Para não dizer que eu não disse – Por Betina Pilch

Não direi que a falta de palavras doces me amarguram, tampouco que o silêncio me incomoda. Não direi que o vazio me angustia, não direi que estou perdida, nem mesmo que me encontrei. Não quero dizer nada, se não o que não direi.

Não direi que a vida é dura, nem que é fácil. Não direi que sentir demais me sufoca, tampouco que me afogo nos meus transbordamentos de mim. Não direi que não sentir tem sido ruim. Também não direi se entendo o começo, o meio ou o fim.

Não direi que não aguento mais os meus clichês, também não direi que os suporto. Não direi que estou indiferente a tudo, tampouco que me importo. Não quero dizer, dizer não quero, mas é preciso ficar dizendo com ou sem esmero.

Então, direi tudo sobre nada, mas não direi nada sobre tudo. Iluminarei minhas trevas, mas não acenderei uma luz no meio do escuro. Preciso dizer o que não direi, porque até mesmo calada vivo dizendo. E os dizeres que nada dizem acabam dizendo tudo.

Digo, digo, digo e, às vezes, esse amontoado de dizeres nada significam. Então pode ser que algo sem significado acabe significando muito, pelo menos uma vez. Talvez, quem sabe, um dia eu não saiba mais nada. Não que eu saiba algo agora, mas vivo achando que sei. Então, não direi sobre aquilo que tenho certeza. Prefiro apenas dizer sobre o que não quero dizer.

E quero seguir assim, vivendo sem dizer nada, com a brutalidade das coisas não ditas sem ser trancada, apenas trilhando essa estrada com as palavras lapidadas bem guardadas, aqui, dentro de mim.

Betina Pilch

Você trabalha ou apenas escreve? – Por Lunna Guedes

“Eu acho que fiz muito bem, considerando que eu comecei com o nada e mais um monte de papel em branco.”

[ Steve Martin ]

Comumente eu ouço escritores reclamarem da difícil realidade em que vivem…  alguns cantam em voz alta que não se dedicam com mais afinco à escrita porque, infelizmente, precisam pagar suas contas e, para isso, necessitam ter um trabalho “de verdade”… Afinal, o escritor apenas escreve e o efeito desse “trabalho” nem sempre resulta em moedas no bolso!

Contudo, já existem, no cenário atual, inúmeros escritores que conseguem se manter única e exclusivamente, em tempo integral, de sua arte… algo impensável até pouco tempo!

A indústria do cinema em Hollywood modificou essa realidade de maneira definitiva, ao pagar somas impensáveis para transformar páginas em sucessos de bilheterias. Eu poderia citar uma dúzia de filmes que, nos últimos anos, foram adaptados por importantes diretores para as grandes telas. Em maioria, livros que, primeiro, encantaram seus leitores, tornando-se best-sellers nas prateleiras das livrarias, para só depois ocuparem espaço nas salas de cinema do mundo inteiro… se agrada, se convence, é outra história! 

Mas essa “novidade” é recente, e não é para todos… muitos escritores ainda precisam se dividir entre realidade e ficção para sobreviver, enquanto esperam por um lugar ao sol!  

Eu gosto de pensar, no entanto, que o ato de escrever necessita ser alimentado constantemente e, sendo assim, um trabalho alheio à palavra escrita pode se considerar uma experiência valiosa na construção desse universo tão particular do autor…

Melville, por exemplo, autor do consagrado “Moby Dick”, talvez não tivesse escrito esse livro, se não tivesse trabalhado a bordo de uma baleeira. E Kafka, que atuou numa companhia de seguros – lugar imerso em tédio e frustrações –, poderia não ter encontrado os sentimentos tão necessários para a sua escrita, caso se dedicasse apenas a sua arte. E Keroauc, ao lavar pratos, pode ter encontrado ali toda a inspiração necessária para escrever “On the road”.

Eu trilhei diversos caminhos antes de me decidir pela escrita. Ocupei uma sala numa rua pouco movimentada, com uma porta escura de duas faces, onde recebia meus pacientes… e, pouco depois – ao abandonar essa profissão primeira –, fiz várias coisas distintas. Experiências enriquecedoras que certamente contribuíram para com essa minha realidade inventada.

Se para muitos autores – ter um trabalho alheio à realidade da palavra – é um obstáculo intransponível… para mim é apenas uma espécie de motor para a criatividade.

Lunna Guedes

Escrevendo e Vivendo – Por Heleny Galati

Pesquisar para um novo livro é quase como empreender uma viagem. Você tem noções do ambiente e da história em que irá colocar seus personagens. Na verdade, alguns são conhecidos do público, entretanto, quando você dá aquele passo, mergulhando no passado e no universo de personagens históricos e lendários que serão companheiros de seus personagens imaginários, é nesse momento que você simplesmente descola do presente e aceita o desafio de voltar no tempo.

A viagem vale, sempre vale. Como pisar fisicamente em uma terra nova, colocar sua mente nos pressupostos, teorias e pequenos fatos coletados por milhares de outros seres humanos – arqueólogos, historiadores, biólogos – e dali iniciar o longo processo de recriar um mundo, um tempo – com seus costumes, sonhos, realidades e medos – que irá servir de palco para sua estória, é delirante.

Delírio, sim, podemos dar um nome assim para o que ocorre quando todo o processo tem início. De repente, eu me vejo navegando os mesmos mares, buscando os mesmos horizontes. Sinto na pele a brisa e o sal, o sol queimando enquanto remo em direção à cidade que, enquanto é destino, também é rival.

Eu queria tanto flutuar para aquele tempo. Simplesmente me abandonar naquele ponto da tradicional – não necessariamente real – linha do tempo. Como seria viver na idade do Bronze? O que representaria a mulher no contexto dos palácios, da vida cotidiana, das guerras?

A coincidência é um prêmio. Meu nome – Heleny, Helena, Eleni – é o mesmo da mulher que será perseguida, endeusada, amada e finalmente destruída. Seria meu destino também? Seria um tipo de fluxo gerado pelo nosso nome ou por quem ousamos ser? Não sei. Sei tão pouco sobre tudo. Esse não saber é inebriante, porque permite que eu crie. Crie um tipo de resposta à lenda que poucos ousarão crer. Posso criar a visão e as aspirações de corpos desfeitos pelo vento, pela chuva e erosão milhares de anos no passado. Sinto, algumas vezes, que estava lá, que fazia parte da horda insurgente ou da aristocracia excêntrica, egoísta, não empática. Seria eu um reflexo de ontem no hoje? Impossível não questionar.

Em algum momento, esse questionamento corta como uma das antigas espadas – vi algumas nos museus que percorri pelo mundo – e dói, dói muito essa ansiedade gerada por não poder dar a resposta certa – como se houvesse uma. Essa sou eu, a escritora que está sempre a procura da realidade, do lugar onde insere a fantasia e sua própria vida.

Hoje, particularmente, passei horas entre ruínas e reconstruções. Voltei quatro mil anos, percorrendo lentamente cada destruição e reconstrução. Ouvi, como um sussurro, a pergunta do porquê, qual a insensata razão que levou à reconstrução do que foi destruído pelo fogo, pela própria terra em seu sacudir, pelas guerras? Haveria alguma concreta e sensata resposta? Sim, havia, pelo menos para mim. O local onde isso ocorreu era fértil, estratégico porto da antiguidade. Os guerreiros, mercadores e nobres que ali viviam podiam controlar a passagem para paragens mais rentáveis.

Era essa a exata razão que criara o pequeno vulcão que explodiu através de um acaso, um incidente. No futuro, poetas revisarão a crua realidade de ganância e poder, pincelando com amor e luxúria, mantendo, no entanto, a morte como personagem principal. A simples verdade será escondida – parece ser essa uma tendência humana – atrás de mitos e falsas premissas.

Nós, aqui, neste ponto, somos incapazes de compreender os fragmentos que nos foram escondidos sob milênios de evolução cultural. Essa afirmação me faz rir, pois na verdade continuamos a acreditar nos mesmos mitos e lendas, nos mesmos favores e preces, apenas a roupagem é outra. Somos seres cercados por tecnologia, enquanto imersos nas crenças do passado.

Caminho, assim, em terreno perigoso, mas não posso deixar de me arriscar. A verdade é clara, gritá-la através de meus personagens é a única forma que tenho de protestar contra a cegueira e, vou usar a palavra real, estupidez humana. Não tenho todas as respostas, mas as perguntas que faço caem em ouvidos surdos, são respondidas por bocas que repetem os tradicionais murmúrios desconexos, contraditórios de um passado imaginário. Passado impregnado de preconceitos de todos os tempos. Prefiro, então, deixar que meus personagens me guiem, não como controladores, muito mais na forma de companheiros vivendo a mesma grande aventura. Construo suas vidas e reconstruo a minha. Confuso algumas vezes, tão nítido em outras.

Estou terminando este texto, e na televisão alguém fala sobre ‘dark soul’ – alma escura – é algo curioso. Não há essa tal de ‘dark soul’, apenas nossa mente se acomoda no sofrimento, na autocomiseração e na sensação indubitável de que a culpa é de um outro qualquer. Não consigo ser assim. Muitos influenciaram minhas escolhas – eu deixei – mesmo quando criança, acabei por deixar me levar pela crença do não poder, não dever, não ser correto. Cresci e, como os personagens dessa estória que está no início, só percebi que tudo era uma grande mentira quando o sol se pôs definitivamente.

Felizmente, diferente de minha personagem, o sol nasceu novamente. A oportunidade de aprender continuou a ser real e aqui estou, recriando meu aprendizado, do primeiro ao último livro, embutida em todas as palavras que digo ou ficam subentendidas. A mensagem está lá: tal qual Serhan, eu mesma tenho um tipo de dever, de papel – escolhido por mim – e sigo no intuito de cumpri-lo.

Não rumo para um fim, na verdade o rumo não importa. Sigo usufruindo da vida que tenho, junto aos meus personagens e o sentimento que sempre me moveu. Continuo, solitária, confusa alguns dias, quase compreendendo em outros. Continuo, por ser a única coisa que posso ser. Qualquer outra alternativa se mostra covarde, incompleta, qualquer uma não é a resposta. Sou esse emaranhado de vidas que me absorvem, sou esse complexo vagar por tempos e espaços, sou essa solitária mulher que acorda de madrugada com a nítida sensação de que ainda será possível. Sim, possibilidade é meu combustível, não é fé, não é crença, nem sequer algum tipo de filosofia, apenas acredito no meu próprio potencial – contra todos e tudo nesse mundo – e vou escrevendo, escrevendo e vivendo.

Heleny Galati

Das cartas lançadas ao vento (do mês de agosto) – Por Daniela Lusa

Escrevi uma carta de despedida e a lancei ao vento do mês de agosto.

Deitada na cama com o caderno à minha frente, acompanho com os olhos marejados o desenhar da ponta da caneta. Conduzo-a de acordo com meu sentir e sinto as dores d’alma escorrendo pelos dedos e caindo em cheio no papel. Como dói escrever. Desnudo minhas emoções e me despeço do que já não serve mais. Preciso de espaço para viver em mim, meus vazios já não me bastam — e eu aprendi que a folha em branco pode guardar o que já não cabe em nós.

Dato minha carta com o dia de amanhã, porque ainda não sou melhor do que era ontem, do que sou hoje, e quero que ela seja escrita e enviada quando eu for uma pessoa diferente. Cada amanhecer é um recomeço e já está na hora de despertar.

Peço ao vento que leve consigo os meus medos infundados, minha insegurança maldita e minhas angústias tão doloridas. Que ele deixe pelo caminho pedaços das minhas promessas quebradas e varra de mim os resquícios de toda e qualquer infelicidade que ainda insiste em me fazer moradia. Sento-me na varanda e continuo a escrever. Deixo que o vento toque minha pele e brinque com meus cabelos, preciso me sentir viva, preciso saber que a esperança ainda habita o meu ser.

Respiro fundo e escrevo. Como último desejo, rogo ao vento do mês de agosto que leve para longe o que não posso mais ter por perto. Fecho os olhos e ouço os assovios que ele faz ao invadir a casa pela janela da sala. Acho que isso é um “sim”.

Assinei com letras e lágrimas minha carta de despedida, juntei os pedaços da minha alma partida ­e me refiz.

Que os ventos do destino soprem a meu favor. A nosso.

Daniela Lusa

"Detalhes" de uma escrita ficcional – Por Lunna Guedes

“Não tenho certeza de nada,
a não ser da santidade dos afetos do coração e
da verdade da imaginação…”

— John Keats

Outro dia, alguém me perguntou como surgem os meus textos e as minhas idéias, numa espécie de investigação particular, obviamente motivada pela curiosidade natural que abraça as pessoas, quando sabem que o objeto à frente delas vive em algo que se pode chamar de realidade alternativa…

Eu sempre entrego uma resposta imediata, sem muito pensar, até porque nunca me ocorreu investigar a mim mesma para responder àquilo que sempre me parece um reflexo natural, quase involuntário: “acontece, como um estalo: quando dou por mim, já está lá e pronto…”. Mas, hoje, resolvi olhar para dentro, tentando encontrar uma resposta para essa pergunta que se repete em minha direção de tempos em tempos…

Então, tirei alguns minutos do meu dia para pensar nisso, joguei meu corpo na cama e, enfrentei o teto branco… como tanto gosto de fazer quando quero pensar em alguma coisa. Estranhamente, lembrei-me de um garoto que passou por minha vida, em meus dias de menina… não vamos fazer contas, certo?

Éramos vizinhos e, ao longo de um ano inteiro, convivemos: de casa para a escola, em sala de aula e na volta para casa… essa era a nossa realidade. Não lembro como se deu o primeiro contato. Quando penso naqueles primeiros dias de aula, ele já está lá, ocupando a cadeira ao meu lado, com seu sorriso imenso, engraçado e agradável e, seus olhos grandes e festivos. Ele está lá a me olhar e a dizer-me: “você é a menina mais legal do mundo“. Dá para imaginar a estranheza que minha alma esparrama pelos cantos do meu corpo quando me lembro disso?

Pois bem, nós dois íamos de mãos dadas para a escola… fazíamos todas as atividades juntos: em sala de aula, nos intervalos das aulas e, por causa disso, passamos a ser alvo das outras crianças que cantavam à nossa volta “estão namorando“, numa repetição que beirou ao insuportável nas primeiras vezes, mas depois nos acostumamos e passou a ser como aqueles refrões chatos e enfadonhos de músicas bobas…

A. se mudou no final do ano para outra cidade e a mãe dele o levou até a casa para nos despedirmos. Entre abraços tristonhos, ele prometeu escrever todos os dias. Eu não prometi absolutamente nada, apenas disse “addio” – palavra que eu nunca mais voltaria a usar… foi minha primeira despedida. A cada passo, ele olhava para trás e acenava e, eu fiquei no portão de casa enquanto podia enxergá-lo, acenando de volta… obviamente, ele nunca me escreveu uma só linha…

…anos mais tarde, estava no primeiro ano de faculdade em Coimbra, quando vi um garoto passando por mim. O mesmo sorriso. O mesmo olhar. Pensei o que pensamos sempre nessas horas: “é impossível”, e segui meu caminho, sem dar muita importância para aquele “encontro”… mas, dias depois, eu o vi novamente. Dessa vez, ouvi seu nome ser pronunciado em voz alta. Coincidência ou não – o nome era o mesmo do menino da minha rua – e, com alguns anos de atraso, sentei-me numa daquelas mesas do campus e escrevi uma missiva…

Preciso ressaltar: fazia tempos que eu não escrevia uma única linha que não tivesse relação com psicologia, assuntos teóricos, ou seja, estudos ou pesquisas.

Mas, naquela tarde, eu escrevi linhas inteiras, não para o estranho que passou por mim sem dar por minha existência e, sim, para o menino que adocicou meu primeiro ano escolar, tornando-o suportável… Entreguei a ele aquela folha de caderno no dia seguinte. Ele me olhou com espanto. Reparei suas reações… ele parecia saber quem eu era, quase me reconhecendo…. mas eu não fiquei junto a ele tempo suficiente.

Conversamos ao final daquele mesmo dia, numa dessas ironias do destino… na pele daquele estranho, de quem eu nada sabia, vivia o “menino da rua”. Ele me contou suas aventuras, de seus passos e da faculdade de Direito. Contou de suas perdas, suas conquistas, mas não deixou de ser o que era: um estranho…

Eu sou esse baú, que de tão cheio já não é possível fechar e, vez ou outra, uma lembrança salta de lá de dentro… por isso escrevo. A. é uma lembrança que transborda em meu íntimo. O garoto que segurava a minha mão e dizia em meus ouvidos aquelas coisas de criança, ingênuas e agradáveis, coisas leves que a gente guarda para momentos de necessidade, como esse… em que o luto é minha melhor metáfora.

Em suma, é assim que tudo começa em mim, com minha melhor lembrança, sendo a “melhor menina do mundo para alguém“… Eu me lembro de minhas paixões, não uma apenas, mas várias delas – porque não existe nada melhor que se apaixonar a cada esquina da vida – e, a partir dessas histórias minhas, que eu coleciono diariamente, vou inventando outras, até chegar na rara ousadia de esboçar uma ficção.

As idéias surgem em mim, como uma celebração a todas as vezes em que me apaixonei… o que sou hoje, enquanto ficcionista, é por conta de todas essas histórias que embalo em meu íntimo – misturando-as em meu imaginário – onde ardem, mantendo essa “chama criativa” sempre acesa, porque escrever para mim é, sem dúvida alguma: confessar-me apaixonada…

Lunna Guedes

De resto, nada – Por Daniela Lusa

Não escolho palavras, não corrijo pontuações, não me importo se repito o que já disse tantas vezes. Eu apenas preciso escrever, porque a escrita ainda me parece a forma mais discreta de sangrar, de extirpar os medos que me sufocam e por vezes não me deixam dormir, de pacificar toda essa confusão que as palavras me causam. E o que acontece com as palavras que nunca são ditas? Amarram-se e viram nós na garganta. Escrever os desata (enquanto eu desando). Busco refúgio nas palavras quando preciso fugir de mim.

Já joguei tantas vezes meu coração no papel, já me derramei tanto em alguns de meus escritos, que senti medo de ficar vazia. Já escrevi sentindo uma dor tão pungente, que me fazia chorar a cada letra que minha mão desenhava nas folhas presas por um clipe de metal. A verdade é que eu gosto desses textos que me deixam meio que destruída, que me devastam e me reconstroem ao mesmo tempo. Talvez eu goste da dor, mas só da inventada.

E eu já amei pela escrita. Um pouco do amor que trago aqui dentro sai pelos meus dedos tão confusos quanto eu e buscam os olhos daquele que é dono de todo o meu ser, daquele que me faz amar ainda mais as palavras, daquele que me faz sentir viva. Eu escrevo porque amo — as letras, também.

Rasgo minh’alma e me espalho inteira no papel. E então me leio — mesmo que às vezes não me entenda.

Eu escrevo para me salvar de mim — mas me condeno a cada vírgula.

De resto? Nada.

*De admiradora a integrante do Retratos da Alma, foi com surpresa que recebi e com muita honra aceitei o convite para assinar esta coluna. Que a alma seja sempre retratada e, de resto, nada.

Daniela Lusa

Retirante – Por Leonardo Valesi Valente

É das penugens
Quem cambalhota ou porque destroça
Uma cor risonha e solta largo o braço
Como quando eu te desperto bem tarde
Até o sorriso de volta
Toda casa te resguarda

É calma bruta
Quem com nenhuma pedra desmonta o lago
Realça o dia para os estalos
De repente nem mais falta
Se apronta tão amigo
Que dói o mundo todo comigo de novo

É poeira
Quem recolhe os passos para o eterno
Assim demora e não vai embora meu coração
Acontece o mesmo eterno
Quem escrevo pouco desaba
Mas ainda estamos a cá profusos de nós

É do destino
Quem repetido viaja guardado de cada silêncio
Os olhos alados pedindo reparo
Embora voando não se depõe o pranto
Apenas um gosto de nuvem
Que chovendo nos desfaço ir embora

Leonardo Valesi Valente