Sem compromisso com a realidade – Por Cláudia Costa

“Só quem se aceita
tem paz de espírito.”

– Fabrício Carpinejar –

Talvez você não saiba, mas eu andei sofrendo. Sofri terror noturno, dias de realidade tão concreta como uma bigorna. Sofri pela espera, pelo excesso de palavras… sofri pelo excesso de sentimento.

Sim, eu sei que você não quer saber disso. De amarga basta a vida e todo mundo tem lá suas dores particulares. Dizem por aí que não é bacana falar sobre isso. Se a sua realidade no momento é dolorida, por favor, poupe o mundo de si mesmo. É claro que haverá aquelas almas “boazinhas” te dizendo para não ficar assim, ainda que você não diga uma palavra, que tem que rolar bola pra frente e um sem-número de coisas fofinhas igualmente infernais, para o seu bem.

Não é à toa que eu detesto gente boazinha, com todo meu ser. Gente!! Tem sacanagem maior do que minimizar a dor do outro – mesmo antes de sabê-la – tratando-a como se fosse uma escolha consciente e um papel simples de ser jogado fora? Vou te contar um segredo: a dor do outro também dói pra caramba!! Pois é… e você achava que só a sua dor era pesada… Se, por acaso do destino – ou escolha – você é destas almas que, mesmo com o mundo desabando, põe um sorriso no rosto e bota o bloco na rua, tudo bem…é uma escolha sua , e não dá pra marretar o outro com a mesma máscara que você utiliza.

Antes que me apedrejem e joguem meu nome na lama, vou esclarecer: não faço apologia à tristeza. Também não acho bacana aquela alma, cujo rosto e olhar ficam nublados e se enchem de lamúrias [sempre as mesmas, ó vida, ó azar...] ao primeiro sinal de atenção. Concordo que essa energia pesa e que todo mundo acaba fugindo do que eu chamo carinhosamente de “dementadores da vida real.”

Hoje, quis dividir com você, algo como um meio termo. Quis te contar que andei sofrendo, porque você costuma acompanhar minhas letras quando amo, rio, sou grata ou fico muito “p… da vida” com algo. Essa coisa de partilhar momentos variados é qualidade sine qua non para relacionamentos humanos qualitativos. Sei que todo mundo adora alardear vitória, alegria e toda sorte de bobagem, mas sei também que somos muito, muito mais que isso. Somos feitos dos nossos silêncios, de nossas dores, de nossos lutos.

Respeito o seu/meu momento, seja de falar ou de silenciar. Mas, quero muito que você saiba que é permitido sofrer. É permitido doer. É permitido andar descabelado, ser meio pirado, misturar alhos com bugalhos. É permitido ser você! Do jeito que é, no momento em que estiver, porque nós sabemos que tudo é construção… e momentos são nossos tijolos internos para mudar. A arte da palavra dita, erudita, analfabeta, tecnológica ou internética é uma ponte. Uma vez que você conta a sua dor, chora no olho do amigo, aquela dor se dissipa um pouco no universo. Assim ocorre com toda palavra dita. A poesia falada ganha vida e uma conotação diferente, cada vez que a voz do locutor lhe empresta sua alma. A dor, a poesia, a alegria, a vitória, a ideia, o amor… tudo que é nosso merece tom, voz e ouvido. Merece alívio, vida e abrigo.

Vim até aqui escrever da minha dor, que talvez nem seja real [afinal, o que é realidade?], porque um “amigo” me convidou a sair de perto por não rir de suas piadas. Ele não quis saber de nada, porque precisa esconder, na euforia mundana, a sua dor. Saí. Agora, venho aqui te contar que amigo também rasga a roupa da tristeza para encontrar abrigo na alegria do outro.

Cláudia Costa

Cotidiano e Dicotomia – Por Cláudia Costa

“se a tua fome for feito a minha
de palavras e (in)quietudes
faz como eu então
bebe os silêncios
em goles profundos
e o verso: rumina lentamente”

– Nydia Bonetti

Um costumava ser luz, vibrante, exagerado, pura galhardia. O outro, fechado, sombrio, silencioso, pura rebeldia. Internos, diferentes entre si e profundamente parecidos nas dores, nos sentidos, nos desejos. Encontraram-se por acaso [?] do destino. Dispararam vivências, sonhos, derrotas e concretudes. Olharam-se com brilho. Perceberam-se possibilidade. Remota… mas, ainda assim, possibilidade. Viveram. Aprenderam a respirar o ar um do outro, fingindo interesses, disfarçando animosidades, minimizando desejos, apegando-se aos desafios corriqueiros: “só por hoje”…

Escravos de si mesmos, presos em seus castelos de ilusão, negavam-se obviedades, fazendo da superfície o único lugar possível para convivência. Algozes entre si, mutilavam sentimentalidades, distanciavam doçuras, em troca de cordialidades. Guardavam as facas afiadas da frustração e do desamor, num apego tão insano quanto concreto. Não queriam abrir mão das palavras proferidas como juras no início. Volúveis e arrependidos, rogavam preces mudas ao tempo, para que houvesse um reencontro e não um fim.

Náufragos de relacionamentos anteriores, agarraram-se como bote salva-vidas. Salvaram-se… por algumas horas, que viraram dias… meses… tempo… Passado o tormento inicial, retomaram suas personas costumeiras… um para fora demais, movido a palavras, gritos, risos, atitudes… o outro, encolhido, escondido, sorrateiro… Desencontraram afinidades, dando espaço para interpretações amplas… toleraram diferenças, até perderem-se no vão de seus silêncios respeitosos.

Morreram.

“Ama-se o outro pelo modo como utiliza suas facas.”

(Autor desconhecido)

Cláudia Costa

Horizonte #16 – Por Poeta da Colina

 

Tenho duas esperanças caminhando lado a lado. Minha maior expectativa é de que elas não se encontrem. Não é medo de fazer uma escolha, é já saber que terei que escolher a razão. Uma não anulará a outra, mas terei que diminuir meus sonhos. Tenho que admitir que a emoção será a mesma, seja onde for. Até agora tudo tem sido perfeito e quero continuar com este tudo quando os dias passarem. Nunca achei demais desejar tudo, afinal, cada um tem sua própria ideia do que é ser completo. Está na hora de colocar a filosofia em prática. Agarrar as duas possibilidades com todas as forças, com todo meu empenho e ter fé no melhor. É assim que se vive uma esperança.

Poeta da Colina

Limiar entre o querer e a obrigação de ter que fazer – Por Bia Tannuri

Quando o limite do querer se funde à culpa da obrigação de ter que fazer.

Quando não é possível separar o desejo do sentimento de dever.

Por mais que se queira, não se é capaz de separar sentimentos tão distintos, porém tão capazes de se sobreporem.

Sempre haverá uma satisfação a dar, uma resposta a fornecer, uma tarefa a cumprir, quando não se é capaz de dizer ‘não’ e se achar desobrigado a ter que agradar a todos. Nunca será o suficiente quando se crê que se deve ao mundo, pois a dúvida será do tamanho da “culpa” e por isso implacável, porque o cobrador é impagável, tem várias vertentes e é o mais cruel de todos: você.

Por mais que se faça, sempre e invariavelmente, estará devendo, acabando por gerar um mar de pura frustração e dor que não tem remédio, tampouco um fim. Sofrimento eterno na busca que não finda nem ameniza, pois não há quem possa te absolver a não ser o seu próprio eu.

Bia Tannuri

Quem se importa? – Por Ana Barcellos

Sinto você comigo o tempo todo
Em quase todos os momentos do dia
É como se não pudesse viver sem você
Dependência, admito
Tudo para se não lhe tenho
A vida torna-se difícil
Sacrifício
Sinto-me indefesa
Sinto-me impotente
Sinto as demais faltas que sua falta me causa
Perco coisas que me são importantes
Nem me comunicar com as pessoas consigo
Volta logo, por favor!
Sem você, até as coisas mais simples tornam-se difíceis demais.

——–

Há 3 dias falta luz na minha casa. Toda a comida que tínhamos na geladeira, inclusive as carnes congeladas para o mês todo, estragou.
Para entrar e sair de casa, somente descendo na chuva e pisando na lama para abrir o portão manualmente.
Escuridão total. Total insegurança.
Não dá para tomar banho em casa, porque não tem água quente. Não dá para esquentar comida no microondas.
Sem computador.
Telefone não funciona.
Celulares precisam ter a bateria carregada no carro.
Perdemos a hora, pois não há despertador.
Enfrentamos o calor sem um ventilador sequer.
Não há como ligar o aparelho que espanta os mosquitos.
Precisamos economizar água, porque nosso abastecimento é de poço. Sem luz, a bomba que a traz para a caixa d’água não funciona.
Resultado: sim, estamos ficando sem água. Soubemos que os vizinhos já estão sem.
Quer dizer, estamos economizando até descarga no banheiro. Não podemos lavar roupas.
O cabo de energia que foi atingido por uma árvore no temporal dias atrás – o que causou o apagão – está lá fora dando curto até agora.
Se ele acabar de cair em cima do “lago” formado na pista pela água da chuva represada, pode acontecer um desastre. Pessoas e animais passam por ali.

Três dias de inferno. Sem prazo pra terminar. Hoje é feriado, depois final de semana. Companhia Energética de Brasília em greve.
Temos três crianças pequenas em casa. E falta tudo aqui.
Mas quem se importa?
Já pode chorar?

Agora leia o poema acima novamente, entendendo a que eu me referia.

 Ana Barcellos

Vida no automático – Por Ana Barcellos

Dia de semana

Acordo sem pensar

Executo movimentos mecanicamente

Meu corpo se move

Sem nem ao menos ter despertado direito

Violência que fazemos conosco mesmo

Celular desperta

E nos tira de onde queremos estar

Vida no automático

Vivendo sem pensar

Fim de semana

Abro os olhos no quarto escuro

Alegria ao ver que já passou das 8h

Hoje eu mando na minha vida!

E, ainda na cama, “perco tempo” curtindo atualizações dos amigos

Simplesmente porque hoje eu posso perder tempo com essas coisas

Deixo de lado os compromissos do dia

Porque hoje quero ter tempo

E hoje posso fazer isso

De repente, começo a refletir sobre a vida

Sobre algumas coisas que estão fora do lugar

Por um momento sinto falta do despertador que toca às 5h30

E não me deixa pensar

Ana Barcellos

Horizonte #11 – Por Poeta da Colina

Minha Vênus não se esconde atrás da Lua
Ela está atrás dos meus olhos,
Apenas me esperando acordar
Ela não tem o brilho do Sol
Ela tem luz própria
Parece iluminar meu caminho muito mais adiante
Como se ao lado dela tudo fosse para sempre
Não somos centros, somos companhia
Nossa órbita é uma ciranda
Juntos não importa o tamanho do universo
O possível se torna condicional a nós
Não por obrigação, mas por natureza
Fechar os olhos é tranquilo
Quando a paz vive por dentro
Quando o mundo cabe no nosso abraço
Às vezes gosto de esquecer de tudo
Confundir realidade com sonho
Para quando abrir os olhos… abrir um sorriso
Ver você… beirando o horizonte de minha alma

Danilo Mendonça Martinho