Janela #11 – Por Poeta da Colina

O Sol à meia altura do inverno invade mais as nossas vidas, mas com mais delicadeza. Eu, mais baixo que o parapeito, seguro-me na ponta dos dedos e o mundo ainda sim se esconde atrás do vitrô. O Sol não me alcançaria de outra forma. Nesta beira sempre derramo algumas lágrimas. Por mais que a vida fique em um espelho côncavo da realidade, tenho uma visão privilegiada e não consigo me calar diante suas belezas. Meu choro é dos sonhos que descarrego, sussurrando neste pedaço de concreto entreaberto. Penso que uma visão tão bonita só pode ser uma presença superior. Uma lembrança em que devemos sempre almejar nosso melhor. Eu sei que nosso encontro é temporário e que nem sempre reina neste azul. Somos todos um pouco nômades e, cada vez que crescemos e mudamos, nossa própria casa se torna outro lugar. Este brilho sobre meu olhos me faz lembrar de outros lugares e fico curioso de saber o que você diria que mudou em mim. Bobagem minha, mas é fato que você e a Chuva me conhecem desde sempre. Segredos nossos. Ser tocado pela natureza é a melhor forma de reparar no mundo. Este vidro turvo que por ora olho, e ao qual sempre volto, é cheio de detalhes e, nas suas brechas, durante o dia, tentamos um ao outro induzir um sorriso.

Danilo Mendonça Martinho

Janela #10 – Por Poeta da Colina

No fim de uma longa noite, poucas coisas chamam a atenção de um olhar. Em uma sexta, ir para casa parece ser o sentido contrário e um sentimento maior de solidão. Já fiz muito para pertencer, hoje penso apenas em ser. Abraçando minha escolha, desci a escada que iria me separar do mundo, mania de avesso, de torcer para o mais fraco. Nos degraus sem companhia, camuflava-se um objeto por ora sem identificação. Como não diminuí o passo, fui ter a consciência já depois da ladeira abaixo. Um brinco beta, desses que não têm par, confundia-se, com sua pena degradê escura, ao chão acizentado sofrido. Não reagi. Não me lembro de ter encontrado nada nessa vida. Guarda-chuvas foram-se aos montes, mas ali não soube o que fazer com algo encontrado. Era fato que recolhido e devolvido jamais voltaria a quem perdeu. Não tinha interesses pessoais. Então restou a ele esperar que a pessoa voltasse. Só que temos a tendência de apenas reparar perdas na distância. Fará falta, causará uma certa tristeza, nada que a faça voltar, que a faça imaginar que foi ali naquele degrau que deixou cair seu brinco. Nem posso afirmar que ele tenha alguma história para contar. Objetos tendem a serem ligados à emoção, uma maneira nossa de polinizar vida. A madrugada seguiu em silêncio, a pessoa seguiu sem o brinco, e eu segui com a poesia me instigando. Quanta incoerência no desencontro do que está perdido sem poder ser achado.

Danilo Mendonça Martinho

Janela #6 – Por Poeta da Colina

Gosto da vista daqui. Fica comigo uma impressão de que posso me acostumar a ver a vida crescer das beiras destas janelas. Prefiro a visão da cozinha, pois foi a primeira que vi e talvez só não tenha percebido que o futuro estava atrás de algum prédio. Enxergo como se fosse real a penumbra da manhã onde por trás das persianas entreabertas, segurando minha xícara, tomaria meu chá escondido no silêncio que só o nascer do dia tem. Sinto teu abraço e teu beijo de despedida. A expectativa de voltar, os sabores de ter um lar. O mais interessante desta janela é, ao olhar para fora, perceber que a alegria está aqui dentro segurando essas paredes, entender que uma casa se faz de sentimentos, e uma fortaleza não tem trancas, tem força de vontade. O amor são os quadros na parede, os mimos, o que faz deste lugar algo de único. Sinto tudo isso como se fosse agora, como se já fosse real, e me vejo tão claramente neste espaço que parece que isso já é o dia de amanhã e só minha razão ainda não sabe. Você me traz essas certezas, na verdade o “nós” que me indica o caminho certo. Sei que logo me pegará estático em frente às janelas, inspirando novas palavras e não vejo a hora de exalar essa felicidade e todos outros sentimentos que aprenderei. Sem dúvida que tem muita coisa nessa nossa vida ainda sem nome, anseio por essa saudade de tudo que ainda não conheci. Essas vistas trazem sem esforço o meu recorte favorito: o concreto, a natureza e um pedaço de céu. Quantas tardes não passei admirando essa união… Tem certos sinais que só dá para entender no agora. Na convergência da realidade com o sonho, vou debruçar no parapeito, sussurrar ao infinito, contar que tudo anda bem, que estamos construindo uma vida bonita aqui dentro para poder refletir o bem aí fora. Gosto muito do que vejo daqui.

Danilo Mendonça Martinho

Janela #1 – Por Poeta da Colina

Quando dei meus primeiros passos por aqui, no Retratos da Alma, acreditei que nada faria mais sentido do que criar alguns retratos da vida, pelo menos da vida que vejo daqui. Desenhei com algumas palavras, dentro de molduras que encontrei, os quadros da minha rotina. Passado o tempo, rompi com os limites, a vida expandiu para o universo e só podia caber no horizonte, este lugar que mistura o presente com o infinito. Joguei tudo que sentia nesta junção, projetando todas ideias com a esperança do para sempre, do encontro, do sonho, do amanhã. Hoje volto a desenhar limites, mas estes são apenas imaginários. Há algo de peculiar nas janelas, elas são apenas um recorte. Elas não eliminam o todo, não ignoram o horizonte, apenas escolhem um ângulo para olhar. Um quadro pode ter mil e uma interpretações, é verdade, mas uma janela, por mais vezes que se olhe para fora, do mesmo lugar, todos os dias… ela muda completamente.

Morava no segundo andar. Quando me deitava na cama, com a cabeceira contra a janela, conseguia, de canto de olho, ver um pedaço do céu, uma árvore e o prédio vizinho. Sempre adorei este recorte que reunia o sonho, a sensibilidade e a realidade. Não posso me esquecer de nenhum deles, caso contrário me enganarei por certo. Quando olho para fora, espero que quem olhe para dentro, mesmo que não goste, encontre algo verdadeiro. Pois este ano estarei aqui repousando meu rosto contra o parapeito, minhas mãos através das grades, em um dos lugares mais sinceros e próximos do mundo que encontrei. A cada encontro, sempre sei que lá fora mudou tanto quanto aqui dentro. Hoje já é madrugada, só estrelas arriscam sussurrar, pois deixo meu suspiro na imensidão sem nome. Olho para o céu e para o horizonte e por ora me parece que há mais universos aqui embaixo… ah, se eu pudesse me debruçar em cada janela.

Danilo Mendonça Martinho

Horizonte #13 – Por Poeta da Colina

Todos os anos me desanimo. Não sei se é peso, se é tristeza, se é cansaço ou até mesmo superstição. Mas a cada ano novo da minha vida entro em uma fase de não querer saber, de não me importar, não decidir. A comemoração envolve tanto do meu esforço de espírito e tantas vezes me decepciona por não ser como eu quero, que sempre penso em desistir. Nunca o faço, às vezes até fico feliz, mas conforme cresço fica mais difícil. Hoje tenho mais certezas dos meus desejos e sei que não vou realizá-los. Tudo fica aquém, qualquer que seja a possibilidade. Chovem alternativas e no meu olhar tudo parece menos. A expectativa é o que mais me incomoda, pois o significado da presença reside na minha mais alta estima e assim toda ausência dói. Já basta a idade e os cumprimentos falsos, os sorrisos que temos que manter. Achei que tudo passaria, mas aparentemente não há idade que te prepare para sinceridade pura. Uma coisa é verdade: no último mês, as coisas, os dias se arrastam mais do que posso aguentar. O fim do lado de cá é bem amargo. Este ano novo de vida parece o encontro de todos os prazos que nos impusemos e não cumprimos. Um prato de desgosto. O interessante é que depois requentamos tudo para o ano que vem.

Pois bem, vou jogar tudo fora. Cansei destes mesmos sentimentos todos os anos que passam na minha história. Quero tudo novo, quero um horizonte, algo de infinito sabor que muda todos os dias. Não sou o mesmo e meus sonhos não podem ser. Se é para ter coragem, que seja para abandonar este ideal que não sou. Planos estão sujeitos ao fracasso, desejos ao desencontro, não há motivos para recalcular ou renovar esperanças, esta data que se aproxima pede fim. A única coisa que vou levar é a vontade de ser feliz. O resto vem com a maré, nas intempéries do tempo, no improvável da vida. Vou derrubar todo esse andar, preciso de algo que sustente, não que me iluda. Construir uma história às vezes exige voltar atrás. Chega de renovar, é preciso enxergar um novo lugar para ir.

Danilo Mendonça Martinho

Horizonte #12 – Por Poeta da Colina

O menino provavelmente muito mais novo do que eu. Enxerga a vida cabisbaixo, sem interesse, sem ambições, em uma mistura complexa de inocência e realidade. Permanecia parado, encolhido, triste, certamente calejado. Não é a primeira vez que o encontro recostado contra a parede esperando, nesse caso não o trem, mas o ônibus, mas é outro que também já vem. Talvez seja demais presumir algo de sua índole, da sua rotina, do seu interior. Mas há algo no olhar dele inegável: a vida não tem sido fácil. Talvez não saiba ler, talvez passe fome, talvez seja explorado… não sei. Sei que provavelmente saíra há pouco da escola. E foi o seu olhar que notou minhas roupas, meu casaco.

Não sabia dizer se queria ter, se era apenas um olhar tímido admirado, ou ainda uma ideia de injustiça. Ninguém pode negar esses sentimentos a ele. Ele sente na pele as exclusões sociais. Ele sente na pele a história de sua etnia. Ele sente na pele as consequências da sua condição financeira. No seu rosto um aparente cansaço, desistência talvez. No seu olhar profundo me perderia em angústia. Quase ali mesmo criei uma dor igual para amenizar, mas volta e meia entendemos, ou pelo menos vemos, todo outro lado que existe para que a gente possa existir.

E como estender a mão, acenar um sorriso? Como ser gentil? Como ser solidário ao mal que causou? Esses olhares perdidos só têm a eles mesmos. O que pode salvar é alguém no caminho, alguma história que ouve, qualquer fio de esperança. Se eles conseguirem se agarrar a isso, eles vencem, eles mudam, eles crescem na vida. Mas são brechas tão pequenas que nem todo mundo vê, nem todo mundo alcança, nem todo mundo consegue segurar. E é só isso que ele tem, meia chance, para vontade brotar de dentro, sonhar e buscar e sorrir. A verdade é que não sei os sentimentos que tinha no seu olhar para mim. Mas por um momento empatizei com tudo que sentia na pele e agora rezo para que não sinta a mesma coisa na alma.

Danilo Mendonça Martinho