Janela #12 – Por Poeta da Colina

A dor de um amor instiga o conformismo de nossa alma. De aceitar pura e simplesmente o estado eterno de rejeição, de não querer mais nada, de entender que a vida é feita de uma única chance e que o amor que completaria seu destino saiu pela porta, sem jamais olhar para trás. O tempo pouco importa, mas as intensidades de uma relação é que fazem uma marca mais ou menos profunda. Algumas vezes conseguimos olhar adiante, outras só conseguimos olhar para dentro. Há uma noção, mesmo em nossa juventude, de conhecimento, de descoberta dos mistérios, de certezas sobre o universo. Deveríamos nos precaver, ou sermos avisados de que sempre há muito mais na vida para descobrirmos, há sempre muito mais do que temos controle. Estamos cada vez mais cedo cheios de si, acreditando saber tudo de que precisamos para enfrentar este mundo sem limites. A intensidade do agora é tão grande, que não sabemos viver de um depois. O sentimento de agora é tudo que pode existir e assim o carregamos para frente, para fora de seu tempo, cutucando nossa dor, na certeza que a vida é assim. Cada vez mais jovens estamos em situações muito além de nossa compreensão, muito longe do nosso conhecimento, e ainda sim vivemos, abraçamos e crescemos antes que o mundo nos prepare e as coisas se tornam altamente dramáticas, uma questão de tudo ou nada. É preciso negar aquilo que se tem de mais íntimo, jamais se conformar. Não aceite pura e simplesmente que a pessoa que te fará feliz e que completa seus sentidos viva na distância. Mas também não aceite que alguém que escolha conscientemente não estar ao seu lado prefira a vida só do que a chance a dois, que negue sentimentos; seja realmente o amor da sua vida. Todos somos merecedores da felicidade e não deveríamos nem por um instante nos contentar com menos do que isso. Há sempre mais além da dor.

Danilo Mendonça Martinho

Eminente – Por Daniela Lusa

A escuridão desta noite descreve melhor do que toda e qualquer palavra como sinto a minha alma — envolta por um delicado manto negro, que esconde de mim coisas que eu não suporto ver.

Sento-me no meio da rua deserta e sinto-me à beira do abismo de solidão que eu mesma criei. Parece que não vou mais aguentar o peso do meu corpo, acentuado pelo peso da minha consciência, que não me deixa em paz e me julga por erros que eu não quis cometer. Fecho os olhos e deixo o vento frio me punir, enquanto peço para levar embora toda a minha culpa. Os grãos de areia que surram a minha pele amortecem esta dor que carrego comigo e me faz pesar ainda mais. Pouco a pouco, sinto que vou cair… e caio.

Eu deito no meio do nada.

Olho para o céu e meus olhos quase se fundem à imensidão negra, manchada pelos raios que riscam o céu e ferem os meus olhos, tão habituados a esta completa negrura — que vem de fora e de dentro de mim. A penumbra me acolhe e me abraça e me conforta e me devolve um pouco da luz que eu mesma apaguei.

Vejo-me só.

Perco-me e viajo em pensamentos que se encontram em um destino comum: as lembranças de você aprisionadas na alma. A ebriedade da minha mente faz tudo girar ao redor e eu sinto vontade de vomitar você de mim. Meu peito pesa e dói, mas não consigo chorar. Penso demais e isso aumenta a minha dor… eu grito por socorro — “alguém me tira daqui!”  — mas ninguém me ouve, porque minha voz ecoa e se perde no silêncio que eu mesma pedi. Estou presa dentro de mim. Minha angústia cresce como aquela mancha mais escura meio avermelhada no céu, que traz consigo o anúncio de uma tempestade.

Eminente.

Não vou levantar, meu corpo precisa da chuva. Não posso sair, minha alma necessita se lavar. Para onde quer que eu fuja, não há abrigo para as tempestades interiores.

Eu me sento e choro de soluçar… caio em um choro sem fim.

E o céu desanda enquanto eu deságuo dentro de mim.

Daniela Lusa

Vida em branco e preto – Por Hélia Barbosa

Não se passa um só dia sem que eu pense nele.

Está em meus pensamentos logo que acordo.

Fico pensando em como ele está. Se está bem, se está feliz, se está com outra pessoa nesse momento.

E fico pensando se ele também estará pensando em mim. Essa é a principal pergunta que faço todos os dias, há tanto tempo, para mim mesma. Mas ainda tenho o mesmo medo da resposta.

O dia todo eu imagino que vou encontra-lo na rua, numa esquina qualquer. Ou que ele vai ligar no meio da tarde e dizer “saudade de você”. Eu sonho ouvir sua voz.

Toda noite eu sonho com o beijo dele, com suas mãos, com seu sorriso.

Mas é só isso. São só sonhos e mais não há.

Porque um dia eu percebi que havia chegado ao meu limite. Que não aguentava mais as nossas brigas, as suas idas e vindas, a minha insegurança. A estranha forma dele de gostar de mim. O meu amor desesperado e demonstrado exaustivamente. O meu medo de não ser amada. Medo de perdê-lo. E, por medo de não tê-lo mais, eu o deixei.

Foi por não suportar viver esse amor imperfeito e que não se encaixava nos meus sonhos e planos de um relacionamento perfeito, que eu resolvi fugir.

Foi assim que eu decidi seguir. Sem ele, a não ser em todos os meus pensamentos.

Não, não tenho dúvidas sobre minha escolha. Sobre viver essa vida, assim, sem luz, sem cor.

Afinal, ainda vivo. Mas cada batida do meu coração é um lamento de desejo, saudade e dor.


“Às vezes te odeio por quase um segundo, depois te amo mais!
Teus pelos, teu gosto, teu rosto, tudo… Tudo que não me deixa em paz!

Quais são as cores e as coisas pra te prender?
Eu tive um sonho ruim e acordei chorando, por isso eu te liguei…

Será que você ainda pensa em mim?
Será que você ainda pensa…?

(Cazuza – Quase um segundo)

Hélia Barbosa

Era uma vez… – Por Tatiana Melgaço

Era uma vez uma menina que conheceu um menino e, ao olhar nos olhos dele, imediatamente se apaixonou. Ela o quis com toda a sua força… até que um dia ele a quis também. E os dois, juntos, criaram um mundo… só deles e para eles.

E foram felizes a cada abraço apertado, a cada beijo de boa noite, a cada jura de amor eterno. Ela sonhava ter um bebê com os olhos e o sorriso dele, pois dizia querer aquela lembrança para sempre. Ele dizia ser ela a mulher de sua vida, a mãe escolhida para seus filhos.

Eles tinham um jeito só deles de brincar como crianças, de dormir como se fossem apenas um. Eram cúmplices. Ele a abraçava a cada trovoada, pois sabia que assim ela sentia menos medo. Ela o aceitava do jeito que ele era, o entendia e amava cada dia mais. Não tinha dúvidas da perfeição daquele “mundo”. Eles se completavam, tanto que chegavam a se parecer. Feito mágica.

Mas, como em toda mágica, um dia a ilusão acaba. O mundo perfeito mostrou-se frágil. Ele desejava conhecer outros mundos além daquele criado pelos dois. E assim o fez… e ela não aceitou. Hoje, ele possui um mundo novo, com outra pessoa.

Após muitas lágrimas, sofrimento e desilusão, ela criou seu próprio mundo, mas de uma maneira diferente. Dentro dele, há mais que uma “jura de amor”… Há amigos verdadeiros, pessoas indispensáveis e muito especiais, fé, esperança, respeito, coragem, compaixão e, também, lembranças… lembranças de um mundo que não deu certo.

Dele, dizem que o novo mundo é frágil e que ele não é feliz. Ela descobriu a felicidade sem ele e entendeu que, para ser feliz, não é preciso depender de ninguém… basta querer!!!

“E hoje a minha vida é um carrossel de alegrias

E como se não bastasse, estou amando de verdade

Me perdoa se eu me excedo em minha euforia

Mas é que agora sei o que é felicidade

Minhas lágrimas secaram

Meus tormentos terminaram

Foi uma nuvem que passou”

(Marisa Monte)

É urgente ser feliz! – Por Tatiana Melgaço

Aprendi que a vida é a arte da conciliação. Aprendi a ceder em várias situações para que tudo ficasse em paz. Aprendi a abrir mão de muitas coisas em prol do bem-estar de outras pessoas.

Fui criada cedendo, abrindo mão, vez ou outra me anulando. Certo ou errado, nunca me importei.

Hoje, me sinto roubada… e questiono minhas atitudes.

Onde estão meus sonhos e desejos? Já não sei mais. Talvez sejam ecos perdidos por aí…

Não suporto mais abrir mão de tanta coisa, priorizar e não ser priorizada.

Sim, talvez esteja num momento de revolta. Mas, de que adianta essa revolta, se quando tento, não consigo reagir, não consigo me priorizar? O medo de decepcionar e magoar o outro me domina…

Dentro de mim há uma voz que grita pedindo liberdade. Quero poder, enfim, ser livre para sonhar, desejar e realizar.

Sem medo de ser feliz tornando alguém infeliz!

Realejo – Por Tuka Okrent

Passamos por tantos momentos na vida! Vários flashes me voltam à memória: músicas, cenas, ações… Dia desses, me deparei com uma gaiolinha amarela de madeira, quebrada, jogada no chão, ao lado de uma pracinha onde sempre caminho com meu cãozinho.

Vou dizer que, naquele exato momento, parei, olhei… e olhei… e olhei… e as lágrimas caíam. Era um sentimento que não conseguia explicar. Fiquei muda!

Na minha memória, vinha somente aquele pôr-do-sol de domingo, eu com o meu avô, lá no Jardim da Luz, correndo para ouvir aquela musiquinha. Essa era a rotina: ver o periquito, depois brincar no parquinho, em seguida rolar na grama com meu avô de braços dados, finalizar tomando um sorvete e ir embora! Sempre nós dois juntos!

Eu ficava encantada com aquele periquito… Só não lembro o nome dele, mas sempre que o via, meu avô dava uma moedinha para o moço, que girava uma manivela, o periquito saía, puxava um papelzinho, e ainda dava uma bicada para confirmar se era realmente para mim aquele papelzinho. Eu entregava ao meu avô para ele guardar, via um monte de gente em volta esabia que o periquito era especial. Depois, continuávamos o passeio.

Em casa, meu avô lia para mim o que estava escrito no papelzinho. Eu acreditava. Guardava o papelzinho como se fosse um tesouro para não perder. Sempre falava sobre coisas boas, bonitas.

O periquito ficava num realejo, nome de uma caixa musical feita artesanalmente. A maioria foi construída há mais de 200 anos. Originalmente da Europa e desenvolvido em diversos tamanhos, foi trazido ao Brasil no início do século passado e, ainda hoje, mantém a sua tradição folclórica. O realejo contém até 8 tipos de músicas. O artista aciona um dispositivo, gira a manivela e, então, ouvem-se as músicas. Logo, o periquito (pássaro de estimação) tira uma mensagem da sorte para a pessoa.

Não existem mais fabricantes para essa raridade. Quem as têm, guarda à sete chaves e cuida muito bem desse instrumento. Com o passar dos anos, essa tradição folclórica foi diminuindo, mas atravessa gerações.

Há um lugar com o qual eu sonhei… Se existe, eu não sei, mas é longe daqui…

Infância – Por Marília de Souza Lopes

E então começa a saga de uma figurinha que adorava se juntar aos velhos e ouvir os causos…

Diziam que eu era uma velha com corpo de menina… Nunca me misturava às crianças para brincar, a não ser que fosse brincadeira séria (a panha do cacau… o pisoteio das amêndoas de cacau numa dança muito estranha e debaixo de muito sol)…

Sempre ao som de uma viola caipira tocada pelo “Seu Loro”…

O anoitecer nas varandas de vários lugares… ouvindo sempre os mais velhos… tentando achar sentido nas histórias…

Posando de figurinha forte e destemida… Mas era só passar um morcegão (daqueles grandes, que só comem frutas) para o medo aparecer…

Chá na noite fria, luz de candeeiro, olhos se acostumando à escuridão… as palavras fanhas de uma tia-avó que preparava o cardápio do dia seguinte…. “Para o café da manhã, vamos ter fruta-pão, cuscuz de milho e leite mugido com café…” Sim, eu me encontrava no paraíso…

Cedo da noite, eu tomava banho e o cheiro do verdadeiro cacau estava tão entranhado na carne que nem saía  (mesmo que fosse “banho de caco de telha”), mas era gostoso dormir com o focinho enfiado nos lençóis…

Nos primeiros raios de sol, eu ouvia o “Seu Loro” me chamar baixinho pela janela… “- Sinhá minina, vamu pra lida c’os bicho?”

Era hora da ordenha… e eu sempre tomava um copo a mais de leite…

Voltávamos só com o leite que daria para os 8 filhos dele, meus 4 primos, eu e meus irmãos… e para os adultos??? Não… adulto não gostava mais de leite… nem queria crescer…

E aquele café da manhã de roça… Ah, que saudade…

Minha irmã tomava posse de metade do cuscuz, que deveria servir mais um monte de pessoas… mas ninguém ligava… era divertido ver a voracidade com que ela comia, como se fosse a última refeição… Eu e meu irmão comíamos fruta-pão… café com leite… e saíamos em disparada, passando pela fruteira… “vamos!”

Curral, cocheira… atrelar os bichos para ir à outra fazenda… caçar jaca e jambo… Encher os balaios de cacau…

Meu irmão já ficava distraído (ele até hoje é assim…) e ia acertar calango com estilingue… Parou com a graça no dia emque eu falei que o próximo ele ia ter de comer, porque na minha frente só ia caçar quem precisasse de comida… (muita petulância para um toquinho de 9 anos!!!)

Dito e feito: cozinhei o tiú que ele caçou… a família caçoando dele… Ele comeu, passou mal e guardou o estilingue… eu levava a sério a vida de aprendiz de roceira…

Na realidade, era tão mais fácil cuidar de bicho… eles não mentiam… Se fosse para atacar, era sempre de frente… ou de lado… Várias marcas no corpo… e eu sempre voltava com histórias mirabolantes de tantas aprontadas…

Era uma criança criada solta… nada de “criança de granja” criada em gaiola, que nem sabe que leite vem da vaca e não da caixinha… era banho de rio… era coice de mula…

Eu gostava de voltar para casa… encontrar pai e mãe prontos para ouvir as peripécias de viagem… irmãos reclamando que eu era uma velhota que ficava em volta do fogão à lenha ou na lida dos bichos… nunca queria ficar perto das crianças…

E lá vinham pai e mãe abraçar e falavam “Deixa a nossa velhota… ela é assim e a gente gosta de vocês todos!”

E a diversão virava escola… olhares estranhos de colegas nem tão colegas assim… mas iamos vivendo, sem nem ligar muito…

Planejando as férias que já já chegariam… Planejando revolucionar o mundo… afinal, era tão legal pensar que havia o que se fazer no mundo…

Grandes sonhos de uma velha menina que hoje está aqui, tentando realizar mais alguma coisa… E fomos crescendo… Tentando ser íntegros e fazer o melhor que podíamos…

Pai adoece… Pai morre… e a menina velha tenta, de todas as maneiras, tomar as rédeas da família para ajudar mãe e irmãos… Por isso, a cara sisuda e não muito querida pelos novos coleguinhas… mas nem estava por aí e nem estava chegando… eles não importavam muito…

E hoje estou aqui…. agora uma velha menina… tentando sonhar tudo o que deixei pra trás… e o sonhado parece bem mais distante do que eu sonhava ainda em criança…

Mas continuo a acreditar que, dia destes, conseguirei realizar…