Acrimônia – Por Tuka Borba

Com o passar dos dias, vou me eternizando em palavras
Minh’alma ecoa as horas perdidas
A vida escorre por entre os dedos, e os medos já nem fazem mais tanto sentido assim

Corre em mim uma estranha dosagem de nada
Não sento mais na calçada, e isso é perturbador

A cor desbotada das árvores
A sacada sem lua cheia
As veias jorrando imagens e as passagens formando teias

As salas frias
O cansaço das noites
Os açoites das manhãs
Afãs de um corpo desregrado

É impossível levar um barco sem vento
É impossível suportar momentos iguais
Razões pelas quais se vomitam lembranças e passados tortos

Estão mortos os carnavais

As paredes me olham com caras de sangue e de sarro
Enquanto morrem os segundos na cinza do meu cigarro

Amanhã, renascerei

Tuka Borba

A vida é uma passagem de ida para onde você quiser ir – Por Betina Pilch

Vai, menina. Chegou a hora de crescer. Este é o momento. Não há mais tempo. Cresça. Torne-se imensa.

Olhe para céu e perceba que pode chegar lá. É verdade, fadas não existem. Mas, acredite: você consegue voar.

Seque estas lágrimas imediatamente, borre cadernos consertando seus versos e sua história, mas não borre seu sorriso para não manchar sua glória.

Corra, menina! Vá atrás dos seus sonhos, gente grande também pode sonhar. A diferença é o que você vai escolher fazer para realizar.

Chega de sofrer por coisas bobas, não seja uma menina tola. Aprenda a olhar a vida de cima, encare os problemas e sorria.

Vai, menina, depende apenas de você. Não se permita murchar, busque sempre florescer. Porque um deserto sem flores é mesmo um deserto. Mas, um deserto florido pode ser chamado de jardim.

Sim, seja sua própria morada e o seu próprio quintal. Seja sua própria paz e o seu próprio vendaval. Perca-se dentro de si mesma, brincando de pique-pega consigo. Seja sua própria morada e seu próprio esconderijo. Assim ninguém vai saber se você está em casa ou se fugiu.

Psiu! Não desvie a atenção, me escute! Não desista daquilo em que acredita. Siga em frente e lute.

Apenas não se esqueça: mesmo sendo mulher, continue sendo menina, porque você prometeu quando pequena que não seria adulta um dia.

Entendo que já se considere velha devido às lições que a vida te deu, mas eu sei que seu coração ainda não envelheceu.

Não rime mais o amor com dor, pinte-o com alguma cor.

Torne a vida prazerosa, para que ela seja gostosa de ser vivida. Entenda que crescer significa aprender a lidar com as feridas.

A fase de tirar a casquinha do machucado já passou. Agora, deixe de uma vez cicatrizar toda a dor.

Olhe para frente, arrisque-se, não tenha medo das novas quedas, pois elas com o tempo trarão firmeza às suas pernas. Assim como é preciso conhecer as trevas para reconhecer uma luz, também é preciso conhecer a queda para, ao se levantar, enfim começar a caminhar.

Agora caminhe. Anime-se. Determine metas. Só não grite. Silencie. Aprenda a ouvir mais do que falar. É necessário escutar para não falhar.

Erre, erre o quanto for preciso, mas aprenda a consertar. Permanecer no erro não te levará a nenhum lugar.

E você não chegou aqui para perder a viagem. Então, após todas as instruções… Segure firme, menina. Respire fundo… Vai começar a decolagem!

Betina Pilch

Sal da terra – Por Inge Lobato

Havia uma paz ali. E eu não sabia como poderia haver paz em meio a tantos desacertos, palavras cegas zunindo ferozes na direção de ouvidos e rostos. Simplesmente não entendia como poderia haver paz ali.

Um verde-descuido adornava o quintal, mas eu amava a selvageria com que a natureza lidava com o descaso. Nela, o barulho dos pássaros, grilos e sapos transbordava, em meio a folhas mortas e verdes-vivos novinhos, lambendo qualquer resquício de área sem vida.

Era uma ocupação silenciosa – uma invasão bárbara – conquistando terreno, aos poucos, no calar da noite. O capim crescia à margem do cimento, e se jogava por cima da varanda, deitando seus braços longos em cima da área construída. Uma orquídea sequestrava o tronco do pinheiro, em um matrimônio que enchia o ar e os olhos. Eram, agora, uma só vida. O pinheiro de brincos dourados.

Estava hóspede dessa terra selvagem, que um dia me deu à luz. Um fruto enlatado que não sabia mais existir em plena barbárie. Havia me acostumado à ansiedade das metrópoles, que seduz os olhos para longe da morte, da terra da qual sou parte – ainda que a negue de todas as formas –, presa a uma teia que me priva da lembrança e sofrimento de ser mortal.

Mas, eu admirava esse mundo velho e bárbaro, maravilhada e pequena, porque o sabia antes de mim. Nem sei por que desacreditei dessa realidade. Não ganhei um minuto sequer a mais de vida negando que – antes e depois de mim – existirá essa “casa”, que sepultará a todos. Talvez a existência, e não a morte, fosse essa condição de enxergar o tempo com os pés no chão, com uma promessa de dias tão longos como a ignorância de quantos nos bastam para deixarmos um personagem qualquer, escrito em memórias e linhas banais.

Ergui o celular no ar, em busca de alguma conexão que me resgatasse da singularidade da vida, e o vento veio sacudir violentamente as folhas das palmeiras, e a viva memória da raiz da qual fora feito meu tronco. Não pude ignorar que – para além das inúmeras diferenças ocasionadas pelos anos afastada do sal daquela terra – eu ainda permanecia conectada a ela. E nenhum sinal veio dar por mim naqueles confins de mundo.

Inge Lobato

A vida é uma peça de teatro que ela nunca ensaiou – Por Betina Pilch

Tudo que ela queria era ser misteriosa. Acreditava que seria mais fácil lidar com a vida se ninguém soubesse o que se passava dentro dela. Talvez fosse mais suportável lidar com a sua companhia se ela não ficasse alagando a vida dos outros com aquilo que transbordava do seu interior.

Era difícil não saber esconder os sentimentos e pensamentos que formavam aquela menina, às vezes tão velha, outras vezes tão criança. Talvez ela fosse um livro infantil com páginas amareladas. Ou um livro novo com enredo antigo. Não sabia como se classificar. Ela era diferente, aberta, mas de difícil leitura. E, a cada nova abertura que ela fazia em si mesma, era um novo arrependimento e uma nova murmuração. Acreditava que era sempre melhor ter ficado quieta, mas o silêncio fugia o tempo todo, deixando abertas as portas da emoção.

Com certeza, ela preferia ser um livro em branco àquele cheio de rabiscos confusos, que ninguém conseguia entender. Aqueles rabiscos gritavam, mesmo sem emitir som… e seu barulho a irritava tanto! Mas, não tinha jeito: a sina daquela menina era viver com a vida assim mesmo, entalada na garganta. E, por isso, ela falava tanto… para ter acesso à própria existência.

De fato, ela não era misteriosa… tinha tendência à transparência, bastava olhar para os seus olhos que todos enxergariam seu interior. E era fácil fazer parte da sua vida também, porque ela tinha amor para dar, doar e doer, mesmo que nunca o recebesse de volta. Ela tinha palavras de conforto para todos, ainda que não tivesse alguém para lhe confortar quando ela mesma precisava.

É… Ela realmente gostava de falar. Gostava de fazer os outros perceberem que eles não estavam sozinhos, porque ela se manteria ali para ajudar. Gostava de tentar entender as pessoas e mostrar para elas que as compreendia. Sempre dizia aos que amava o quanto eles eram importantes em sua vida. Sim, ela precisava expressar o que sentia. Era essencial cada demonstração.

Acreditava que a vida era para ser vivida assim: intensamente! Sem jogos, camuflagens, máscaras… feita de extremos. Era intensa até mesmo nas vírgulas, que tentavam pausar seus sentimentos… e, em cada ponto final, ela conseguia enxergar as reticências. Sentimentos não tinham fim. Uma vez sentimento, sempre sentido, mesmo que às vezes sem sentido algum.

Mas, nessa de pensar tanto nos outros e cuidar tanto de todo mundo, ela se esquecia de pensar em si mesma, de cuidar da sua própria história. Cometia negligências consigo, sempre se colocava em segundo plano e não conhecia o egoísmo.

Ao correr atrás da felicidade alheia, deixava de ir atrás de sua própria vida. Nunca protagonizou seus sonhos. Concretizava suas fantasias através do próximo, simplesmente por não saber lidar consigo e, ao parar para ler sua história, percebeu que tinha escrito mais sobre os outros do que sobre si mesma.

Deixava que os demais subissem no palco da sua vida e se tornassem protagonistas, porque ela jamais saberia lidar com os aplausos, muito menos com os vaias da sua peça. Então, tornou-se mera coadjuvante da história que escreveu.

Eternizou sentimentos que nunca serão correspondidos, cuidou de quem nunca cuidará dela, arrancou sorrisos de quem nunca a fará sorrir de volta, chorou por quem nunca notou suas lágrimas. Sofreu por quem nunca conheceu o sofrimento, lutou por quem nunca quis ser conquistado, correu por quem preferiu ficar sempre parado e viveu por quem não sabia o que era viver. Tudo isso porque ela não sabia ser metade. Não sabia ser fração. Não saía dando pedacinhos dos seus sentimentos às pessoas, porque isso a lesionava. E ela compreendia que, após tantos retalhos, não haveria bordados capazes de esconder os remendos feitos nela.

Por isso se dava por inteiro, a ponto de não sobrar nem um pouquinho dela para si mesma. Queria abraçar o mundo e, em meio a esse desejo, esquecia que seus braços eram curtos demais. Mas ela só sabia ser assim e, não importava o que fizesse para tentar mudar, não conseguia. Porque seu jeito de cuidar de si mesma era cuidando daqueles que estavam próximos.

Então, não… ela não era misteriosa, não tinha o melhor papel para atuar na sua própria vida, não era mocinha nem vilã. Era mais espectadora do que atriz, era destrambelhada e complicada, vivia dando com a cara na porta e pulando janelas, mas só fazia pelos outros aquilo que esperava que um dia fizessem por ela.

Betina Pilch

Ele – Por Heleny Galati

“Tem coisas que são simples e nós complicamos, tem coisas que são complicadas e nós ‘temos’ que simplificar.” Essa é uma das frases favoritas dela, e a razão é simples: ela vive isso todos os dias.

Complica o acordar pela manhã com desculpas, com preguiça e até mesmo aquele sentido de depressão tão constante em sua vida. Complica seu relacionamento, insistindo que o outro caiba em seus sonhos, que seja o ideal e não o real. Complica todos os momentos de sua jornada para o trabalho, reclamando de tudo e de todos. Do trem lotado, do ônibus atrasado e, especialmente, da falta de educação de quem a cerca. Complica e complica.

No entanto, ela precisa simplificar quando se trata do filho. O que lhe toma toda energia e traços de felicidade. Ele não é afeito a mudanças, só que mudanças passaram a ser um constante em sua vida. Mudou de escola, país, casa, amigos e, logo depois, apenas passados três anos, precisou modificar tudo novamente. Justo ele, que não tolera um novo condimento na comida, uma forma diferente de preparar o macarrão ou o jeito novo de dispor um objeto em casa. Logo ele, que se recusa a experimentar algo novo, tem que fazê-lo todos os dias. Cabe então, a ela, simplificar essa complicação da vida dele.

Não para por aí. Ela tem que abordar os estudos de maneira especial. Não adianta exigir, punir… não funciona. Tirar computador ou televisão ou qualquer regalia, tem efeito contrário. Então, é preciso abordar com criatividade e paciência, incentivando e insistindo no que ela chama de ‘sermões da montanha’, dia após dia. Ele tem sempre certeza de que está certo, mas ela sabe que não… Porém, contradizê-lo não funciona: ele precisa descobrir isso – seja na conta de Matemática, no tópico de História ou mesmo no novo jogo que acabou de comprar. A autoestima dele é baixa, às vezes, como se ele desconfiasse de quem é, do que é capaz. Isso machuca, pois ela o ama demais para aceitar passivamente tal fato.

De manhã, acompanha a preparação para a escola, tenta manter o moral alto, até ele fechar a porta… então, ela desaba. No meio da tarde, quando ele retorna, ela novamente veste a fantasia da felicidade, do contentamento e da leveza, recebendo o filho com ansiedade e sorrisos. Lição de casa, conversas sobre o dia… Ele algumas vezes nervoso e irritado, ela tendo que manter o bom humor. Ambos cansados, afinal, estrada tem sido longa.

No começo, ela pensava que o erro era seu. Que ele era fruto de seus excessos, de seus altos padrões. Pessoas a haviam convencido disso, fazendo com que ela acreditasse em sua incapacidade de ser mãe, levando-a a uma distância tal que, mesmo perto, ele não conseguia alcançá-la. Ela tentou fugir, ele aceitou, mas ela não conseguiu. Voltou a lutar ao lado dele, mesmo exausta, sofrendo, com medo.

Apenas agora, nesta nova estrada, ela percebe que não foi sua culpa. Só hoje ela vê quem ele realmente é, sem as etiquetas que os demais, em outros tempos, em lugares medíocres e atrasados, impingiram a ele. Neste momento, ela escuta, de profissionais não amadores, respostas a suas dúvidas: ele é inteligente, ele é esforçado, educado, gentil, doce… enfim, ele é completo e capaz.

Ela está sentada na sala escrevendo. Novo livro, novos momentos. Ela ainda não está feliz, faltam poucas pinceladas aqui e ali, um toque de liberdade, uma cor de aventura. Ela continua esperando, pacientemente, mesmo que complicando o simples, pelo momento em que ele voará… e ela, também.

Heleny Galati

Sei lá (ou aqui, enfim) – Por Betina Pilch

Não. Não. Não.

Não estou bem. Céus! Definitivamente não estou. Eu tampouco sou para poder estar. A aparência por aqui não rima com transparência.

Sorrir, às vezes, é só ir, com espaço e sem os dois erres do meio, mesmo… e eu tenho só ido para não sei onde.

Há sorrisos por aqui, sim. Mas não me pertencem. Eles existem apenas para serem dados a outras pessoas, que precisam de uma emissão de luz em dias tristes. E sorrir para o outro não significa estar sorrindo.

Não. Não mesmo.

Meu sorriso é minha luz de emergência, que rapidamente se acende quando percebe que se faz necessário iluminar, mas a luminosidade interna está apagada. E aqui dentro está tudo tão escuro ultimamente…

A vida tem que entender que já não há mais inquilino dentro desse cadáver ambulante que chamo por meu nome, não há alguém para prestar contas de algo. Meu eu foi embora e, por isso, a luz dentro de mim foi cortada.

Não, minha alma não sorri faz tempo. Há tempos não sorrio para mim, porque já não há mais eu nessa pessoa que já não é mais minha também.

Eu queria tanto voltar para casa, já não moro mais em mim e maldita hora em que a vida despejou meu eu daqui ou de lá… não sei, já não lembro onde estou.

É… Descobri que há uma linha tênue entre doar e doer, que vez ou outra se rompe e, quando rompida, gera um abismo perigoso. Muita coisa já morreu por cair ali.

E eu? Me doei, me ‘doí’ e, por fim, me perdi. Quiçá morri e não percebi. Ou percebi e não senti. Ou senti, mas não vi. Ou vi e esqueci.

Pode ser. Tanto faz. Não me interessa olhar para trás.

Só queria um resgate imediato da pessoa que eu sou. Não me apetece ser, no futuro, um fruto do que há aqui hoje.

Por isso eu só queria voltar a ser, porque esse verbo já não cabe mais no contexto em que vivo. Se é que vivo.

Já não sou, porque deixei estar. Ou simplesmente estou, porque – talvez – assim seja.

Betina Pilch

Finados… finalmente mortos!? – Por Cláudia Costa

“Há tanta gente morrendo a cada dia, sem partir.
Esta saudade do tamanho do infinito caindo sobre nós.
Esta lembrança dos que já foram para a eternidade.
Meu Deus!
Que ausência tão cheia de presença!
Que morte tão cheia de esperança e de vida!”

– Padre Juca –

Dia de Finados… mais um de nossos feriados cristãos. Esse tem por objetivo celebrar, em missa e voz, os amigos-irmãos que já partiram do nosso cotidiano.

Particularmente, um dia como outro qualquer, mas que insere em si uma alforria social para que possamos chorar, relembrar e reviver nossos “mortos”. Sim, mortos entre aspas, muitas aspas nessa palavra, por sinal. Afinal, quantos de nós não conhecem um, dois ou meia dúzia de zumbis que ainda nos circundam?

A palavra “mortos” entre aspas, neste texto, também é usada pela memória, pela lembrança que nos mantém vivos nos corações daqueles que tocamos em vida. Juro para vocês que eu conheço “gente morta” muito mais viva do que alguns “vivos”. Ainda há pouco, li um trecho de desabafo em que uma alma querida se dizia feliz, porque amanhã poderá se lembrar de um ente amado em voz alta… seja para lamentar os abraços não mais possíveis aos nossos olhos, seja para rememorar os feitos da pessoa que se foi, seu abrigo, seu amor… Confesso que o desabafo me doeu.

Sim, também trago minhas lembranças… boas e más, pois são parte do que os “mortos”, que me tocaram, deixaram em mim. Não, você não entendeu errado: eu tenho lembranças ruins de alguns “mortos”, sim! Jamais consegui entender essa coisa de fazer de um morto uma espécie de santo. Fulano era um traste, em vida todos reclamavam dele, viviam cobrando posturas diferentes e blá-blá-blás cotidianos, até que “bateu as botas” e instantaneamente se tornou o ser mais amado e angelical da família. Não cola, não cabe, não vira. Hipocrisia deveria ser proibida por lei no campo das emoções, mas isso já é outro papo.

Deixando de lado a beatificação dos simples mortais como nós, sigo  aguardando o dia dos vivos. É isso mesmo: dia dos vivos! Claro que não me refiro aos tais zumbis, que se alienaram dentro da rotina trabalhadora-consumista dos dias, mas dos vivos de verdade. Esses, que ainda se lembram de incentivar, sorrir, cumprimentar, olhar nos olhos, enfim… que se recordam dos seus vivos. Espero ansiosamente o dia em que as pessoas hão de se programar para serem mais afáveis com o seu entorno, com o coleguinha ao lado e mais, muito mais, com aqueles que lhes aturam no dia a dia. Não somos santos! Nenhum de nós é e estamos tranquilos com isso… logo, para que aguardar o Dia de Finados para cuidar, chorar, lembrar, dizer que se ama muito alguém? É preciso mesmo esperar essa ausência constante para valorizar o outro em voz alta?

Que tal orarmos, dizer que amamos e o quanto estimamos nossos amigos-entes-irmãos hoje, também? Que tal festejarmos e cultuarmos nosso abrigo possível? Fazer jus à vida, dando um abraço mais demorado naquele irmão chato [mas que você não consegue se imaginar sem], beijar as mãos de seus pais até se cansar, mostrar que ama quem você ama? Que tal celebrar com o padeiro, que te dá “o pão de cada dia”, o BOM DIA que vocês terão? Que tal chorar de emoção e saudade antecipada, ao abraçar carinhosamente seu pai, sua mãe, seu filho-tio-sobrinho-cônjuge-afilhado-amigo?

Gostaria que esse Dia de Finados fosse comemorado com alegria. Aquela genuína, forte, vibrante… que contagiasse a todos a nossa volta. Gostaria de ver pessoas com sorrisos de gratidão estampados no rosto, por terem tido a bênção de conviver com aqueles que partiram. Que fosse uma data regada a lágrimas de saudade e carinho por todos os que foram e ainda são muito vivos em nós… mas também pelos que aqui estão, tornando nossa jornada cotidiana uma caminhada de aprendizado, afeto, tolerância e evolução.

Podem dizer que o dia é de Finados, mas eu convido você, que me lê, a dançar o ritmo do afeto entre seus vivos, abençoando com sua atitude humana, educada e sensível a todos os seus “mortos”. Fica o convite, caro leitor, para celebrarmos em grande estilo a chuva, a renovação, a semente, a emoção e a vida… sua, minha e de quem vier.

Cláudia Costa