Voe no sonho – Por Ingrid Caldas

Na verdade vejo a alma
um pássaro louco – ansiando o céu…
Quando alçou voo distante
sentiu o vento no rosto…
Sem perceber o quanto é importante,
a liberdade o envolve
assoma o fôlego que resta
e o leva em voo cego…

Triste escolha – de pouca esperança
sem saudade ou lembrança…
Antes não tivesse chorado
nem sequer lamentado…

E no recordar mais vivo segue
cantarolando um futuro
que talvez nunca virá…
Mas em seu coração
se desenha pura realidade
em sentimento…

Ingrid Caldas

Inseparável simbiose – Por Roseli Pedroso

Sentada na encosta observo o mar

batendo incessantemente nas pedras.

Percebo que sou como elas, as águas.

Sua indiferença é como esse paredão

Inabalável. Imóvel. Muda.

Eu, enquanto água, me jogo, te ataco, estapeio,

espirro de tanto amoródio por ti.

Arrebento-me toda e,

em moléculas quebradas, volto ao ponto inicial.

Você segue sua vida intacto.

Eu sigo remendando os cacos das quedas.

E permanecemos assim, anos a fio

Você irredutível

Eu, mar bravio

Você intocável

Eu, implacável

Você glacial

Eu, vulcânica

Inseparável simbiose

Quem é Roseli?

Roseli Pedroso é bibliotecária por opção e vocação, escritora por amor à palavra. Iniciou sua trajetória em meados de 2010, num curso de criação literária promovido pela Editora Terracota. De lá para cá, viu-se tomada por diversas entidades que não a deixam mais em paz, a não ser nos momentos em que “gasta seus dedinhos no teclado”, transformando ideias em narrativas. Participou das antologias Abigail (Terracota), Corda Bamba e Ocultos Buracos (Pastelaria Studio) e lançou seu primeiro livro de contos Recortes de Vidas (Scenarium Plural), esse último fazendo parte do projeto Exemplos: Contos.

Seu blog: http://sacudindoasideias.wordpress.com/

Noturna – Por Ingrid Caldas

Ando pensativa ultimamente,
observando momentos,
ao viver a vida que quero – e escolhi…
Deixo-me por levezas
que só a memória é capaz de aproximar…

São noites de tormento
Sono que soluça tremores
desliza em lençóis
plenos de suor…

No rastro da tua ausência
inebriada pelo perfume que não sinto
sigo por caminhos,
sorvo gotas que vem de ti…

Gritar de nada adianta…
Chorar é distante refúgio…
São mãos – na pele plena
São a vida, enfim…

Então… escrevo!

Ingrid Caldas

A mística das letras – Por Tuka Borba

A poesia é abissal. É pra quem tem o “texto sentido”.
É preciso mais do que ler. Olhos de ver traduzem e nos conduzem às mais fascinantes fontes.
O poeta amplia o horizonte quando passa a escrever.
As linhas se cruzam onde a plataforma é o pensamento.
E, os momentos de registro tecem uma gigantesca teia de ideias que transcendem a razão.
Pausas, rimas, métricas que são seguidas por quem faz da vida uma interminável canção.
Coração que dita mãos aflitas pra criar.
Noites insones e uma porção de nomes pelo ar.

Tuka Borba

Eu árvore – Por Joakim Antonio

eu árvore
eu poeta
eu crescendo de ideias
sons e tons constantes
de pensamentos soltos
presos no tempo
descendo ao caule
à semente e flor

eu árvore
eu poeta
eu palavra certa
nas folhas impressas
em telas de vidro negro
estimuladas por fótons
elétrons e retinas despertas
por sentimentos táteis

eu árvore
eu poeta
eu raízes antigas
explodindo em versos
trazendo o passado
presente e futuro incertos
nunca quase tortos
sempre quase retos

eu árvore
eu poeta
eu tudonada
entre cordas bambas
sobre abismos infindáveis
no pulo derradeiro
numa última vã tentativa
de retornar ao que realmente sou

Joakim Antonio

Balada do encontro… – Por Ingrid Caldas

Deslizei meu olhar sobre ti
em gestos lentos e sutis…
Movimentei-me por teus passos
silenciosamente…

E a luz do sol brilhou em tua pele
radiante e esplendorosa…
Semicerrando olhos distantes
entre brincadeiras e risos…

Um pensamento brota trêmulo
percebendo teu perfil inerte…
A urgência do sabor emerge
no calor de teus poros
Subitamente…

Perder-me em ser – quem sou
Que te encanta e te amansa
Te excita – e dança…
Ofegante…
Num ritmo intenso e voraz…

Ingrid Caldas

Vácuo – Por Ingrid Caldas

Muda, sigo a passos lentos…
A luz escorre pela parede – rasgada –
em desenhos estranhos que não sinto.
A escuridão assume…

Eu nunca me dispo nas sombras…
Não deixo que envolvam a pele –
convidativa – abrindo-se ao corte…

Como esquivar-me sem ser ouvida…
Sem parar – lenta – sobre os próprios passos?
Uma outra boca sussurra-me
o que deve permanecer…

Assim, deserta, tolero o impuro
sorvo seu gosto – agridoce –
esperando…

Ingrid Caldas