Para não dizer que eu não disse – Por Betina Pilch

Não direi que a falta de palavras doces me amarguram, tampouco que o silêncio me incomoda. Não direi que o vazio me angustia, não direi que estou perdida, nem mesmo que me encontrei. Não quero dizer nada, se não o que não direi.

Não direi que a vida é dura, nem que é fácil. Não direi que sentir demais me sufoca, tampouco que me afogo nos meus transbordamentos de mim. Não direi que não sentir tem sido ruim. Também não direi se entendo o começo, o meio ou o fim.

Não direi que não aguento mais os meus clichês, também não direi que os suporto. Não direi que estou indiferente a tudo, tampouco que me importo. Não quero dizer, dizer não quero, mas é preciso ficar dizendo com ou sem esmero.

Então, direi tudo sobre nada, mas não direi nada sobre tudo. Iluminarei minhas trevas, mas não acenderei uma luz no meio do escuro. Preciso dizer o que não direi, porque até mesmo calada vivo dizendo. E os dizeres que nada dizem acabam dizendo tudo.

Digo, digo, digo e, às vezes, esse amontoado de dizeres nada significam. Então pode ser que algo sem significado acabe significando muito, pelo menos uma vez. Talvez, quem sabe, um dia eu não saiba mais nada. Não que eu saiba algo agora, mas vivo achando que sei. Então, não direi sobre aquilo que tenho certeza. Prefiro apenas dizer sobre o que não quero dizer.

E quero seguir assim, vivendo sem dizer nada, com a brutalidade das coisas não ditas sem ser trancada, apenas trilhando essa estrada com as palavras lapidadas bem guardadas, aqui, dentro de mim.

Betina Pilch

Escrevendo e Vivendo – Por Heleny Galati

Pesquisar para um novo livro é quase como empreender uma viagem. Você tem noções do ambiente e da história em que irá colocar seus personagens. Na verdade, alguns são conhecidos do público, entretanto, quando você dá aquele passo, mergulhando no passado e no universo de personagens históricos e lendários que serão companheiros de seus personagens imaginários, é nesse momento que você simplesmente descola do presente e aceita o desafio de voltar no tempo.

A viagem vale, sempre vale. Como pisar fisicamente em uma terra nova, colocar sua mente nos pressupostos, teorias e pequenos fatos coletados por milhares de outros seres humanos – arqueólogos, historiadores, biólogos – e dali iniciar o longo processo de recriar um mundo, um tempo – com seus costumes, sonhos, realidades e medos – que irá servir de palco para sua estória, é delirante.

Delírio, sim, podemos dar um nome assim para o que ocorre quando todo o processo tem início. De repente, eu me vejo navegando os mesmos mares, buscando os mesmos horizontes. Sinto na pele a brisa e o sal, o sol queimando enquanto remo em direção à cidade que, enquanto é destino, também é rival.

Eu queria tanto flutuar para aquele tempo. Simplesmente me abandonar naquele ponto da tradicional – não necessariamente real – linha do tempo. Como seria viver na idade do Bronze? O que representaria a mulher no contexto dos palácios, da vida cotidiana, das guerras?

A coincidência é um prêmio. Meu nome – Heleny, Helena, Eleni – é o mesmo da mulher que será perseguida, endeusada, amada e finalmente destruída. Seria meu destino também? Seria um tipo de fluxo gerado pelo nosso nome ou por quem ousamos ser? Não sei. Sei tão pouco sobre tudo. Esse não saber é inebriante, porque permite que eu crie. Crie um tipo de resposta à lenda que poucos ousarão crer. Posso criar a visão e as aspirações de corpos desfeitos pelo vento, pela chuva e erosão milhares de anos no passado. Sinto, algumas vezes, que estava lá, que fazia parte da horda insurgente ou da aristocracia excêntrica, egoísta, não empática. Seria eu um reflexo de ontem no hoje? Impossível não questionar.

Em algum momento, esse questionamento corta como uma das antigas espadas – vi algumas nos museus que percorri pelo mundo – e dói, dói muito essa ansiedade gerada por não poder dar a resposta certa – como se houvesse uma. Essa sou eu, a escritora que está sempre a procura da realidade, do lugar onde insere a fantasia e sua própria vida.

Hoje, particularmente, passei horas entre ruínas e reconstruções. Voltei quatro mil anos, percorrendo lentamente cada destruição e reconstrução. Ouvi, como um sussurro, a pergunta do porquê, qual a insensata razão que levou à reconstrução do que foi destruído pelo fogo, pela própria terra em seu sacudir, pelas guerras? Haveria alguma concreta e sensata resposta? Sim, havia, pelo menos para mim. O local onde isso ocorreu era fértil, estratégico porto da antiguidade. Os guerreiros, mercadores e nobres que ali viviam podiam controlar a passagem para paragens mais rentáveis.

Era essa a exata razão que criara o pequeno vulcão que explodiu através de um acaso, um incidente. No futuro, poetas revisarão a crua realidade de ganância e poder, pincelando com amor e luxúria, mantendo, no entanto, a morte como personagem principal. A simples verdade será escondida – parece ser essa uma tendência humana – atrás de mitos e falsas premissas.

Nós, aqui, neste ponto, somos incapazes de compreender os fragmentos que nos foram escondidos sob milênios de evolução cultural. Essa afirmação me faz rir, pois na verdade continuamos a acreditar nos mesmos mitos e lendas, nos mesmos favores e preces, apenas a roupagem é outra. Somos seres cercados por tecnologia, enquanto imersos nas crenças do passado.

Caminho, assim, em terreno perigoso, mas não posso deixar de me arriscar. A verdade é clara, gritá-la através de meus personagens é a única forma que tenho de protestar contra a cegueira e, vou usar a palavra real, estupidez humana. Não tenho todas as respostas, mas as perguntas que faço caem em ouvidos surdos, são respondidas por bocas que repetem os tradicionais murmúrios desconexos, contraditórios de um passado imaginário. Passado impregnado de preconceitos de todos os tempos. Prefiro, então, deixar que meus personagens me guiem, não como controladores, muito mais na forma de companheiros vivendo a mesma grande aventura. Construo suas vidas e reconstruo a minha. Confuso algumas vezes, tão nítido em outras.

Estou terminando este texto, e na televisão alguém fala sobre ‘dark soul’ – alma escura – é algo curioso. Não há essa tal de ‘dark soul’, apenas nossa mente se acomoda no sofrimento, na autocomiseração e na sensação indubitável de que a culpa é de um outro qualquer. Não consigo ser assim. Muitos influenciaram minhas escolhas – eu deixei – mesmo quando criança, acabei por deixar me levar pela crença do não poder, não dever, não ser correto. Cresci e, como os personagens dessa estória que está no início, só percebi que tudo era uma grande mentira quando o sol se pôs definitivamente.

Felizmente, diferente de minha personagem, o sol nasceu novamente. A oportunidade de aprender continuou a ser real e aqui estou, recriando meu aprendizado, do primeiro ao último livro, embutida em todas as palavras que digo ou ficam subentendidas. A mensagem está lá: tal qual Serhan, eu mesma tenho um tipo de dever, de papel – escolhido por mim – e sigo no intuito de cumpri-lo.

Não rumo para um fim, na verdade o rumo não importa. Sigo usufruindo da vida que tenho, junto aos meus personagens e o sentimento que sempre me moveu. Continuo, solitária, confusa alguns dias, quase compreendendo em outros. Continuo, por ser a única coisa que posso ser. Qualquer outra alternativa se mostra covarde, incompleta, qualquer uma não é a resposta. Sou esse emaranhado de vidas que me absorvem, sou esse complexo vagar por tempos e espaços, sou essa solitária mulher que acorda de madrugada com a nítida sensação de que ainda será possível. Sim, possibilidade é meu combustível, não é fé, não é crença, nem sequer algum tipo de filosofia, apenas acredito no meu próprio potencial – contra todos e tudo nesse mundo – e vou escrevendo, escrevendo e vivendo.

Heleny Galati

Das cartas lançadas ao vento (do mês de agosto) – Por Daniela Lusa

Escrevi uma carta de despedida e a lancei ao vento do mês de agosto.

Deitada na cama com o caderno à minha frente, acompanho com os olhos marejados o desenhar da ponta da caneta. Conduzo-a de acordo com meu sentir e sinto as dores d’alma escorrendo pelos dedos e caindo em cheio no papel. Como dói escrever. Desnudo minhas emoções e me despeço do que já não serve mais. Preciso de espaço para viver em mim, meus vazios já não me bastam — e eu aprendi que a folha em branco pode guardar o que já não cabe em nós.

Dato minha carta com o dia de amanhã, porque ainda não sou melhor do que era ontem, do que sou hoje, e quero que ela seja escrita e enviada quando eu for uma pessoa diferente. Cada amanhecer é um recomeço e já está na hora de despertar.

Peço ao vento que leve consigo os meus medos infundados, minha insegurança maldita e minhas angústias tão doloridas. Que ele deixe pelo caminho pedaços das minhas promessas quebradas e varra de mim os resquícios de toda e qualquer infelicidade que ainda insiste em me fazer moradia. Sento-me na varanda e continuo a escrever. Deixo que o vento toque minha pele e brinque com meus cabelos, preciso me sentir viva, preciso saber que a esperança ainda habita o meu ser.

Respiro fundo e escrevo. Como último desejo, rogo ao vento do mês de agosto que leve para longe o que não posso mais ter por perto. Fecho os olhos e ouço os assovios que ele faz ao invadir a casa pela janela da sala. Acho que isso é um “sim”.

Assinei com letras e lágrimas minha carta de despedida, juntei os pedaços da minha alma partida ­e me refiz.

Que os ventos do destino soprem a meu favor. A nosso.

Daniela Lusa

De resto, nada – Por Daniela Lusa

Não escolho palavras, não corrijo pontuações, não me importo se repito o que já disse tantas vezes. Eu apenas preciso escrever, porque a escrita ainda me parece a forma mais discreta de sangrar, de extirpar os medos que me sufocam e por vezes não me deixam dormir, de pacificar toda essa confusão que as palavras me causam. E o que acontece com as palavras que nunca são ditas? Amarram-se e viram nós na garganta. Escrever os desata (enquanto eu desando). Busco refúgio nas palavras quando preciso fugir de mim.

Já joguei tantas vezes meu coração no papel, já me derramei tanto em alguns de meus escritos, que senti medo de ficar vazia. Já escrevi sentindo uma dor tão pungente, que me fazia chorar a cada letra que minha mão desenhava nas folhas presas por um clipe de metal. A verdade é que eu gosto desses textos que me deixam meio que destruída, que me devastam e me reconstroem ao mesmo tempo. Talvez eu goste da dor, mas só da inventada.

E eu já amei pela escrita. Um pouco do amor que trago aqui dentro sai pelos meus dedos tão confusos quanto eu e buscam os olhos daquele que é dono de todo o meu ser, daquele que me faz amar ainda mais as palavras, daquele que me faz sentir viva. Eu escrevo porque amo — as letras, também.

Rasgo minh’alma e me espalho inteira no papel. E então me leio — mesmo que às vezes não me entenda.

Eu escrevo para me salvar de mim — mas me condeno a cada vírgula.

De resto? Nada.

*De admiradora a integrante do Retratos da Alma, foi com surpresa que recebi e com muita honra aceitei o convite para assinar esta coluna. Que a alma seja sempre retratada e, de resto, nada.

Daniela Lusa

Retirante – Por Leonardo Valesi Valente

É das penugens
Quem cambalhota ou porque destroça
Uma cor risonha e solta largo o braço
Como quando eu te desperto bem tarde
Até o sorriso de volta
Toda casa te resguarda

É calma bruta
Quem com nenhuma pedra desmonta o lago
Realça o dia para os estalos
De repente nem mais falta
Se apronta tão amigo
Que dói o mundo todo comigo de novo

É poeira
Quem recolhe os passos para o eterno
Assim demora e não vai embora meu coração
Acontece o mesmo eterno
Quem escrevo pouco desaba
Mas ainda estamos a cá profusos de nós

É do destino
Quem repetido viaja guardado de cada silêncio
Os olhos alados pedindo reparo
Embora voando não se depõe o pranto
Apenas um gosto de nuvem
Que chovendo nos desfaço ir embora

Leonardo Valesi Valente

Lya Luft – Por Cláudia Costa

“… acho que a vida é um processo…
É como subir uma montanha.
Mesmo que no fim não se esteja tão forte fisicamente,
a paisagem visualizada é melhor…”

– Lya Luft –

Tenho conversado, esses dias, com as letras e pensamentos de Lya Luft. Trata-se de uma profissional do ramo das letras, que pode-se chamar de completa.

Lya é tradutora, poeta, escritora e professora aposentada, nascida em Santa Cruz do Sul, em 15 de setembro de 1938. Como escritora, Lya Luft recebeu os prêmios: Alfonsina Storni de poesia em Buenos Aires, 1980; Érico Veríssimo, da Assembléia do Rio Grande do Sul, pelo conjunto de sua obra, 1984; melhor obra de ficção de 1996 da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA), por “O Rio do Meio”. Atualmente, dedica-se apenas à escrita e à tradução de literaturas inglesa e alemã, incluindo Thomas Mann, Bertolt Brecht, Hermann Hesse, Gunter Grass, R.M. Rilke, Robert Musil, Doris Lessing, Virginia Woolf e outros.

Em minha leitura particular, trago profunda admiração por sua forma de escrever e transformar percepções e sentimentos em palavras. Segundo Lya, sua obra poderia ser resumida num livro de indagações. Ler a obra de Lya Luft é uma viagem pra dentro do ser, de sua própria história, que acaba por encontrar-se com a da autora em tantos pontos. Um pequeno trecho que retrata um pouco isso é:

“A vida é maravilhosa, mesmo quando dolorida. Eu gostaria que na correria da época atual a gente pudesse se permitir, criar, uma pequena ilha de contemplação, de autocontemplação, de onde se pudesse ver melhor todas as coisas: com mais generosidade, mais otimismo, mais respeito, mais silêncio, mais prazer. Mais senso da própria dignidade, não importando idade, dinheiro, cor, posição, crença. Não importando nada.”

Em um convite mudo, a escritora nos chama para refletir e se descreve:

“Sou dos escritores que não sabem dizer coisas inteligentes sobre seus personagens, suas técnicas ou seus recursos. Naturalmente, tudo que faço hoje é fruto de minha experiência de ontem: na vida, na maneira de me vestir e me portar, no meu trabalho e na minha arte. Não escrevo muito sobre a morte: na verdade ela é que escreve sobre nós – desde que nascemos vai elaborando o roteiro de nossa vida (…)”.

Numa linguagem simples e muito conhecida do nosso cotidiano, Lya passeia no tempo, nas alegrias e doçuras da infância, sem se esquecer dos medos, anseios e olhares muito particulares de cada etapa da vida. Aborda também nossas perdas, as lembranças dos que amamos e já fizeram uma viagem para longe de nós, escrevendo sentimentalidades concretas e lúcidas, sem escorregar para o piegas e se utilizando de clichês quando lhe convém, para mais uma vez nos dar a mão e ir conosco na viagem de sua existência posta em palavras.

Fica aqui um convite para que você, ser vivente e pensador, conheça mais sobre essa autora brilhante e se delicie com a beleza do mundo interior.

Cláudia Costa

Palavras – Por Tuka Borba

Palavras que invadem sem pedir licença
Palavras de crença, palavras tontas
Palavras prontas pra fugir das bocas
Palavras loucas de atar
Ar, er e outras terminações
Combinações verborrágicas de letras nervosas
Ditosas pretensões

Palavras de ouvir falar
Calar por não saber
Reter sem traduções
Bordões que teimam e se repetem
Palavras que se metem demais
Outras que desaparecem atrás de estranhos silêncios

Palavras que rimam
Outras que se atiram de precipícios
Vícios por assim dizer

Abracadabra, pé de cabra e outras variações
Palavras que viram canções e que não saem da cabeça
Palavras que não se esqueça e outras que ninguém mais vai lembrar
Palavras que fazem ficar e outras que afastam
Palavras que se arrastam durante anos
Planos, paixões
Razões pelas quais não se pode entender
Preces e textos
Pretextos de um mundo que já não sabe mais o que vai dizer

Tuka Borba