Solilóquio – Por Tuka Borba

Então vêm as lembranças e Eu revelo fotografias que nunca tirei. Ah, o passado…
Sabe, Eu faço poesia por não me contentar com a realidade. Enquanto isso, Você fica aí feito um bicho arredio.
Você se encontra em lugares pelos quais Eu nunca passei, mas me sinto como quem se lembra de cada detalhe.
Eu compreendo bem esse seu gosto pelas palavras, mas confesso que meu mundo gira ao te ler.
Me sinto tão Você que às vezes Eu confundo as vidas no espelho.
Ontem, ao dobrar uma esquina, aqui perto de casa, meus passos pareciam não me acompanhar.
Olhei para o outro lado da rua e Você andava despreocupadamente pela calçada. Eu tive inveja de Você.
Você que é tão cheio de Eu.
Você que é tão dono de si.
E eu, aqui, sem ao menos saber para que lado aponta aquela placa onde está escrito: vida.
Se Você fosse Eu, com a mesma intensidade que Eu sou você, saberia das maluquices que me rondam e deixaria de lado essas ideias absurdamente normais.
Eu escrevo pra ajudar na cicatrização, mas quem tem razão é Você.

Tuka Borba

Voe no sonho – Por Ingrid Caldas

Na verdade vejo a alma
um pássaro louco – ansiando o céu…
Quando alçou voo distante
sentiu o vento no rosto…
Sem perceber o quanto é importante,
a liberdade o envolve
assoma o fôlego que resta
e o leva em voo cego…

Triste escolha – de pouca esperança
sem saudade ou lembrança…
Antes não tivesse chorado
nem sequer lamentado…

E no recordar mais vivo segue
cantarolando um futuro
que talvez nunca virá…
Mas em seu coração
se desenha pura realidade
em sentimento…

Ingrid Caldas

Partida – Por Inge Lobato

Parto cais, para não deixar vestígios.
Remo velas, para soprar o mar.
Se faz bom tempo, sigo o sabor das marés,
Ancoro em calmaria.
Se há prenúncio de tempestades,
Sou água a lavar o corpo, a salgar os lábios,
Sou corpo de marinheiro velho,
A acompanhar o balanço dos mares.
Nasço onde posso,
Morro onde já é tarde,
Fico até fazer bom tempo,
E parto cais,
Para não deixar vestígios.

 Inge Lobato

Janela #20 – Por Poeta da Colina

Certas horas sempre chegam. O tempo nem é um fator. Vivemos sempre sabendo. Já faz algum tempo que teu recorte mudou e a paisagem agora escapa aos meus olhos. Talvez tenha sido o primeiro sinal de que aqui não era mais meu lar. Volto a confessar em teus braços na consciência de que em breve não mais o farei, sabendo quando e como te deixarei. A verdade não lhe é um segredo e, mesmo assim, suas estrelas brilham e o vento me abraça, como se não importasse o sacrifício. Todos precisamos seguir em frente. Quando digo que sempre seremos, não é nenhum clichê. É nosso sangue, nosso coração, nosso amor que cobrirá todas as distâncias. Nosso vínculo é mais que natural, é construído, laço a laço. Nessas noites que fiquei em silêncio e em tantas outras que me desfiz em pedaços, me trouxeste uma paz permanente. Quantas coisas atravessam a alma, não é mesmo? Nestas travessias cresci e encontrei quem vai me levar pelo resto do caminho. Tu fizeste tudo por mim, e farás ainda mais ao me deixar partir. Aprenderei o que só poderei sozinho, sem nunca me abandonar dos teus cuidados. Nossa relação vai evoluir, nem todos podem dizer isso ou chegar até aqui. Na cumplicidade de serem felizes, livres. Minha despedida é cheia de sorrisos, de uma profunda gratidão e da certeza que, quando fechar essa janela… não será o fim.

Danilo Mendonça Martinho

Para não dizer que eu não disse – Por Betina Pilch

Não direi que a falta de palavras doces me amarguram, tampouco que o silêncio me incomoda. Não direi que o vazio me angustia, não direi que estou perdida, nem mesmo que me encontrei. Não quero dizer nada, se não o que não direi.

Não direi que a vida é dura, nem que é fácil. Não direi que sentir demais me sufoca, tampouco que me afogo nos meus transbordamentos de mim. Não direi que não sentir tem sido ruim. Também não direi se entendo o começo, o meio ou o fim.

Não direi que não aguento mais os meus clichês, também não direi que os suporto. Não direi que estou indiferente a tudo, tampouco que me importo. Não quero dizer, dizer não quero, mas é preciso ficar dizendo com ou sem esmero.

Então, direi tudo sobre nada, mas não direi nada sobre tudo. Iluminarei minhas trevas, mas não acenderei uma luz no meio do escuro. Preciso dizer o que não direi, porque até mesmo calada vivo dizendo. E os dizeres que nada dizem acabam dizendo tudo.

Digo, digo, digo e, às vezes, esse amontoado de dizeres nada significam. Então pode ser que algo sem significado acabe significando muito, pelo menos uma vez. Talvez, quem sabe, um dia eu não saiba mais nada. Não que eu saiba algo agora, mas vivo achando que sei. Então, não direi sobre aquilo que tenho certeza. Prefiro apenas dizer sobre o que não quero dizer.

E quero seguir assim, vivendo sem dizer nada, com a brutalidade das coisas não ditas sem ser trancada, apenas trilhando essa estrada com as palavras lapidadas bem guardadas, aqui, dentro de mim.

Betina Pilch

Acrimônia – Por Tuka Borba

Com o passar dos dias, vou me eternizando em palavras
Minh’alma ecoa as horas perdidas
A vida escorre por entre os dedos, e os medos já nem fazem mais tanto sentido assim

Corre em mim uma estranha dosagem de nada
Não sento mais na calçada, e isso é perturbador

A cor desbotada das árvores
A sacada sem lua cheia
As veias jorrando imagens e as passagens formando teias

As salas frias
O cansaço das noites
Os açoites das manhãs
Afãs de um corpo desregrado

É impossível levar um barco sem vento
É impossível suportar momentos iguais
Razões pelas quais se vomitam lembranças e passados tortos

Estão mortos os carnavais

As paredes me olham com caras de sangue e de sarro
Enquanto morrem os segundos na cinza do meu cigarro

Amanhã, renascerei

Tuka Borba

Ela II – Por Heleny Galati

“Homens são governados pelas linhas do intelecto – mulheres: por curvas de emoção.” Ela leu a frase de Joyce e parou. Pensamentos de todas as profundidades tomaram sua mente. Ela não podia sorrir. Não, a frase não era merecedora de um sorriso. Ela compreendia plenamente o contexto temporal da citação e do autor. Era claro, em sua mente lógica, que tudo se passara entre viradas de séculos, entre a clausura de um período e a tentativa de liberação de outro. Claro estava, aceito não.

Ela olhou através do vidro. Estava frio lá fora, pequenas nuvens brancas tentavam fugir da escuridão da noite. Quatro horas de uma tarde de final de outono. O inverno batia na janela, mão fria, insistente. Isso a fazia pensar. Pensar nos campos de batalha escondidos nos séculos e séculos de civilização. Os soldados sem rosto, que perderam a vida nas batalhas não reconhecidas em nenhum livro de história, recordados em poucos registros.

Eram milhares que morriam sob a bandeira da honra. Milhares eram maculadas, desmerecidas, transformadas em algo inóspito e sujo por crenças desconexas, onde o invisível era mais importante que o visível sofrimento humano. Ela pensou naquelas que lutavam silenciosamente, muitas vezes sob o comando insano dos que se diziam fortes. Da falta de oportunidades que elas tinham de serem livres, inteiras, completas em sua essência, sem a necessidade imediata ou eterna de pertencer.

Ela lembrava cada rosto ferido por um agressor que dizia amar. Cada braço quebrado, cada ferida exposta, que ficavam disfarçados por acidentes. Onde a dor e a vergonha de ser quem era crescia com a indiferença do mundo a sua volta.

Não eram apenas pancadas e agressões: mortes faziam parte de suas realidades. Mortes imputadas por progenitores, guardiões e possuidores. Elas não eram um objeto, mas as dispunham da mesma forma, muitas vezes servindo de pagamento a dívidas, de presente a quem alguma facilidade proporcionara à família. Enfim, elas eram nada mais que pequenos animais obedientes, prontas a procriar e calar.

Foi assim no passado, é assim no presente. Raros foram os momentos de brilho. Extremamente poucos os instantes em que a significância foi reconhecida. Elas nada representavam e continuam a representar pouco. Retratadas em livros como ansiosas por proteção, e em filmes nos quais, mesmo quando são as ditas heroínas, ainda assim se apóiam em braços musculosos e mentes pequenas.

Agora ela sorria. Sofria de síndrome do cor-de- rosa, cor que não apreciava, lembrava a etiqueta que ela representava para todas ELAS. Alguns produtos eram maquiados de rosa apenas para serem vendidos por preços maiores – eram os especialmente desenhados para as mulheres – e tinham que ser rosa. Ela se lembrava de como seus primos e amigos temiam ser chamados de ‘mulherzinhas’ e como chorar era coisa tão delas – fracas, frágeis, choronas – nada de coragem e força, apenas fragilidade e dependência.

Vira, em sua vida por aqui, o fato de ser quem era apenas trancar portas, diminuir a importância de seu saber e, finalmente, minar a recompensa pelo trabalho de qualidade e eficiente que executava. Ela não queria privilégios, queria igualdade, só que, nessa busca, mais uma vez encontrou preconceitos e etiquetas. Sua independência, certezas, coragem, eram atribuídas a um ser masculino que a possuía. Nunca a quem ela era, nunca por ser humana, mas sempre por ser uma mulher.

Ela complicava tudo. Gostava dos desafios, não se importava com os obstáculos e, principalmente, não temia pedir ajuda para superar suas eventuais deficiências. Sim, ela acreditava em ser ajudada, tanto quanto acreditava em ajudar – mesmo que, quando se apresentasse para ajudar alguém, muitas e muitas vezes fosse repelida, como se isso representasse uma ofensa a ambos: eles ou elas. Ela criou um estilo só dela, que deixava alguns curiosos, outros olhando com repulsa e muitos indiferentes.

Ela não batia nos jargões da felicidade eterna, da família como proteção, nem no casamento como opção maior na vida. Ela acreditava no estudo, no trabalho criativo, na independência e na capacidade de aprender e superar. Ela sabia amar como ninguém, entregava-se sem limites, era aberta e indiferente àquela premissa do possuir. Tinha um romantismo sem nós, sem laços, sem perguntas. Não acreditava na fidelidade, mas no amor; não se preocupava com a reciprocidade, mas com seu sentir. Ela amava e isso importava mais do que ser amada.

Sexo não era tabu, nem prêmio, nem ferramenta para se atingir um objetivo. Era uma expressão dela mesma e seus desejos, de sua natureza e sua aceitação. Suas fantasias voavam, algumas vezes com seus parceiros, outras quando estava solitária, em devaneios. Ela era completa, entre seus livros, seus sonhos e sua liberdade.

No entanto, ela sofria. Sofria por todas que ainda carregavam deveres de ter um ou outro comportamento. Sofria pelas mutilações físicas e psicológicas de muitas. Sofria pelo silêncio e descaso com que aquelas desconhecidas sem rosto eram tratadas. As guerras continuavam, disfarçadas, muitas vezes enroladas em brilhantes tecidos, apresentadas em cenários maravilhosos. Porém, ainda assim, era uma guerra, a ser lutada anonimamente por uma liberdade conhecida apenas pela minoria, que muitas vezes a desperdiçava na vã tentativa de agradar, mas ainda se fazia presente.

O sol havia se posto. Ela pensava que ele nunca nasceria para milhares delas que seriam mortas naquele dia. Ela queria muito gritar, mas os ouvidos são surdos, os sentimentos são vazios. O mundo continua a se refestelar com as capas das revistas, com as poses, deixando no silêncio os corpos inertes, jovens seres humanos desprezados, inferiorizados e mortos num mundo em que o culpado é sempre aquele que destoa das regras. regras criadas para tentar controlar, punir e diminuir outro ser humano. Isso com o apoio e total consentimento da religião, que nada mais quer que o respeito, o direito e a oportunidade de colocar todo seu potencial para fora. A mulher não tem direitos, por mais que se bradem as conquistas das últimas décadas.

Elas ainda eram – e ela sabia que ainda era – seres humanos de segunda linha, que embelezavam Estados, garantiam cotas em empresas, mas no fundo ainda deviam casar-se, ter filhos e ser responsáveis por quem eles seriam.

Foi aí que ela parou e pensou: até que ponto somos culpadas por estarmos onde estamos? Não, ela não aceitaria mais essa responsabilidade, embora soubesse que, muitas mulheres viam diferente, não por serem más, apenas por não saberem que tudo poderia ser igual – homens e mulheres lado a lado, sem diferenças em direitos e obrigações, em oportunidades e esforço.

Ela nunca se arrependera de ser mulher. Nunca se arrependera de ser o que era, mesmo com tudo que isso lhe causava de desconforto e problemas. Ela nunca iria se encaixar nesse jogo.

Heleny Galati