Já não se fazem mais tempos como antigamente… – Por Tatiana Kielberman

Ouço algumas pessoas ao meu redor costumeiramente reclamando da falta de tempo. Não raro, atrapalham-se com os prazos que assumem e correm feito loucas para alcançar o final do dia… Somente quando chegam em seu derradeiro limite, lembram-se de que têm pulmões e – ah… que curioso! – precisam respirar.

Mas, ouvindo com atenção aguçada às vozes que me circundam – e, acima de tudo, ao dirigir o olhar para os meus diálogos internos – percebo que talvez não estejamos necessariamente mais velozes, nem atarefados o bastante para reclamar tanto…

Quem de fato se modificou, nessa história toda, foi o próprio senhor tempo… Isso porque, em minha leiga opinião, não se fazem mais tempos como antigamente. Sinto – sinceramente, e não apenas só eu – que algumas horas desapareceram de nossos dias… e não há sinal ou vestígio de onde elas estejam!

Em outras épocas, penso que havia um tempo destinado a sentir. O sentimento pleno, sem amarras nem justificativas. Aquele que se fazia importante pelo simples fato de sua existência.

Havia o tempo de dialogar. De tatear o espaço do outro com delicadeza e trazê-lo ao nosso mundo… convidá-lo a partilhar suas experiências, agregando vida e vibração.

Existia, também, o tempo do sonho. Não aquele distante – irrealizável –, mas sim o sonhar que se podia querer real, muito próximo a si.

Muitos outros tempos se desmancharam no ar, seguindo a rumos intocáveis… e, cá entre nós, não sei se os recuperaremos. Tempos de amar, de cuidar. Comer pipoca no banco da praça. Caminhar de mãos dadas. Sorrir… Viver.

São tempos invisíveis em nossos dias, esses… E nós – humanos condicionados – assim aprendemos também a enxergar apenas o tempo que passa diante de nossos olhos…

Tatiana Kielberman

Tempo estranho – Por Joakim Antonio

Como medir o tempo da melhor maneira, quando o pensamento está em quem se ama? Pelo relógio lógico ou pelo biológico? Pois, no lógico, pode ter se passado apenas um dia, mas – no coração – às vezes se arrasta um ano… e o olhar brilha mais só de saber que o outro vem.

É inevitável pensar que ainda nem fizeram 24 horas e você só se lembra da demora, dos minutos que faltam no relógio lógico, pois, no biológico, eles sobram. Sobram tanto, que você tem tempo para tudo, preenchendo os buracos… até poder ver quem – de certa forma – supre o vazio em você.

E, quando chega o momento do encontro, você se vê todo de braços abertos, todo colo de espera, todo “casa”, esperando quem tem espaço para, no seu coração, morar.

Realmente o tempo é estranho, talvez para mostrar que saudade não segue o ritmo das horas, adequando-se apenas ao tamanho… O tamanho de quanto seus braços abrem, abraçam e apertam o outro. Porque, no relógio do coração, sempre é hora de amar.

Joakim Antonio

Desdobramentos Mentais – Por Cláudia Costa

“A gente atrai
aquilo que transmite.”

– Desconheço autoria, mas boto fé –

Fui ali, fazer o que todos nós fazemos: viver. O causo é que, definitivamente, cada dia mais e mais, ouço pessoas que, como eu, não sabem onde foram parar seus dias, o que fizeram com suas horas… Em comum, trazemos o cansaço físico, mental e emocional. Cansaço físico tem lá sua alegria de existir, afinal, é também para cansar o corpo que milhares de pessoas frequentam academias. Já o cansaço mental provoca uma confusão desenfreada, de ideias, de objetividade e de concentração [que vai pro espaço]. O cansaço emocional, bom… esse tem tantas nuances e é tão absurdamente dolorido, que até dá vontade de deixá-lo embaixo do tapete… uma tentativa tão vã quanto alucinada de manter a emoção cativa, ali…escondidinha… vez em quando, fazendo nela um carinho disfarçado, como quem acarinha o cão de guarda, numa tremenda fé de que ele não vá mordê-lo e arrancar um pedaço de você.

Tempos corridos, tempos idos, futuros, oblíquos, marginais. Vendemos nosso tempo, perdemo-nos entre os holofotes imaginários, cedemos aos impulsos magnéticos do cérebro que aumenta nossas compulsões. Não vemos nada disso. Ouvimos falar que o mundo morre de cancêr, que executivos, advogados e estudantes se entopem de ritalina para produzir mais, para não sucumbir ao cansaço ou à desconcentração gerada pelo excesso de informação por todos os lados. Não sei como você se sente, mas eu, sempre que estou em eventos sociais, tenho a sensação gritante de estar participando de uma peça de teatro. Fantoches da vida real. Tudo isso me dá um certo arrepio agourento…

Viram como, em dois parágrafos, já consegui divagar por toda sorte de assunto? Pois então, meu amigo, é disso que falo! Desse aceleramento meio desvairado – muito produtivo, em que, entre nervosismos e risos, vamos levando nossas mentes, nossos corpos… cada vez mais talhados para virar máquinas. Como nem tudo é maledicência e derrota, há o lado bom dessa bagunça toda. Acredita-se que, em breve, o ser humano será capaz de dominar suas emoções (deve ser para isso que servem todos os remedinhos inventados para fins psicoterápicos… será?), o que inclui uma reprogramação do cérebro, para entender a dor como simples sinal do corpo e não mais sofrer por senti-la. Fenomenal!!

Estamos avançando a passos largos e, quanto mais rápido isso ocorre, mais medo, ansiedade, dor e estresse são causados e, vai-se dando a tão famosa lei de Darwin: a seleção natural. Muitos ficarão pelo caminho, arrasados pelos “males do mundo”. Avante!! É preciso progredir, aumentar, ultrapassar barreiras…Enquanto isso, vamos aproveitar nossas pequenas e maravilhosas emoções… ter prazer ao abraçar um amigo que se ama, rir com o riso da criança, amar nossos animais como se fossem parte integrante de nosso próprio corpo. AMAR… é uma emoção, lembram?

Passo ao largo de ser uma espécie de monge budista, cujos ensinamentos devam ser levados em conta, mas, vez em quando, tenho medo de virar um desenho animado e explodir como um vulcão, em trilhões de pedacinhos vermelhos espalhados pelo ar, de tanto que as emoções me invadem e ficam lá… ecoando seus burburinhos, conversando sobre milhões de assuntos, apontando mil caminhos, numa conversa interna e ininterrupta… São os excessos que me afogam, mas que também me tornam a boa amiga, a humana afetuosa. Duas faces da mesma moeda, talhada no excesso de viver. Gostaria de ver a humanidade espargir afeto e alegria, como já fazem os golfinhos, tratando seu coletivo com respeito e alguma delicadeza, desarmada de atitudes defensivas de guerrilhas emocionais tão desnecessárias. Mesmo sem ser um monge tibetano ou candidata à miss universo, gostaria que a humanidade pudesse trabalhar em prol do afeto.

Faça amor, não faça guerra. Faça arte ao invés de perder tempo agredindo o coleguinha. Agrida-se menos, permita-se ser amigo do seu tempo, leia, pinte o sete, o oito, cante para espantar os males e perceba, nos detalhes, onde se escondeu o tempo que a gente não viu.

Cláudia Costa

Enquanto o outono não vem… – Por Inge Lobato

Começo de abril, maio, não lembro… Sei que meus pés pisavam folhas secas e o sol tingia de cobre a minha pele, num ouro envelhecido, quase laranja, como as folhas crepitantes que estalavam sob meus pés. Era outono. No lugar onde resido, a mudança das estações não é tão marcada como em outros lugares…  difícil distingui-las sem usar um calendário.

Parece-me que o calor intenso do verão fixou residência por aqui, e o frio do inverno é turista, vindo visitar-nos somente por alguns dias. E chuva, muita chuva, torrencial, por longos quatro meses. A primavera vive em estado de capricho: desabrocha flores quando lhe convém, seguindo um calendário próprio, porque do convencional tenho a impressão de que nunca tomou conhecimento. Já o outono, amo, apesar de conhecer apenas suas folhas amareladas. Mas é o suficiente para adorá-lo, com toda delícia e dor, paz e renascimento que me ensinou… tão necessários ao ciclo da vida.

Não recordo o mês, mas aquela tarde, sim… nunca me saiu do peito. Folhas secas cobriam a varanda inteira da casa, e eu me extasiava de alegria em pisá-las, em fazer delas um colchão para amortecer minha infância e os meus olhos encantados pelo mundo. Era uma alegria pura, cruel e humana, como a de toda criança: amassar as folhas dentro das mãos pequenas, jogá-las para cima como num sorteio de cartas, e tentar pegar os fragmentos que choviam sobre meu sorriso, ardente em excitação.

As veias que levaram a seiva da árvore, o caule antes verde e resistente, o retorcido formato… tudo estava lá, impresso naqueles pedaços mortos de árvore, agora entregues à sorte de um pequeno furacão em pleno verão, tão pouco ciente de que também outonaria, assim como as folhas.

Meus avós já outonavam quando nasci. O calor dera lugar a uma brisa suave, quase morna, a uma paciência com os dias e seus ponteiros. Mercado, dinheiro, carreira – nada disso mais fazia sentido. No outono eterno da minha infância, importante era reunir amigos para o churrasco, tomar banho de mangueira, recolher as mangas no quintal para fazer potes e mais potes de compota. Tinha dia de peixe na folha da bananeira e dia de aprender como mertiolate arde. Ficar de castigo por jogar bola dentro de casa e derrubar os xaxins de samambaia lá fora, para depois voltar ao castigo de novo.

As prioridades eram outras: estar vivo por mais um dia, comer e dormir bem. Sentar-se em uma cadeira de vime e conversar sobre os mistérios das estrelas, achar o dragão de São Jorge na lua, que eu sempre afirmava ter visto, só pelo prazer de ouvir a gargalhada dos meus avós. No fundo, desconfiava de que não existia dragão algum, mas ouvir minha avó rir brava com a mentira simulada me fazia feliz.

Importante era saber cantar tangos de Gardel ou contar histórias escabrosas de um cara perigoso feito o diabo, chamado Lampião… contar lendas das águas, como a existência de sapos do meu tamanho no lago Titicaca, ou a de um monstro pré-histórico em outro lago, o Ness. Depois, ser astronauta e encontrar São Jorge pessoalmente, para saber um pouco mais da solitária e extraordinária missão de cuidar de um dragão…

O verão parecia-me – como até hoje se apresenta a mim, em termos climáticos – eterno, e tudo de que eu precisava era não dormir demais, pois tinha muito por descobrir todos os dias. No entanto, naquela tarde quente, em que as folhas da mangueira sofriam com minha algazarra, meu avô convocou-me para um passeio. Sentou-me no banco dianteiro do fusca amarelo e fomos velozes, a 20 km/h, rumo ao cemitério.

A palavra cemitério já me soava enigmática e sinistra, imagine o local. Eu não tinha permissão para entrar lá, mas meu avô adorava quebrar regras, e me chamou para o “mórbido passeio”, convite que aceitei feliz, imaginando que descobriria mais um dos grandes segredos do mundo. E, no fundo, eu estava certa.

Grande e ágil, a passadas largas, ele foi esgueirando-se entre tumbas, até chegar ao nosso destino. Dei a mão a ele por precaução, afinal, Michael Jackson havia encontrado seres medonhos em um cemitério que se assemelhava àquele. No caminho, riu zombeteiro do meu medo, e disse: “Não tenha medo dos mortos, eles não podem mais fazer nada. Tenha cuidado é com os vivos”. Mas eu ainda não entendia a morte, apenas os zumbis… e continuei segurando firme a sua mão.

De repente, ele parou em frente a uma tumba branca, recém-pintada. Nela, reluzia sob o sol uma grande pedra retangular de mármore, também branca, com detalhes esculpidos em cor negra: uma bela cruz entalhada na ponta superior e, abaixo do símbolo, letras e números que ainda não faziam qualquer sentido para mim.

– Estava devendo ao seu bisavô. Fizeram um trabalho muito bom, durável para a vida inteira. Agora, é só pintar de branco todos os anos, e pronto! E, quando os detalhes em negro sumirem, preencher com tinta. Não é linda?

Achei bonita mesmo, mas não entendi o que tudo aquilo tinha a ver com meu bisavô. Por trás da tumba, uma abertura quadrada chamou minha atenção, ao que ele esclareceu:

– Bom, passados alguns anos mais, poderemos retirar o caixão de seu bisavô por essa abertura, e transferir os ossos dele para uma caixa menor. Em um futuro não muito distante, estará você aqui, a cuidar do seu bisa e de mim, já que não vou durar muito. Mais uns três anos, no máximo. Você vem trazer flores para o vovô?

Ah! A descoberta do outono, da morte, do renascimento, dos ciclos que se repetem e jamais são iguais… da vida a morrer em cada segundo vivido, dos veios retorcidos nas folhas secas a fazerem sentido na pele de vovô… a despedida já confirmada para um futuro agora menos alegre.

“Quanto tempo são três anos, vô? Falta muito, vô? Como eu saberei que já são três anos, vô? Meu aniversário chega antes dos três anos?”

Naquele dia, comuniquei solene ao vovô que havia transferido a incumbência das flores a minha mãe, e ele riu, achando que meu medo era do cemitério… mas ele estava enganado. Eu havia descoberto algo mais assustador que cemitério, zumbis ou Lampião.

Agora, sabia: o inverno iria vir, e era uma questão de espera. Lembro-me ainda do esforço em entender a passagem do tempo, de guardar calendários na carteira para marcar os instantes em que eu ainda teria a luz do outono a iluminar meus passos, para depois fingir pouca importância aos anos e suas estações, pensando que talvez eles – também – se esquecessem de mim.

O inverno chegou, e eu ainda contei mais vinte e um outonos desde aquele primeiro no cemitério. Veio rápido e de partida anunciada, como meu avô gostava de fazer… do modo como sempre acontece em minha região. No último dia do meu outono prolongado, soube que renascer seria vital até que – em mim – frutos colorissem uma primavera súbita e intensa, e um novo verão pudesse explicar os tangos de Gardel e as estrelas.

Gosto de pensar que tenho longa estrada até que o outono chegue novamente, mas reduzo o compasso para que as folhas secas venham lentamente ganhar espaço em mim. Já não me importa tanto o relógio, apenas os amigos do peito, livros e doces caseiros. Ainda invento dragões em meu telescópio, e percebo que São Jorge nunca deixou de me proteger deles.

Embaixo da lua, sereno, e deixo o brilho dela tingir lentamente de branco os meus cabelos. E, enquanto o outono não me anoitece, vou colhendo algumas flores no caminho… Um dia, eu as levarei para aquele com quem sacramentei acordo há muito tempo.

“Como é o grande arquiteto do universo, vô?!”

Inge Lobato

Além do que se foi – Por Cláudia Costa

           “A vida não é uma pergunta a ser respondida,
é um mistério a ser vivido.”

– Buda –

Era uma manhã de quinta-feira, sol a pino, barulho nas ruas logo cedo, a correria matutina de todos os dias. Rotina. O telefone tocou insistentemente ao meu lado e, pelo horário, estranhei. Atendi. A voz do outro lado me contava a notícia: uma amiga querida havia “feito a passagem”. Emudeci, completamente incrédula. Dois dias antes, trocava com ela percepções da vida atual, nossos receios, previsões, posturas. Nós nos conhecíamos desde meninas e havíamos nos perdido pelas circunstâncias naturais da vida, que une e separa pessoas a seu bel prazer. Graças às redes sociais, reencontramo-nos e estabelecemos natural sinergia. Agora, a notícia tão inesperada quanto absurda: MORTE. Inacreditável.

Calei-me ante o acontecimento. O silêncio é a única coisa em mim capaz de vivenciar perdas. Minha forma conhecida de respeito. Não consigo chorar, embora pense nisso, mas normalmente choro pelo que transborda e não pelo que falta. Na falta, viro oração silenciosa, devoto-lhe pensamentos, lembranças… Construo um altar espiritual, permeado de memórias, aprendizados, trocas.

Procuro alento em outras falas, lágrimas alheias que não me comovem, mas aumentam meu vazio. Começo a contar tempos, refazer caminhos. Não penso em fugir da morte, seja a minha ou dos que rodeiam… Torço apenas para partir antes, de modo a não sentir tanta saudade e, quem sabe, ter a honra de recepcioná-los com sorrisos largos “do outro lado”. Depois de perder algumas pessoas muito amadas para a própria vida, não é a perda pela morte que me deixará com medo.

Sim, sinto dores, pelo corpo todo… são meus órgãos se realocando, tentando preencher o espaço que fica. Perder dói. Pensar nisso pode doer ou não, dependendo da crença que tenhamos. Deste lado, acredito em adeus dado em vida: esse sim é forte, fatal. Já a morte é, para mim, um “até breve”… daqui a pouco a gente se encontra, numa outra esquina. É a vida… preciso morrer para adubar árvores que ainda não plantei, para [quem sabe?] ser lembrada por quem, em vida, me esquecia, com alguma fagulha de carinho, de talvez…

Morte, de verdade, acredito que seja essa, do total esquecimento. Quem vive na lembrança daqueles com os quais conviveu não morre, apenas se ausenta temporariamente… faz viagem para lugar inédito, cheio de mistério, onde não serão permitidas fotos para póstuma postagem nas redes.

Cláudia Costa

Tempo – Por Heleny Galati

Ela apreciava a caminhada, era uma de suas atividades favoritas; estava entre ler um livro e escrever. Caminhar representava um tipo de amálgama entre a leitura e a escrita, possivelmente porque, enquanto caminha, ela observa a vida – dela e de outros. Hoje, num lindo dia de junho, o sol decidira mostrar toda sua energia. O verde estava tão verde a sua volta que, algumas vezes, ela desviava o olhar para não perder o senso de direção.

Aquele parque havia sido a residência de campo de alguém, que fora transformada em espécie de museu-jardim e abrigo de patos e cisnes. Calma e agitação se alternam ali, assim como nela.

Enquanto caminha, vai criando estórias. Algumas lhe escapam depois, nunca serão escritas. Outras ela consegue manter acesas, até que o computador – não consegue escrever mais com papel e caneta – esteja próximo e em ação. Neste instante, as ideias vão, da mesma forma que a pintura e a escultura – sendo moldadas, combinadas e finalmente transpostas da mente para a tela em branco. Colorindo com símbolos em preto e branco a folha virtual de papel.

Ela gosta desses improvisos provenientes das emoções despertas no ato de caminhar. Ela passa por um caminho longo, pedregulhos cobrem o chão de terra. De cada lado, árvores em intervalos sombreiam o caminho naquele dia de sol. Ela olha para cada janela criada entre uma árvore e outra, e de repente começa a ver o tempo retroceder.

Na primeira janela, olha para a jovem mulher. Ela ainda carrega sonhos em seus braços, mesmo que a maioria deles tenha morrido de inanição, maus tratos e surtos de realidade imposta. Ela sorri para a mulher jovem que foi, tão consciente de suas obrigações, de sua ‘adultês’. Não tinha tempo para a poesia, para o pôr-de-sol, os sabores dos morangos e a sensualidade do champagne. Era uma mulher de cama, mesa, banho. Um tipo específico esperado e cantado. Não apenas Amélia, além, um misto da mulher de verdade com a intelectual de salão. Havia, no entanto, outra sufocada e escondida, perdida e nunca liberada.

Na próxima janela, observou a adolescente. Como a paixão, aflorava em sangue, lágrimas e palavras. Poesia fluía como lava, quente, áspera, cortante. Ela viu todos os planos feitos no quarto, onde a irmã dormia e ela sonhava. Relembrou cada um deles, como quem se lembra de velhos amigos falecidos e quase esquecidos. Chorou e riu, com os planejamentos de ser uma cientista, uma mulher livre e simples, que traria respostas para perguntas que poucos tinham coragem de fazer. Tudo que ela pensava sobre si e seu futuro ficava guardado no baú de sua mente. Nunca permitira dividir isso com ninguém, eles não compreenderiam, possivelmente o riso seria a resposta – como quando disse que seria engenheira – assim, melhor sonhar sozinha.

Agora, a janela, entre o verde, mostrava a criança que fora. Os cabelos negros encaracolados, olhos escuros e um sorriso que, mesmo depois de tantos ‘nãos’, permanecera o mesmo. Era incrível que pessoas que não cruzaram seu caminho desde que era um bebê a reconheciam pelo sorriso. Ah! Sorriso e olhos. Ela sempre vai se lembrar do mito de seus olhos negros, profundos, repletos de mistérios. Assim como a beleza de seu sorriso, sempre pronto a iluminar o caminho de alguém, mesmo que, escondidas, lágrimas brotassem e rolassem dentro de seu corpo pequeno.

Fora uma experiência e tanto se ver em três momentos de sua vida… imaginava se cada uma delas, cada uma que ela fora, ainda repetia os mesmos gestos, os mesmos pensamentos… se elas seriam felizes e infelizes na mesma intensidade. Seriam?

A última janela foi uma surpresa. Ela viu os Universos, não apenas este que ela habitava agora, mas todos que existiram, existem e existirão. Enxergou-se neles, como parte significativa da energia, átomo que não poderia faltar no todo. Sorriu, pois não importava mesmo se os sonhos se completavam como planejado. Sequer se era amada ou desejada, Era necessária. Não a um, mas ao todo e isso, isso sim, dava significado a cada cicatriz que colecionara pela vida.

Ela saiu do caminho, virou à esquerda, cruzou a rua e seguiu pela direita. Agora cantava uma música que falava de esquecimento. Sorriu, dos olhos aos lábios… ela nunca iria esquecer.

Heleny Galati

Janela #5 – Por Poeta da Colina

No trem não é a vida que passa pela gente, somos nós que passamos pela vida. Uma hora ou outra me parece natural que embarquemos no sentido contrário. Será que estamos prontos para encarar o passado? Por dois dias seguidos, olhei sem querer reconhecer o pedaço de mim que deixei para trás. Hoje foi um entre tantos. Estar disposto é estar exposto. Mas era um sinal, uma oportunidade do universo para fechar uma porta e acalmar o coração, que palpitou muito antes de decidir ir em sua direção.

Talvez algum inconsciente te apontaria o dedo na cara e diria: “Te amei, sabe?”. Mas deixei isso há muito tempo enterrado nas flores que te mandei. Boa parte do que era, depositei ali. Não tive mais notícias delas e livre eu pude seguir. Ao me sentar ao seu lado, jogamos conversa fora com a mesma liberdade de antes. O que era já não está. Saiu pela porta e fiquei com a certeza de que não te encontrarei mais. Pelo menos não você daquele passado. A lembrança se desfez.

Quando o trem saiu do túnel, na estação a céu aberto, poderia mesmo dizer que tudo foi um sonho. Afinal, quando olhamos de dentro para fora, tudo perde o foco e não conseguimos dizer exatamente o que ou quem está em movimento.

Danilo Mendonça Martinho