Para não dizer que eu não disse – Por Betina Pilch

Não direi que a falta de palavras doces me amarguram, tampouco que o silêncio me incomoda. Não direi que o vazio me angustia, não direi que estou perdida, nem mesmo que me encontrei. Não quero dizer nada, se não o que não direi.

Não direi que a vida é dura, nem que é fácil. Não direi que sentir demais me sufoca, tampouco que me afogo nos meus transbordamentos de mim. Não direi que não sentir tem sido ruim. Também não direi se entendo o começo, o meio ou o fim.

Não direi que não aguento mais os meus clichês, também não direi que os suporto. Não direi que estou indiferente a tudo, tampouco que me importo. Não quero dizer, dizer não quero, mas é preciso ficar dizendo com ou sem esmero.

Então, direi tudo sobre nada, mas não direi nada sobre tudo. Iluminarei minhas trevas, mas não acenderei uma luz no meio do escuro. Preciso dizer o que não direi, porque até mesmo calada vivo dizendo. E os dizeres que nada dizem acabam dizendo tudo.

Digo, digo, digo e, às vezes, esse amontoado de dizeres nada significam. Então pode ser que algo sem significado acabe significando muito, pelo menos uma vez. Talvez, quem sabe, um dia eu não saiba mais nada. Não que eu saiba algo agora, mas vivo achando que sei. Então, não direi sobre aquilo que tenho certeza. Prefiro apenas dizer sobre o que não quero dizer.

E quero seguir assim, vivendo sem dizer nada, com a brutalidade das coisas não ditas sem ser trancada, apenas trilhando essa estrada com as palavras lapidadas bem guardadas, aqui, dentro de mim.

Betina Pilch

Os muitos símbolos da escrita… – Por Lunna Guedes

Tenho alguma dificuldade – quem convive comigo sabe… – em compreender certas palavras e, também, seus significados. Por isso, sempre acho graça quando as pessoas citam a ausência de “sotaque” em minha fala…

O problema começa a existir quando alguém faz uso de regionalismos, tais como a expressão: “rainha da cocada preta”. O único desenho que se forma em minha mente acerca dessa insólita combinação é o de uma mesa cheia de doces feitos com açúcar e côco e, ao lado, a Rainha Elizabeth com coroa e cetro.

Confesso que, mesmo depois da explicação a mim oferecida, a figura não se desfez… e eu continuei a vislumbrar esse cenário curioso e inusitado. Fico observando horizontes, enquanto em minha face se desenha um belo ponto de interrogação imaginário.

Não é nada fácil, e quem sabe outros idiomas deve compreender a minha dificuldade… mas existem outros dissabores, uma vez que, enquanto “estrangeira”, o  meu idioma raiz – no caso, o italiano – tem grande força em minha mente. Na hora do desespero, sobram palavras conhecidas, enquanto todas as demais simplesmente desaparecem. Eu respiro fundo, permaneço em silêncio, exibo qualquer coisa de sorriso nos lábios e tento – sofregamente – recuperar o fôlego… mas, acima de tudo, as palavras.

Porém, algumas delas me escapam e simplesmente não fazem sentido: cuore, amore, farfalla… são alguns exemplos sem sinônimos em outras línguas. Coração. Heart. Amor. Love. Borboleta. Butterfly… não têm a sonância desejada e tão necessária para dizer o que desejo. São vazias e não interpretam o que tenho dentro de mim.

E isso acontece com muitas outras palavras. A tal da saudade que, segundo dizem, só existe em português, por exemplo… tem outro sabor quando digo em italiano, faz o sentimento parecer mais denso e terrível, como tanto gosto. Saudade é palavra leve para mim. Prefiro a minha: “che nostalgia”, que fala em falta, como quando dizemos, em meio a um suspiro: “mi manca lei”.

Uma das palavas que mais me incomoda é: “querida”… sempre me lembro de uma canção do Jobim, que dizia: “Longa é a tarde, longa é a vida / De tristes flores, longa ferida / Longa é a dor do trovador, querida”… mas isso não me impede de sentir-me desconfortável quando a ouço, ainda mais se for numa clara referência a mim. O significado da palavra não faz eco em minha anatomia e, ela parece vir acompanhada de um insuportável peso. Soa como uma faca a cortar enquanto há carne. Mas, dita em francês: “chèrie”, parece um afago feito com o cuidado necessário.

Palavras, para mim, são desenhos de imagens… acontecem primeiro aqui dentro, como uma fotografia sob o móvel da sala, levando-me ao encontro de coisas que me foram gratas – gentis ou não –, são símbolos antigos, referências a minha infância… Por isso, é preciso fazer sorrir, chorar, suspirar. É preciso ter aroma, tal qual uma xícara de café ristretto!

Lunna Guedes

Cotidiano e Dicotomia – Por Cláudia Costa

“se a tua fome for feito a minha
de palavras e (in)quietudes
faz como eu então
bebe os silêncios
em goles profundos
e o verso: rumina lentamente”

– Nydia Bonetti

Um costumava ser luz, vibrante, exagerado, pura galhardia. O outro, fechado, sombrio, silencioso, pura rebeldia. Internos, diferentes entre si e profundamente parecidos nas dores, nos sentidos, nos desejos. Encontraram-se por acaso [?] do destino. Dispararam vivências, sonhos, derrotas e concretudes. Olharam-se com brilho. Perceberam-se possibilidade. Remota… mas, ainda assim, possibilidade. Viveram. Aprenderam a respirar o ar um do outro, fingindo interesses, disfarçando animosidades, minimizando desejos, apegando-se aos desafios corriqueiros: “só por hoje”…

Escravos de si mesmos, presos em seus castelos de ilusão, negavam-se obviedades, fazendo da superfície o único lugar possível para convivência. Algozes entre si, mutilavam sentimentalidades, distanciavam doçuras, em troca de cordialidades. Guardavam as facas afiadas da frustração e do desamor, num apego tão insano quanto concreto. Não queriam abrir mão das palavras proferidas como juras no início. Volúveis e arrependidos, rogavam preces mudas ao tempo, para que houvesse um reencontro e não um fim.

Náufragos de relacionamentos anteriores, agarraram-se como bote salva-vidas. Salvaram-se… por algumas horas, que viraram dias… meses… tempo… Passado o tormento inicial, retomaram suas personas costumeiras… um para fora demais, movido a palavras, gritos, risos, atitudes… o outro, encolhido, escondido, sorrateiro… Desencontraram afinidades, dando espaço para interpretações amplas… toleraram diferenças, até perderem-se no vão de seus silêncios respeitosos.

Morreram.

“Ama-se o outro pelo modo como utiliza suas facas.”

(Autor desconhecido)

Cláudia Costa

Palavra certa – Por Joakim Antonio

Às vezes uma palavra basta. Para acalmar as dores do mundo, atingir o eu, ser colo para os amigos, abraçar ao longe, silenciar a mente e abrir o coração. Um oi inesperado, ou um adeus esperado, trazendo de volta o sorriso nos olhos, dependendo da situação.  

Outras vezes precisamos de mais palavras. Para começar a nos fazer entender, antes de colocar os pés pelas mãos e falar tudo no momento errado, inflamando em vez de acalmar, ao concordar com, ou até dizer tudo que os outros apregoam ser o normal.

Mas, muitas vezes, também, a palavra certa é muda. Para que sejamos verdadeira presença, falando através de um abraço, de um olhar, da mão estendida, sendo o colo que a palavra não consegue dar no momento. Pois, diversas vezes, o que nós precisamos é do silêncio que saiba ouvir.

Um oi a tudo que é bom, um adeus a tudo que nos faz mal.

Joakim Antonio

Um Cântico – Por Ingrid Caldas

Longe de mim, ventos e ironias
aninharam-se – impiedosamente
rasgando o ventre inquieto
pleno de desejo – velho…

Nos lábios rasgados
nos olhos baços
um cântico me guia
por noites inexploradas…

Profunda melancolia
que envolve qual redemoinho
um coração vazio
a desfalecer…

Nesta melodia incansável
um rodopio entontece
despertando na solidão
o suor e a dança…

É uma certeza que busco
amando o abismo
que minha loucura
impiedosamente impõe…

Ingrid Caldas

de: nada, para: ninguém. – Por Betina Pilch

Pela primeira vez na vida consigo entender que estou realmente sozinha. Sozinha, caída, perdida. Pouco a pouco fui sendo dissecada, tudo foi tirado de dentro de mim e fiquei completamente perturbada. Logo o silêncio tomou o lugar daquele eu cheio de sentimentos histéricos. O outono me secou e agora apenas espero pelo inverno cadavérico.

O brilho prateado e frio da esperança se apagou, junto com os planos que a vida cancelou. Os meus sonhos o mundo resolveu sepultar e, diante desse túmulo, hoje estou sem saber onde chegar. Dei as costas para tudo aquilo que eu tive um dia e hoje vago completamente perdida.

Desnorteada e em choque demais para continuar, percebo que me transformei  em um imenso nada. Um nada que naufraga em um mar que não leva a lugar nenhum. E, enquanto me afogo em minha própria solidão, sou perseguida por essa ferida ardida causada pelas batidas do meu coração. Esse coração dolorido que se perdeu e sem sentido endureceu.

Descobri da pior forma que se perder é o modo mais triste de ver todos os sentimentos falecerem. Eu me perdi e junto comigo se perdeu tudo aquilo que eu sentia – porque o (senti)do me lembrava de que sentiu um dia e a (perdi)ção apenas grita que eu perdi de vez. Tento tapar os ouvidos e esquecer que sou uma derrotada, mas a derrota é do tipo que não perdoa e dia-a-dia me mata.

A morte sádica olha pra mim irônica e sorri maliciosamente, lambe minhas feridas e gargalha, dizendo que estou sozinha novamente. E em troca dou a ela meu melhor sorriso salgado, banhado em todas as lágrimas que eu poderia ter chorado.

Não tenho para onde ir e, mesmo que tivesse, meu pessimismo não iria permitir que eu me movesse e fosse para algum lugar. Já não tenho nem a mim e até o fim resolvi fugir para não deixar que eu tivesse pelo que esperar.

E, enquanto estou parada, cansada demais para procurar uma linha de chegada, o tempo me vence e sou esmagada por um amontoado de nada. De fato, hoje sou uma remetente doente, que se remedia com palavras destinadas a ninguém. Percebo que sou feita de faltas: falta de mim, falta de vida, falta de alguém.

Sobre a autora…

Uma menina que se perde e se encontra no meio das letras. Que se esconde e se acha no meio das rimas. E que vez ou outra, ao escrever, percebe que dentro dela ainda existe vida.

Blog: Criticamente Poético

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Silêncio – Por Catia Netto

Quando vires um olhar que te faça sorrir em pensamento, serei eu.
Nos olhos  ausentes estará guardado todo encanto.

Toda vez que teu sono fugir na madrugada, mais uma vez serei eu.
Naqueles sonhos juvenis, sem nexo e que deixam boa impressão.

Sempre que esqueceres o que ias falar, somente eu estarei ali.
Palavras que deixamos de dizer e frases inacabadas nos discursos esquecidos.

Qualquer momento em que tuas mãos repentinamente ficarem vazias, verás a mim outra vez.
Serei o toque te falta, o afago que se foi, o vazio da partida de novo.

Impregnada  estarei nos olhos que não vês, no sorriso que se apagou, no sono que partiu,
na amnésia que se instalou, no toque que fugiu.

Somente eu.

Catia Netto