Crônica de uma tempestade anunciada – Por Daniela Lusa

O ar pesado é sempre prenúncio de que algo grandioso está por vir. Uma tensão no ar. O corpo padece. A mente se esgota. Chega ao limite. Tudo pesa. Tudo cansa. Tudo implora por uma purificação. O clima exaustivo pede para ser renovado. E a cor do dia se desbota aos poucos. Até virar cinza. Cinzas. Como restos mortais do sol.

Os minutos que a antecedem são sempre os mais sublimes.

O dia fica cinza, o céu escurece, a noite chega mais cedo. Tudo se esconde. Uma tempestade está anunciada. Toda a angústia carregada por dentro é precipitada por fora, gota a gota. E, depois, despejada. Uma vazão contínua de agonia. O escoamento de tanto pesar.

A tempestade, enfim.

E a melancolia cai com as gotas de chuva.

Por fora, a chuva molha. Por dentro, as lágrimas lavam. E tudo se renova.

Era para ser uma crônica de uma tempestade anunciada, mas acabou sendo sobre a melancolia eminente. Talvez porque elas coexistam em mim.

Não sei escrever uma crônica sobre algo que sinto de maneira tão aguda. 

Daniela Lusa

E quem é que nunca desejou morar em um abraço? – Por Daniela Lusa

“Obrigada por não desistir de mim”, ele me diz, em tom melancólico apesar de feliz, apertando ainda mais seu corpo contra o meu… e segurando minha mão como nunca havia feito. Ouço a angústia misturada ao alívio em sua voz e, enquanto me viro de frente para ele, busco encontrar o seu olhar. “Como se eu realmente pudesse”, devolvo-lhe, sorrindo.

Enrosco meus braços em seu pescoço e fixo meu olhar agora no dele. Sinto que preciso eternizar esse momento e aproximo meus lábios, desenhados em um meio sorriso trêmulo, dos seus, tão bem riscados em um rosto bonito… beijando-o ternamente. Fecho os olhos por um momento, na tentativa de conter as lágrimas, que eu jurava terem secado desde que ele partiu sem me dar esperanças de retorno. Mas, o choro me foge aos olhos… e isso me faz sentir que estou viva.

Ele voltou para me resgatar do poço de solidão que eu mesma cavei durante todo esse tempo. Sorrio e afasto meus lábios dos dele, abominando toda e qualquer lembrança amarga que as lágrimas poderiam me trazer nesse instante. Não… são lágrimas de felicidade, de alívio por não ter morrido, de gratidão por ele ter me salvado de mim mesma! Sussurro um “obrigada”, com a voz entrecortada. Ele me aperta contra seu peito e me beija na altura da testa.

Eu, que sempre me senti perdida, naquele momento percebi que ele era o lugar onde eu tantas vezes quis estar. E desejei morar para sempre em seu abraço.

Daniela Lusa

Transplante de coração – Por Mariana Gouveia

“Nos demais, todo mundo sabe, o coração tem moradia certa,
fica bem aqui no meio do peito,
mas comigo a anatomia ficou louca:
sou todo coração.”

(Vladimir Maiakovski)

Precisa-se de um coração, desses que bombeiam vida, para alguém que tão docemente precisa viver.

Pode ser um de menina, com seus três anos e sua crença nos contos de fadas. Que colore a vida, as ruas, a família e sua casa com lápis de cor. Pode ser de uma adolescente que vive seu primeiro amor e que bate acelerado só de pensar no nome do amado. Que sonha, ri e desenha corações nas folhas de cadernos, como quem enxerga poesia e vê corações nos muros da cidade.

Pode ser de uma mulher de vinte. Que ainda tenha encanto no olhar. Que acredita nas paixões pulsantes. Que erra, que ama e sonha. Que muda de ideia e, ainda assim, permanece igual. Mas, também pode ser de um guerreiro que luta e acredita no motivo de sua luta. Ou o coração de um palhaço. Ou uma mulher de sessenta que viveu, amou e chorou, mas que foi feliz. Que ainda é feliz.

Tem de ter se alegrado em todas as estações. Ter viajado pelos continentes dos sonhos, das vontades e do bem querer. Tem de ter desejado voar infinitas vezes pelo céu azul. E, pelo menos uma vez na vida, ter presenciado uma estrela cadente em sua viagem pelo universo.

Pode acreditar em outros idiomas. Em outras crenças. Em outros planetas. Em seres extraterrestres e, ainda assim, sonhar. Pode ser apenas coração, mas isso não quer dizer que não tenha de ser humano.

O mais importante é que no simples ato de doar haja a entrega. Não importa se menino ou menina. Se moço ou velha. Basta apenas que ame. Ame o mundo todo como se fosse dele e que tenha cuidado desse coração com a máxima coragem de viver.

Pode ser um coração sofrido, com as cicatrizes mostrando as experiências grandiosas que ele viveu. Pode ter vivido vários amores ou apenas um só e único. Um coração que tenha sido ferido e se curado com o tempo.

Precisa-se de um coração. Grande. Em que caiba todo amor que houver no mundo. Que saiba acolher o barulho do vento, a brisa da tarde e o perfume das flores, e que cante na chuva como louco. Que bata no ritmo dos pingos ou na sintonia das canções.

E, se doar, que seja apenas pelo lado único do amor. Porque doar coração é doar a alma e, com ela, uma família inteira de sentimentos.

Pegue. Meu coração é seu.

*Embora escrito pelo lado poético, seja um doador.
Fale com sua família. Doar é um ato de amor.

Mariana Gouveia

Do que não se explica… – Por Hélia Barbosa

Não sei bem como explicar isso. Sei que é uma coisa que sinto. Eu só sei sentir.

Também acho que ninguém vai entender e, por isso, evito comentar. Quase nunca falo disso.

Acontece que, mesmo depois de tanto tempo juntos, às vezes me vem, de repente, uma onda de amor tão grande por ele!

É bem assim mesmo: uma onda enorme de amor! Por ele!

Chega assim, do nada. É quase palpável.

Eu me sinto inundada por esse bem querer de uma forma que não sei exprimir. Só sei que me dá aquela vontade de dizer:

– Nossa…. eu te amo tanto!

Nem sempre eu digo. Às vezes, apenas olho pra ele e sorrio.

E ele me beija e me embala em seus braços de um jeito que não me deixa a menor dúvida de que ele está me dizendo:

– Te amo demais também, minha linda…

E porque ele diz que eu sou linda, então eu me sinto linda e parece que o mundo me acha linda também…

Porque ele tem uma influência enorme sobre o meu humor e sobre o meu sorriso.

E, a despeito de todas as mazelas do mundo – e das milhares de pequenas chateações dos meus dias – ele continua provocando os sorrisos mais lindos em mim.

A minha vida é mais linda porque um dia ele chegou de mansinho, fez seu ninho, sossegou e ficou.

“E as coisas lindas são mais lindas
Quando você está… onde você está…
Hoje você está
Nas coisas tão mais lindas…
Porque você está
Onde você está…
Hoje você está
Nas coisas tão mais lindas…”

(Nando Reis – As coisas tão mais lindas)

Hélia Barbosa

Céu – Por Catia Netto

Um verdadeiro desatino de querer,
Com gosto de quero mais…
Vontades não supridas

Apenas um vazio permanente,
Um pedaço que se foi com pressa…
Explicação faltosa.

Unicamente sentimento sem nome,
Cheio de riso, silêncio e adeus…
Sentidos sem sentir.

Ali continha tanto de tudo,
Sentir fixado na paixão…
Recíproca pretendida.

E era só saudade vestida de dor,
Uma falta daquele céu azul…
Imensidão que acolhia.

Catia Netto

Palavras – Por Tuka Borba

Palavras que invadem sem pedir licença
Palavras de crença, palavras tontas
Palavras prontas pra fugir das bocas
Palavras loucas de atar
Ar, er e outras terminações
Combinações verborrágicas de letras nervosas
Ditosas pretensões

Palavras de ouvir falar
Calar por não saber
Reter sem traduções
Bordões que teimam e se repetem
Palavras que se metem demais
Outras que desaparecem atrás de estranhos silêncios

Palavras que rimam
Outras que se atiram de precipícios
Vícios por assim dizer

Abracadabra, pé de cabra e outras variações
Palavras que viram canções e que não saem da cabeça
Palavras que não se esqueça e outras que ninguém mais vai lembrar
Palavras que fazem ficar e outras que afastam
Palavras que se arrastam durante anos
Planos, paixões
Razões pelas quais não se pode entender
Preces e textos
Pretextos de um mundo que já não sabe mais o que vai dizer

Tuka Borba