Também pela chuva – Por Daniela Lusa

Hoje eu só queria a simplicidade de um banho de chuva. Queria sentir a chuva tocando meu corpo e levando ao chão tudo o que não é bom em mim. Uma purificação. Queria você aqui, também. Queria que me segurasse a mão e me convidasse para sair por aí, com os pés descalços contando os passos molhados no asfalto morno. Sento na varanda e vejo a chuva que cai sem pressa e devolve vida à grama seca. Imagino nós dois presos a um beijo molhado — também pela chuva, com os corpos unidos pela água fria e a roupa molhada — também pela chuva, mas que continuam quentes. O beijo seria como a chuva que faz reviver, vê que lindo isso? Crio tantas cenas com nós dois. Penso em você segurando a minha mão, enquanto tira as gotas d’água do meu rosto e me diz docemente: “você fica tão bonita com os cabelos molhados”, e eu lhe respondo com um beijo molhado — também pela chuva. Imagino seu toque quente e a chuva fria e isso me faz arrepiar. E nós dois caminhamos e conversamos e trememos e nos abraçamos, tudo sob a chuva fina que agora cai apressadamente. E, depois da chuva, fico querendo te ver tirar a camiseta molhada, envolvendo-me com seus braços e me aquecendo em seu peito nu. Corpos molhados — também pela chuva — mas com sede um do outro.

E eu aqui, sentada na varanda, vendo a chuva cair sem pressa.

A chuva me traz lembranças do que nunca vivi. 

Daniela Lusa

Partidas – Por Mariana Gouveia

A primeira vez que ela me falou sobre partidas foi durante uma colheita de cogumelos.

Eu já não demonstrava todo aquele jeito de menina e ela nem parecia mais a fadameiobruxameioflor, mas tinha jeito de .

Enquanto eu mordia o lado mole do capim e limpava o suor do rosto – que teimava em cair –, ela começou a falar de um certo lugar. Um local lindo, que todos iriam conhecer… e era para onde a gente ia depois que partisse.

Senti uma dor na alma com a palavra “partisse”… e imaginei uma viagem. Perguntei se ela ia viajar e, suavemente, ela disse que logo teria de ir.

– Quando você volta? – indaguei, já imaginando estar sem ela por mais de um dia. Eu nunca havia ficado tanto tempo sem sua figura… a todo o tempo, ela era presença certa na minha vida.

– Talvez eu não volte… – ela me respondeu em singeleza, como se não quisesse falar… e eu a entendia muito bem.

Depois de uma longa pausa, ela quebrou o silêncio, dizendo:

– Para tudo há uma hora certa. Assim como há a época de colher os cogumelos, de plantar os girassóis, de regar a horta, de nascer, existe também o tempo da partida.

Foi então que lembrei que meu pai já havia partido uma vez. Ele acompanhou uma comitiva de gado até outra fazenda que a gente tinha, e ficara mais tempo do que o previsto, por causa de uma enchente.

Já conhecendo meus pensamentos, ela retrucou:

– Esta viagem é diferente de todas as outras. A gente não volta, pelo menos não assim, visível… A gente volta como poesia, e só.

Aquilo me deixou triste e eu saí correndo. Fiquei um bom tempo sem ir lá vê-la.

Um dia, enquanto eu estava sentada olhando o pôr-do-sol, ela se aproximou, com um cogumelo na mão – desses bem grandões – e me deu.

Falou do meu sumiço e que achava que isso tinha sido por bobagem, porque – quando chega a hora –, a gente vai de qualquer jeito, assim como o cogumelo é arrancado de seu grupo sem poder escolher.

Falei baixinho, quase sem voz:

– Você pode escolher não ir.

– Não. A escolha não depende de mim. – ela disse.

– De quem, então? De meu pai? Eu posso pedir para ele não te mandar! Não vai nascer nenhuma criança agora…

– Não do seu pai, mas de um Pai maior. Ele determina quando a gente nasce e a hora em que a gente morre… e tudo que podemos fazer é aproveitar cada momento. Eu sou abençoada e, se tiver de partir agora, tenho certeza de que fiz a coisa certa enquanto estive aqui. Eu vivi a intensidade das coisas. Agora, para relaxar, que tal uma corrida maluca até o rio? A última a chegar é mulher do padre…

Eu sorri, meio sem graça, e topei… mas percebi a lágrima que ela limpou. Aproveitei cada momento como nunca, daquela conversa em diante.

Dias depois, ela se fora. Como um cogumelo arrancado do grupo.

Ultimamente, tenho pensado nela. Nas palavras que ela dizia e eu anotava sob a luz da lamparina, em um caderno que ainda tenho.

Faz muitos anos desde que ela se foi. Mas, todos os dias, eu a sinto. Eu a vejo e a vivifico em tudo que faço… com a intensidade de viver o que me é dado como presente: o hoje.

A saudade virou poesia em mim nas lições que pratico diariamente. E tenho certeza que – de onde ela estiver – ainda faço parte dos cuidados dela.

Mariana Gouveia

Sobre Saudades – Por Cláudia Costa

Só creio em saudades vívidas
No mais, são apenas lembranças editadas.
Saudade é boa, é gostosa, ainda que urgente.
Saudade é aproximação quente, doce ou doída
Da possibilidade de ter de novo.
Tenho saudades de coisas possíveis, concretas.
De gente bonita, de abraço apertado,
De amor melado, de beijo com gosto de café quente.
Minha saudade é de coisa palpável.
De emoção recíproca, de momento perfumado.
De quem partiu, tenho lembrança!
Pode ser forte ou meio esfumaçada,
Mas é aquela coisa apenas abstrata.
Nada a ver com o “nunca mais”
Pois tudo é passível de voltar a ser um dia
Em outra edição, uma nova capa,
Pode até virar poesia
Sei lá.
Lembrança é aquele fato
que a gente vestiu pra ficar bonito,
Disfarçado.
Editado, até café amargo vira estrela.
Saudade, não… Saudade é promessa
É carinho que ficou na pele.
Saudade é essa emoção abstrata
Com peso de concreta.

Cláudia Costa

Saudade de você… – Por Hélia Barbosa

Noite calma, lua cheia se exibindo no céu, e eu me sento próxima à televisão; mas não saberia dizer o que se passa na tela à minha frente. Meus pensamentos vagueiam para muito além desta sala, vão pra longe desta casa, e têm um destino único e certo. Porque é nestes momentos, em que encerro a correria de cada dia, quando o silêncio toma conta de tudo por aqui, que eu penso mais mansamente e profundamente em você.

Até parece que uma invisível mão mágica acaricia minha cabeça e faz com que se apaguem todas as lembranças tristes e dolorosas que eu possa ter de você e das coisas que a gente viveu. Tudo o que eu sinto é um carinho imenso, um afeto suave, e só vêm à minha mente lembranças ternas e doces de momentos vividos, de emoções divididas e alegrias multiplicadas. E, então, eu sinto uma falta enorme de sua presença, um desejo imenso de transportar você para perto de mim.

Madrugada adentro, eu me pego escrevendo, em textos românticos, tudo o que eu queria dizer para você, sem medo de parecer boba e ingênua, sem censuras, sem críticas, sem cortes e edições. E as linhas que escrevo são um retrato fiel dos sentimentos bonitos que inundam meu coração, como flores a enfeitar um jardim esquecido em uma manhã de primavera.

As primeiras luzes da manhã me encontram ainda acordada, e sentindo tanta saudade de você! Guardo minhas confissões de amor numa gaveta, onde ficarão esquecidas, junto a tantas outras que escrevi e nunca tive coragem de te mostrar. Talvez, quem sabe, em um dia qualquer, eu descubra que os meus medos são tão menores que a falta que você me faz e, finalmente, te revele que tudo o que escrevi até hoje foi em sua direção. Até lá, o tempo vai passando, impiedoso, enquanto você, em algum lugar, segue normalmente sua vida, sem suspeitar de que, em uma distância – muito mais de escolhas do que geográfica –, há alguém se lembrando ternamente de você e desejando, ardentemente e loucamente, deixar tudo para estar apenas ao seu lado.

“Me dê notícia de você, eu gosto um pouco de chorar, a gente quase não se vê, me deu vontade de lembrar. Me leve um pouco com você, eu gosto de qualquer lugar, a gente pode se entender e não saber o que falar. Seria um acontecimento, mas lógico que você some. No dia em que o seu pensamento me chamou, eu chamo o seu apartamento: não mora ninguém com esse nome. Que linda a cantiga do vento; já passou. A gente quase não se vê, eu só queria me lembrar, me dê notícia de você, me deu vontade de voltar.”

(Chico Buarque – Cadê Você)

Hélia Barbosa

Cheiro de saudade – Por Daniela Lusa

Foram alguns minutos que me salvaram de um banho de chuva. Bom, ao menos foi isso que pensei no instante em que me vi abrigada, enquanto o céu desandava lá fora. Naquela tarde, em vez de seguir o caminho direto para casa, decidi parar para resolver algo há muito tempo pendente.

Parei, entrei, olhei pela janela. “Vai dar tempo”, pensei. Não deu. Sem saída, sentei-me no sofá perto da porta, que dava de frente para a rua. Conformada com minha falta de sorte, o jeito era esperar. Apoiei o queixo com as mãos e fixei os olhos lá fora. Foram meus minutos de calmaria em meio às horas de caos que ditam o andar da minha vida. Senti uma vontade imensa de sair e ir para casa na chuva mesmo. Pedalar na chuva é uma das minhas formas preferidas de renovação.

Aquelas gotas d’água, que caíam tão apressadamente, despertaram em mim lembranças adormecidas no cantinho da memória. Lembrei-me da infância, de quando fugia da minha mãe, para correr no asfalto molhado e depois deitar com os olhos fechados e a boca aberta – para pegar algumas gotas que caíam direto do céu. Se naquele instante eu não carregasse na mochila todo o peso de ser adulta, juro que sairia feito doida na rua e encharcaria meu cabelo e minhas roupas com aquela água tão pura. Porque às vezes é só disso que a gente precisa para lavar a alma: da simplicidade de um banho de chuva.

Quando finalmente o céu cessou o seu pranto, notei o ar mais puro, me senti mais leve e percebi que a vida pode ser mais bonita se a gente tiver a sorte de contemplar a chuva num dia cansativo e em que tudo parecia dar errado.

Saí para a rua, olhei para o céu ainda meio choroso e respirei melhor. Acho que a saudade tem cheiro de terra molhada.

Daniela Lusa

Das lembranças que eu trago… – Por Hélia Barbosa

Hoje eu li um texto que me lembrou tanto você! Era um artigo que falava de educação, política, sociedade e mais uma miscelânea de coisas. Parecia uma daquelas nossas longas conversas, que começavam com um assunto e terminavam com outros que nada tinham em comum com o primeiro. E levavam manhãs, tardes, noites ou madrugadas inteiras.

Senti uma saudade enorme de você. Uma falta imensa da sua companhia, das nossas discussões, do seu jeito de me instigar. Além de todas as saudades que você me desperta, ainda veio essa. Senti saudade de mim mesma, da mulher mais interessante e politizada que você me ajudava a ser. Quis te ligar, ouvir sua voz e falar bem isso mesmo: que li algo tão interessante, que me lembrei de você, que senti saudade, que sinto sua falta.

Mas aí me pareceu tão piegas. Meio apelativo. Até podia ouvir minha voz melosa, como uma menina, falando dessas coisas com você. E me senti boba. Coisas de mulher orgulhosa, que quer se mostrar sempre forte e madura, eu acho. Porque eu sabia que não ia ficar só no bate-papo filosófico e na saudade intelectual. Falei pra mim mesma: “Bobagem, já passou”.

Eu não te liguei. Mas fiquei lendo aquele texto e pensando em cada comentário que você faria sobre ele. E fiquei relendo textos que você escreveu. E textos que você havia lido e compartilhado comigo. E comentários seus sobre textos meus. E me peguei olhando suas fotos e relembrando momentos, conversas e acontecimentos.

Foi então, bem quando essa onda de nostalgia se abateu sobre mim, que eu pensei que você poderia estar fazendo exatamente a mesma coisa, naquele exato momento. Quem sabe você também não tenha lido aquele texto e se lembrado de mim? Quem sabe você também não tenha parado, por um bom tempo, para olhar as minhas fotos e recordar tantos momentos bons que a gente dividiu? Quem sabe essa saudade que me inundou aqui também não te atingiu aí, te deixando com uma vontade louca de me ligar e me falar tudo isso? Quem sabe o seu orgulho machista não falou mais alto e te fez desistir?

Talvez, sim. Ou, talvez, você tenha lido o artigo e nem se lembrado de mim. Ou, talvez, nem tenha visto esse texto circulando por aí.

Isso, provavelmente, eu nunca vou saber. Assim como você nunca saberá o quanto esteve presente em todos os meus pensamentos hoje e o quanto ainda faz parte da minha vida, mesmo que seus passos o levem para cada vez mais longe de mim.

“Um perfume bom, propagandas de batom, fantasias pra usar no carnaval.
Roupa branca balançando no varal… Tudo me faz lembrar você! […]

Cigarros e lábios, labirintos átomos, mudanças de tom, refrões de amor.
Janelas e espelhos, reflexos e canteiros de girassóis
Se confundem com você o tempo inteiro!

E até hoje não houve um só dia
Em que eu não me lembrasse daqueles nossos dias.
E até hoje não houve um só dia em que eu não me lembrasse de você…

(Jota Quest – Tudo me faz lembrar você)

Hélia Barbosa

Pra te sentir aqui…- Por Hélia Barbosa

Aceite esse meu poema torto,
Confuso como o meu coração
E desconexo como os meus sentimentos,
Já que ele é o único modo que encontro
De chegar até você.
Aceite essas linhas que escrevo
De forma tão despretensiosa,
Já que nossos mundos, opostos,
São como paralelas
Que nem no infinito
Conseguem se encontrar.
Aceite minha poesia sem rimas,
Como nossas vidas, distintas,
Distantes do nosso querer,
Já que os nossos desencontros
Nos levaram por caminhos
Tão diferentes
Do que planejamos trilhar.
Aceite essas minhas palavras,
Que são suas.
Deixe que elas lhe toquem,
Que o acariciem
E beijem lentamente sua boca,
Já que, por nossas decisões
E escolhas
Foi a única forma que achei
De te amar
E te sentir comigo
Outra vez.

“Você foi o melhor dos meus planos
E o maior dos enganos que eu pude fazer.
Das lembranças que trago na vida
Você é a saudade que eu gosto de ter.
Só assim sinto você bem perto de mim
Outra vez…”

(Roberto Carlos – Outra vez)

Hélia Barbosa