleza.

Se fizessem isso, possivelmente teriam uma felicidade temporária, mas perderiam, além de sua essência, a oportunidade de chegar ao mar.

Ouso dizer que, nesses momentos, os rios enchiam mesmo sem chuva, com suas próprias lágrimas. E, assim, contraditoriamente, quando pareciam mais frágeis, tornavam-se maiores e mais fortes.

Um belo dia, numa dessas curvas do caminho, eis que as duas trajetórias se cruzaram. Dois rios diferentes, com nascentes e trajetórias distintas, mas que de alguma forma identificaram-se um com o outro.

Então, por algum motivo do destino, aqueles dois rios diferentes – mas de certo modo tão parecidos – sofreram tamanha atração que mudaram o curso inicial e tiveram o encontro de suas águas.

Que espetáculo de encontro! Tão intenso que formava ondas que extrapolavam o local do cruzamento, irradiavam-se por quilômetros adiante.

Dizem que hoje os dois rios andam juntos por aí, procurando o mar. Se ainda estão longe de alcançá-lo? Nem se importam. Porque, juntos, de certa forma, eles já são praticamente um oceano. Um oceano de histórias começando uma nova história, certos de que o mar está logo ali, basta seguir em frente e não olhar para trás.

No alto daquela rua – Por Nayara Xavier

Tenho a alegria de receber hoje no “Retratos” a amiga Nayara Xavier!

Seja muito bem-vinda, querida!

Apreciem!

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No alto daquela rua

Ele a encontraria na “Praça das flores” – como havia no papel.

Marcados para as 14h, quis dizer: marcaram para as 14h. Nada poderia dar errado, planejaram isso durante muito tempo, estavam na mesma busca há anos… apressados e com saudade daquilo que parecia nunca chegar. Otávio esperava por Joana…

Esperava…

Esperou…

– Joana? – ele falava ao telefone.

– Alô? – Joana fala como se desconhecesse aquela voz.

– Você não veio. O que houve?

– Quem está falando?

– Otávio. Sou eu, Joana… Otávio! Responda-me por que não veio. – Ele já perdia as forças

– Senhor, o que quer? Joana… O que quer com Joana? A Joana… – Alguém já falava em tom choroso desse lado da linha.

– Como assim? Não é Joana? Onde ela está?

– Joana andava triste, ninguém sabia o motivo. Ficava no computador ouvindo música,s cujos autores, letras e fontes nós desconhecemos… Ela fez uma carta, me disse isso na tarde em que saiu, uma carta endereçada a um moço de nome “Silas Otávio”. Não tinha endereço, rua, cidade… nada.

Era o principio de um precipício.

Silas Otávio, como nunca fora antes…

Falou quem era e que logo estaria chegando para buscar a dita carta que Joana havia lhe deixado. Caminhou durante 40 minutos, acompanhado somente por lágrimas apressadas caindo sobre o rosto e a vontade de, no próximo passo, se deparar com aquela face alegre de Joana, vista sempre de longe, tão longe.

Chegou à casa da mãe de Joana, abriu a porta, saudou-a com um abraço e perguntou onde estava a carta.

– Venha, está no quarto dela. Não tive coragem de abrir, até encontrar a quem ela estava endereçada. – disse a mãe, com voz trêmula.

Silas Otávio abriu a carta que, em letras azuis, dizia:

Meu bem,

Encontraremo-nos hoje, sem falta, por favor não falte, no endereço que deixo logo abaixo. Não esqueça o nosso amor, nem muito menos que te amo infinitamente. Mas isso aqui não foi feito para nós. Você me entenderá, pelo muito que já conversamos. Venha. Você verá meu nome escrito com letras legíveis e num lugar bem cuidado, acredite. Não faltarão flores, nem luzes de velas, nem o luar no céu… nos acompanhando durante longas noites lindas. Não faltará o sol de todas as manhãs, que nos acordará para dias eternamente melhores.

Encontre-me no Cemitério das Flores, no alto da cidade; Rua dos Selvagens, n° 1.

Quanto à morte, não te preocupas… ela me ensinou como te anestesiar – para que não sintas dor alguma.

Te beijarei, amor.

Até breve…

Joana

– O que diz, meu filho? – perguntou a mãe, curiosa.

– Diz para eu encontrar a felicidade o mais rápido possível.

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Quem sou eu?

Mabele.

Estudante do curso técnico de Agroecologia.

Alguém que recebeu doses mais que normais de tristeza, mas que ainda ri de crianças felizes na rua… de sorrisos alheios, do amor no olhar de qualquer um que passe perto.

Twitter: @nayarapx

Blog: Com-paixão

Sobre Borboletas e Pedras – Por Flávia Queiroz

Hoje, tenho a honra de receber aqui no “Retratos” a querida escritora Flávia Queiroz!

Seja muito bem-vinda!

Apreciem!

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Sobre Borboletas e Pedras

“… En medio del camino había una piedra…”.

A pedra que Drummond deixou no meio do caminho teima em brigar com as borboletas de Quintana.

Hoje não quero poesia. Não a poesia lírica que desenha corações no ar e sininhos tilintando. Rompantes emocionais tem soado tão blasé quanto notícias de folhetim.

Acordei desejando verdades lascivas, fábulas corrosivas, realidade crua e mal temperada.

Hoje, Vinicius só serve se for para cantarolar Arrastão. Soneto eu não quero.

Escolho os olhos de ressaca, oblíquos e dissimulados de Capitu, aos ímpetos dramáticos de Julieta (“…O Romeo, Romeo! Wherefore art thou Romeo?…”).

Tão apaixonada. Tão desesperada. Tão óbvia. Tão eu.

Ando impaciente com a carência alheia.

Ei, solta a minha mão! Não adianta me olhar assim de lado, nem pedir colo, nem recitar versinho rimado. Desliga essa baladadinha romântica e coloca uma do Chico…

Hoje eu não vou te amar. Amanhã a gente conversa.

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Flah Queiroz – Branca de Neve que adora um blush. Bela Adormecida com insônia. Cinderela que não abandonaria o sapato predileto. Bela com vocação para Fera. Chapeuzinho chegada em lobo mau.

Viciada em finais felizes e avessa ao sentido literal das coisas. Como diria a melhor amiga: Nem mulherzinha, nem mulherão… Mulher sem medida. Quase-publicitária, quase-escritora, quase-romântica, quase-bonita…

Obstinada por inteiro.

Blog: Relicário Vazio

Twitter: @flahqueiroz

Às vezes, sinto falta… – Por Ana Barcellos

Hoje, tenho a honra de receber no “Retratos” a querida amiga Ana Barcellos!

Seja muito bem-vinda por aqui, Ana! Obrigada por ter aceitado o convite…

Apreciem!

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Às vezes, sinto falta

De um tempo para ficar sozinha

De um momento para fazer o que eu quiser

Mesmo que o que eu queira

Seja fazer absolutamente nada

[Saudade de não fazer nada]

«»

Sinto falta de dormir quando tenho sono

E de continuar dormindo quando o sono ainda não foi suficiente

«»

Falta de poder ficar triste

sem que me cobrem que fique alegre

sem que achem que há algo mais por trás da minha tristeza

e assim acabem fazendo com que haja mesmo.

«»

Sinto falta de poder ser plena

Com meus altos e baixos

De poder errar

Poder ousar mais

Falhar sem ser censurada

Dizer qualquer besteira

Sem que digam: “esperava isso de qualquer um, menos de você”

[Sinto falta de ser humana]

«»

Falta de poder ser eu mesma

Sem ser julgada a cada passo

Sem o peso das expectativas

«»

Falta de não precisar dar satisfação a ninguém

A não ser a mim mesma

Dos meus atos

Dos meus sentimentos

Dos meus pensamentos

E do dinheiro que gasto

«»

Sinto falta de poder ser arrogante

De poder achar que sou boa no que faço

Sem precisar fingir que não sou

Porque isso faz com que pessoas se sintam humilhadas

Por causa de suas próprias limitações

«»

Falta de poder me olhar no espelho e me achar bonita

De ler o que escrevo e poder me achar inteligente

[Falta de não precisar ser humilde]

«»

Sinto falta de pessoas maduras

Que saibam que discutimos ideias

E não os donos das ideias

«»

Falta de pessoas que conversem sobre coisas complexas

Sentimentos complexos

Sem medo da profundidade

E sem preconceitos

[Ah! Como sinto falta de poder viver sem preconceitos…]

«»

Falta de um mundo com menos televisão

«»

Sinto falta

De poder ser mais sincera

Sem que isso fira susceptibilidades

[Cansada de susceptibilidades]

«»

Falta de quem queira compartilhar uma vida com paixão

Que queira construir coisas que façam diferença

Que não tenha medo de ser feliz

Nem de quebrar alguns ovos

Ou queimar pontes

«»

Sinto falta que as pessoas tenham mais coragem

Para que quem a tenha não destoe e pareça maluco

«»

Sinto falta de poder chorar mais.

[Mas nem quero chorar mais]

«»

Às vezes sinto falta de respirar

E, às vezes, só às vezes, sinto falta de mim…

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Ana Barcellos é mãe de uma pequena garotinha. Natural de Porto Alegre, e pedagoga, descobriu aos 28 anos que tinha hepatite C. Desde então, criou o blog Animando-C, um espaço na internet dedicado à informação sobre  a hepatite, que utiliza para estimular a reflexão, compartilhar experiências e, principalmente, mostrar que é possível fazer uma releitura da doença e viver de uma maneira mais positiva.

Twitter: @AnimandoC

Blogs: Apenas Mulheres de Verdade e Animando-C