Tinha que ser você… – Por Hélia Barbosa

Gosto de olhar para o calendário e ver os dias passando, num ciclo infinito. Porque isso me faz pensar que essa coisa toda de contar os dias é só uma convenção. E que a vida, na verdade, é absolutamente contínua.

Assim, olhando os dias, fico pensando em quanto tempo estamos juntos e em quanta coisa intensa a gente já viveu. Parece clichê, mas eu realmente não consigo me lembrar muito bem de como era tudo antes de você chegar e, de repente, tornar-se parte de mim.

A minha vida não começou a existir apenas quando conheci você. Mas ela passou a fazer muito mais sentido depois que você chegou.

Gosto quando você finge que não está nem aí e, no entanto, fica fazendo sempre tudo para me deixar feliz. Gosto do seu jeito de me puxar pro seu abraço, quando eu resolvo me sentar mais afastada, em frente à televisão. Gosto da sua mão buscando – automaticamente – a minha, quando a gente sai na rua, seja lá pra fazer o que for. Gosto do seu ciúme disfarçado e do seu excesso de proteção escancarado. Gosto da sua mania de nunca sair sem me dar um beijo e sempre me beijar novamente, logo ao chegar.

Gosto de pensar nas coisas que você já fez pra me agradar (como no dia em que rodou pelos bairros em busca do buquê de flores que queria me dar, até encontrá-lo em uma floricultura tão próxima do meu trabalho, que dispensou o entregador e foi levá-lo pessoalmente).

Agora eu entendo porque os meus romances passados, que pareciam ter tudo para dar certo, nunca conseguiram vingar. Eles estavam só me preparando para o melhor, que é você. É porque tinha mesmo que ser com você.

Eu queria poder guardar seus beijos em uma caixa dourada, para poder senti-los toda vez que você tiver que se afastar. Em vez disso, guardo-os na minha boca, no meu corpo, na minha mente. E sinto você aqui comigo, mesmo quando você não está.

“É, só tinha de ser com você
Havia de ser pra você
Senão era mais uma dor
Senão não seria o amor
Aquele que a gente não vê
O amor que chegou para dar
O que ninguém deu pra você”

(Tom Jobim e Elis Regina – Só tinha de ser com você)

Hélia Barbosa

Enlace… – Por Hélia Barbosa

 

Era um dia luminoso de maio quando um amor doce chegou, despretensiosamente, em minha vida. Foi tudo obra de uma conjunção de fatores e estranhas coincidências. Ou o resultado de diversas decisões e escolhas. Ou o destino. Ou coisa de Deus.

Eu não procurava por ele, ele não esperava por mim. Mas o amor é este sentimento rebelde mesmo, que parece se esconder quando o buscamos desesperadamente. E se insinua insistentemente, quando não estamos nem pensando nele.

Talvez seja apenas uma artimanha, esse jeito de nos pegar desprevenidos.

E me pegou.

Quando me dei conta – antes que eu pudesse pensar, negar ou tentar escapar – estávamos ali, risadas gostosas, olhos nos olhos, meu rosto refletido na cor indefinida do seu olhar. E quando a mão dele tocou, sem querer (será?), na minha, eu não podia imaginar que, muito mais que mãos, bocas e pernas, eram nossas vidas que estavam se cruzando, se juntando, se emaranhando, num grande e infinito laço.

De repente, caiu por terra toda aquela discussão sobre o que é paixão e o que é amor, se o que importa é o desejo ardente ou um sentimento suave e constante.

Porque foi, então, aquela mistura de arrepio na pele com o aconchego de um abraço. A combinação do cheiro da loção pós-barba no quarto com o aroma do café coado vindo da cozinha. O encontro do fogo que arde com o sossego da alma. Bem assim, se fosse resumir o que se tornou esse amor, que chegou. Tudo isso com pitadas de alegrias, tristezas, rotina, dor, saudade, raiva, dúvidas, medo, vontade de largar tudo, certeza de querer ficar pra sempre. Tudo junto e misturado.

E porque, um dia, Deus (o destino, as escolhas, as coincidências…) colocou esse amor no meu caminho, eu, que nunca confiei em príncipe encantado nem em par perfeito, vi minha vida ganhar novas cores e um novo sentido, ao ser entrelaçada em outra vida.

E, logo eu, que nunca acreditei em romance eterno, desperto – todos os dias – desejando acordar em infinitas manhãs, bem feliz, ao lado dele.

“Meu coração pulou…
Você chegou, me deixou assim, com os pés fora do chão.
Pensei: que bom… Parece, enfim acordei!
Pra renovar meu ser, faltava mesmo chegar você…
Assim, sem me avisar, pra acelerar
Um coração que já bate pouco…
De tanto procurar por outro, anda cansado.
Mas quando você está do lado, fica louco de satisfação!
Solidão, nunca mais…”

(Tunai – Frisson)

Hélia Barbosa

Pra te sentir aqui…- Por Hélia Barbosa

Aceite esse meu poema torto,
Confuso como o meu coração
E desconexo como os meus sentimentos,
Já que ele é o único modo que encontro
De chegar até você.
Aceite essas linhas que escrevo
De forma tão despretensiosa,
Já que nossos mundos, opostos,
São como paralelas
Que nem no infinito
Conseguem se encontrar.
Aceite minha poesia sem rimas,
Como nossas vidas, distintas,
Distantes do nosso querer,
Já que os nossos desencontros
Nos levaram por caminhos
Tão diferentes
Do que planejamos trilhar.
Aceite essas minhas palavras,
Que são suas.
Deixe que elas lhe toquem,
Que o acariciem
E beijem lentamente sua boca,
Já que, por nossas decisões
E escolhas
Foi a única forma que achei
De te amar
E te sentir comigo
Outra vez.

“Você foi o melhor dos meus planos
E o maior dos enganos que eu pude fazer.
Das lembranças que trago na vida
Você é a saudade que eu gosto de ter.
Só assim sinto você bem perto de mim
Outra vez…”

(Roberto Carlos – Outra vez)

Hélia Barbosa

Quando o amor acontece… – Por Hélia Barbosa

Eu não me apaixonei por você à primeira vista.

Pra ser sincera, eu não o achei nem “bonitinho”, à primeira vista.

Pra ser mais sincera ainda, eu nem sei quando foi essa tal de primeira vista. Porque, na primeira vez em que te encontrei, você passou totalmente desapercebido pra mim… Meus olhos estavam voltados para outro olhar. E você passou, assim, como passam pela gente esses dias vazios, dos quais não guardamos nenhuma lembrança.

Não sei se você olhou pra mim, se me achou interessante, se me achou bonita, se seus olhos ficaram pousados nos meus – que estavam tão distantes!

Só sei que você foi entrando na minha vida e adentrando o meu coração, com aquele jeitinho de moço quieto, que só você tem.

Tão sutilmente que, quando dei por mim, já vivia cantando pela casa. Já me via mergulhada no infinito que cabe em seus olhos. Já estava sorrindo a cada vez em que falava seu nome. Já estava vigiando o telefone, esperando ouvir sua voz. Já me via parada na frente do computador, só esperando que a luzinha verde indicasse que você estaria chegando ali e me dizendo aquele “Boa noite, minha flor”, que me iluminava inteira.

Eu faço mil planos pro nosso futuro, sonho com nossos filhos, todos com os olhos iguaizinhos aos seus. Talvez nada aconteça, mas meus dias ficam mais lindos quando penso que a nossa história de amor vai dar certo.

Acho que você não tem noção de tudo o que provoca em mim. E eu fico me perguntando se também provoco tudo isso em você. Não sei ainda se eu represento tanto pra você quanto você representa pra mim.

Na verdade, eu não sei quase nada.

Mas, lá no fundo, tenho aquela certeza – que só os loucos sonhadores conseguem ter – de que, se tivesse que escolher infinitas vezes, em todas elas eu voltaria a escolher você.

“Não sei se o mundo é bom
Mas ele está melhor
Desde que você chegou
E perguntou
Tem lugar pra mim?…”

(Nando Reis – Espatódea)

Hélia Barbosa

Do que não se explica… – Por Hélia Barbosa

Não sei bem como explicar isso. Sei que é uma coisa que sinto. Eu só sei sentir.

Também acho que ninguém vai entender e, por isso, evito comentar. Quase nunca falo disso.

Acontece que, mesmo depois de tanto tempo juntos, às vezes me vem, de repente, uma onda de amor tão grande por ele!

É bem assim mesmo: uma onda enorme de amor! Por ele!

Chega assim, do nada. É quase palpável.

Eu me sinto inundada por esse bem querer de uma forma que não sei exprimir. Só sei que me dá aquela vontade de dizer:

– Nossa…. eu te amo tanto!

Nem sempre eu digo. Às vezes, apenas olho pra ele e sorrio.

E ele me beija e me embala em seus braços de um jeito que não me deixa a menor dúvida de que ele está me dizendo:

– Te amo demais também, minha linda…

E porque ele diz que eu sou linda, então eu me sinto linda e parece que o mundo me acha linda também…

Porque ele tem uma influência enorme sobre o meu humor e sobre o meu sorriso.

E, a despeito de todas as mazelas do mundo – e das milhares de pequenas chateações dos meus dias – ele continua provocando os sorrisos mais lindos em mim.

A minha vida é mais linda porque um dia ele chegou de mansinho, fez seu ninho, sossegou e ficou.

“E as coisas lindas são mais lindas
Quando você está… onde você está…
Hoje você está
Nas coisas tão mais lindas…
Porque você está
Onde você está…
Hoje você está
Nas coisas tão mais lindas…”

(Nando Reis – As coisas tão mais lindas)

Hélia Barbosa

Depois daquele beijo… – Por Thelma Ramalho

Nesta sexta-feira, temos o privilégio de receber a querida Thelma Ramalho!

Seja muito bem-vinda!

Depois daquele beijo…

Um dia, eu era uma mulher com a vida definida: passado, presente e futuro, tudo cheio de regras, caminhos já conhecidos. No outro, eu era uma adolescente, uma volta ao passado, onde tudo era sonho, ilusão, o desconhecido com possibilidades…

Foram dias de escutar palavras soltas em meus ouvidos, dias de dor na barriga de tanto desejo, dias desconhecidos com aquele ardor que não parecia pecado e sim um destino a ser cumprido. Horas perdidas em pensamentos que não deveriam estar ali (?).

Em nenhum momento, senti que seria proibido, mesmo que isso contrariasse um juramento feito no altar.

Parecia tudo tão natural, e eu pensava: “Se fosse pecado, por que Deus me colocaria um sentimento tão forte no meu coração?”  (porque o pecado presume uma existência divina…).

O que era pecado para uns, para mim era algo certo. O meu destino. A minha escolha. Estaria escrito?

Assim, num final de tarde, recebo um telefonema, coisas de amiga que quer bancar cupido ou interferir na vida da outra. Ao querer evitar um pedido de casamento em vão, mudei a ordem natural do que eu tinha estabelecido como vida.  Ele me olhou tão dentro dos olhos, de uma forma tão intensa, penetrante, que falei: “Menino, não me olhe assim!”.

E então, o mundo parou, o tempo da minha vida estava ali, naquele segundo em que senti a sua boca na minha e, de tão inesperado, não retribuí…

Foi o primeiro beijo roubado da minha vida!

Minhas pernas tremiam, foi exatamente igual ao primeiro beijo! Tudo, o tremor das pernas, o não saber o que fazer durante e depois, a desorientação dos sentidos, a emoção juvenil de ternura, medo e desejo!

Tal como a Bela Adormecida, o meu conto de fadas começou com um beijo que me despertou de um sono de cem anos.

Seríamos felizes para sempre?

Pensar não era permitido, mesmo para quem costumava ser tão cerebral. Planos foram substituídos por momentos vividos intensamente e, então, eu soube o que era viver…

Quando o futuro não é permitido, fica mais fácil novas aventuras.

Rasguei papéis, mudei de cidade, fugi de casa, abandonei a mim mesma e encarei o mundo.

Foi um tempo de aprendizado e de lutas silenciosas; o desconhecido assusta e o medo te faz ir adiante seguindo os instintos. Nas horas mais difíceis, a lembrança daquele beijo roubado trazia o frescor dos primeiros tempos.

O encantamento de amor é inebriante, pois nos impulsiona a sonhar acordados e cometer as mais doces loucuras na vida. Mas, o que seria da gente se não fossem esses momentos?

Porém, como toda magia perde seu encanto, a realidade um dia se fez presente: as cores vibrantes permanecem, mas a vida pede passagem. O homem é feito de rotinas e compromissos – e viver sem rótulos tem seu preço, que muitas vezes pode ser alto.

E agora, como faz para viver fantasias no mundo real?

Quem é Thelma?

Thelma Ramalho é paraibana de nascimento, arquiteta por formação, produtora da banda de rock Zefirina Bomba por paixão… Ama Elvis, Beatles e Rolling Stones. “Uma mistura de Emily Dickinson e Janis Joplin.” Cola poesia em retalhos no seu blog “2 e dois são cinco”.

Sorriso – Por Rosamaria Roma

Ele sorriu. Ela notou. Um sorriso fácil, emoldurando aquele rosto barbado.

Ela sentiu a magia dos seus males desaparecendo, que sua alma estava curada, que algo estava aflorando…

Percebeu que existira ali um encanto que iria transformar-lhe a existência inteira.

Notou que aquele sorriso bobo acabaria com toda tristeza guardada, colocando cores em sua vida.

Mas, como justificar que tal sorriso tolo causava total ausência de sofrimentos?

O que havia naquela curva que fazia renascer a esperança? Afinal, era apenas um sorriso…

A moça só não sabia que, além de lhe propor o sentido bom da vida – ele havia se tornado uma extensão dela.

Rosamaria Roma